Revista Parêntese

Parêntese 60: Um lugar no mundo

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Parêntese 60: Um lugar no mundo

Até uma certa época, Porto Alegre tinha um trauma: não alcançar um milhão de habitantes. Lembro que nos anos 60 até os 80 aparecia esse comentário, meio em surdina, sempre que um novo censo aparecia. Parecia que para ter um lugar no mundo precisava ter um milhão.

Ocorreu que vinte anos atrás, e não por causa do primeiro milhão de habitantes, Porto Alegre ganhou um lugar nas manchetes do mundo. Não era pelo Mundial do Grêmio, em 83, nem o do Inter, que viria em 2006. Era porque aqui se realizou o primeiro Fórum Social Mundial. Literalmente mundial. Em Porto Alegre.

Os motivos e aspectos dessa façanha modelar – aqui real, mensurável pelas manchetes e comentários mundo afora – estão evocados neste número 60 da Parêntese, que com grande orgulho abriga um texto do Gustavo de Mello, outro do Ben Berardi e outro do Olívio Dutra. Três figuras que estavam envolvidas, em proporções e metiês diferentes. Mais o show de fotos de Dulce Helfer e Carlos Edler, testemunhas oculares do evento.

(Vá entre parênteses uma nota: como editor, busquei com bastante afinco um texto de um liberal sobre o FSM. Sem brincadeira nem ironia: queria compor esse painel dos vinte anos com uma visada externa. Não consegui. Mas fica o registro e o desejo de ter na revista uma variedade de pontos de vista, não para abrigar tarados mentais defensores de tortura e coisas afins, mas para ouvir gente que tem na democracia seu horizonte necessário.)

O Fórum se multiplicou e se dividiu e agora não é mais manchete senão em nichos muito específicos. O que é uma pena: se tivéssemos mantido por esses vinte anos uma visada global para os problemas, a pandemia talvez pudesse ter tido outro enfrentamento.

Mas a vida segue com encantos. Duvida? Então lê a entrevista com a Sayonara Pereira, bailarina e professora de dança com uma história simplesmente maravilhosa. Nascida na antiga Colônia Africana do bairro Rio Branco, viveu a dança aqui na cidade até o limite possível, transferiu-se para a Alemanha, onde viveu quase vinte anos, e agora é professora da USP. Simples assim? Não: complexo e magnífico, como a vida é.

Falando em entrevista, como um brinde ao Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, oferecemos aos leitores uma bela conversa do Cristiano Goldschmidt com a cantora Valéria Barcellos, um material extra, disponível exclusivamente no nosso site (na semana que vem, o conteúdo estará também na versão em pdf).

Nossa cozinha conta com os textos do Arthur de Faria, o Eduardo Vicentini de Medeiros, a continuação da história que o José Falero vem contando e o novo capítulo do folhetim do Marcelo Martins da Silva. Tudo papa fina. 

O nosso Paulo (Coimbra) Guedes segue com o terceiro texto de reflexão sobre a língua em que escrevemos. Antonio Villeroy, exatamente o mesmo Totonho, grande cancionista, fala sobre um aniversariante desses dias, o maiúsculo Tom Jobim. E temos a presença marcante de Paloma Amorim, com uma crônica aguda sobre uma das tantas diferenças sociais brasileiras. 

Chico Botelho nos dá o gosto de comparecer com uma resenha, do livro de estreia da poeta Mar Becker, e nosso caro Élvio Funck, talentoso e metódico tradutor do Shakespeare, oferece um raro soneto do bardo inglês, em tradução interlinear e comentários. 

Encerramos a edição com uma sensível carta, da leitora Ana Cristina Tietzmann, que se machucou na vida real e se consolou com a edição passada. Sempre é um gosto saber como estamos sendo recebido aí nessa ponta da conversa, nesse precioso lugar no mundo que é o do nosso leitor, da nossa leitora. 

Luís Augusto Fischer

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