Sabatina Parêntese

Flávio Kiefer na Sabatina Parêntese: “A cidade é vista como um grande negócio”

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Flávio Kiefer na Sabatina Parêntese: “A cidade é vista como um grande negócio”

No sábado, 6 de julho, a quarta edição da Sabatina Parêntese – Conversas sobre o futuro recebeu o arquiteto Flávio Kiefer. O evento ocorreu na livraria Paralelo 30, em Porto Alegre. Kiefer discutiu o tema “Cidade, isso ainda existe?” em um bate-papo com o professor e editor da revista Parêntese, Luís Augusto Fischer.

Mestre em arquitetura pelo PROPAR/UFRGS e professor na PUCRS, Kiefer já foi diretor do Instituto de Cultura e atualmente escreve quinzenalmente para a plataforma Sler. Como sócio-fundador da Kiefer Arquitetos, é responsável por projetos como o Espaço Força e Luz, a Casa Lutzenberger, o Centro Histórico Vila Santa Theresa em Bagé e, juntamente com Joel Gorski, a Casa de Cultura Mário Quintana.

Durante a conversa, Kiefer instigou o público a refletir sobre o conceito de cidade, citando exemplos de diversas regiões do Rio Grande do Sul, de Bento Gonçalves a Bagé. Ele destacou a transformação urbana global: “Até 50 anos atrás, a maioria da população mundial era rural; hoje, é urbana. Já não há uma distinção entre o rural e o urbano. As cidades estão dentro de nós”.

O encontro foi promovido pela Matinal. Confira o vídeo:

Vida em “não lugares”

Flávio Kiefer começou a conversa questionando sobre as representações atuais de uma cidade, chegando ao conceito daquilo que seriam os “não lugares”, espaços marcados pela homogeneidade ou mesmo a ausência de memória, devido às rápidas transformações em razão de fatores econômicos e tecnológicos. “Que diferença tem um shopping de Porto Alegre, da Bahia ou de Londres? Se nos largarem em um shopping em qualquer lugar do mundo, não temos referência”, afirma. Para ele, a população corre o risco de habitar territórios amorfos, onde não há reconhecimento entre nós e o espaço, urbano ou não. “Como eu acho que é importante essa relação com essa cidade que carregamos dentro de nós, é importante ter consciência disso e defender que a cidade continue existindo do ponto de vista material. É muito triste não poder mostrar para um neto onde eu nasci, onde brincava, isso está deixando de existir”. 

O que a enchente revelou sobre nós

O arquiteto apontou que eventos climáticos extremos que impactaram Porto Alegre revelaram uma grande falta de cuidado com a capital e regiões próximas. “Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, eram cidades protegidas contra as cheias, mas houve um descaso total na manutenção dessa proteção”, disse. Outro ponto levantado foi a falta de conhecimento da própria população acerca do sistema de proteção contra cheias: “A grande culpa é dos nossos administradores, mas nós enquanto cidadãos temos uma parcela de culpa. O cidadão porto-alegrense não conhecia que tinha esse sistema. Achavam que o sistema de proteção era o muro da Mauá”. 

Quem gerencia o espaço nas cidades?

Ao falar sobre os limites que dividem os municípios da capital e região metropolitana, Kiefer lembrou que Porto Alegre e seu entorno têm sido geridos a partir de uma lógica mercadológica e distante da necessidade da população. Esse modo de gestão, por exemplo, está presente no transporte urbano. “A cidade é vista como um grande negócio. O transporte público é de interesse empresas, com o lucro daquela empresa”, criticou.

Urbanização em áreas alagáveis

Questionado sobre quais seriam as soluções em termos de urbanização para áreas alagáveis, Flávio Kiefer indagou se, antes de tudo, poderia ter havido permissão para que contingentes populacionais habitassem regiões propensas a inundar. Como exemplo, cita o processo de ocupação de Eldorado do Sul, município severamente afetado pelas enchentes, em maio deste ano. “Lembro que Eldorado não existia, eu passava pela estrada e ali não havia nada. Por quê? É zona de alagamento. Mas de repente resolveram fazer uma cidade”. Conforme Kiefer, o problema estaria na autorização da construção dessas residências, ou ainda na proposta de contenção de que, algum dia, haveria um sistema capaz de dar conta de alagamentos futuros, o que nunca chegou a existir.  

Visão “negocial” da cidade

O arquiteto e professor da PUCRS criticou a política de substituição e a “visão simplista, meramente negocial”, que toma conta de Porto Alegre, como no contrato do Cais Mauá. “Nosso prefeito e nosso governador têm uma visão negocial da cidade, tudo é negócio. Ele [o governador] enxerga um lote ali, como se fosse no meio de um quarteirão: ‘Como nós vamos ganhar dinheiro com isso?’”  

Rearquitetura 

Considerado um dos assuntos dos quais mais tem orgulho e interesse, Flávio Kiefer também revelou detalhes sobre o processo de rearquitetura do antigo Hotel Majestic em 1987 – no qual participou ativamente como autor –, cujo edifício dá lugar hoje à Casa de Cultura Mário Quintana. Ele lembra que uma das maneiras de levar o projeto adiante foi envolver a comunidade cultural que havia conquistado o prédio: “A primeira coisa que a gente fez foi um estudo preliminar que não dizia o que a Casa ia ser, mas era uma proposta de transformação. E pedimos para as pessoas participarem dizendo o que deveria ter ali dentro”.  

Dúvidas do público

Como de costume, o final da conversa foi marcada por uma série de perguntas do público presente. Sobre a relação entre arquitetura e engenharia, disse: “A arquitetura usa a engenharia – no bom sentido – para se estabelecer, é a parte técnica. É uma arte, assim como o design ou até mesmo a música, em que há uma encomenda, um interesse. O arquiteto trabalha com a sensibilidade, com a resolução de problemas humanos. A moradia, por exemplo, é um problema. Todo mundo tem que ter onde morar”, explica Kiefer. Apesar da consciência de que sua profissão trabalha sob demanda, o professor e arquiteto pontua que um dos quesitos mais importantes é poder imprimir sua própria marca. “A gente enquanto intérprete tem que ouvir o cliente. O arquiteto tem sua expressão, que ele quer colocar, e isso é o que é mais importante para quem é das artes, a sua manifestação. Alguma coisa de dentro do arquiteto vai estar ali”, conclui.

Sobre a Sabatina Parêntese

A conversa com o arquiteto Flávio Kiefer foi o quarto encontro da Sabatina Parêntese – Conversas sobre o futuro. Antes, o evento já recebeu a física Márcia Barbosa, o geólogo Rualdo Menegat e Heinrich Hasenack, pesquisador e professor do Departamento de Ecologia da UFRGS.  Para saber mais sobre os próximos encontros da Sabatina, inscreva-se na newsletter da Matinal.

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