Tradução

De musicista a tradutora, sempre intérprete

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De musicista a tradutora, sempre intérprete

Dediquei vários anos de minha adolescência e do início de minha idade adulta à música, mais especificamente à flauta transversa. Saí do Brasil para estudar, como muitos antes e depois de mim. Passei centenas de horas trancada em quartos, salas de estudo e practice rooms com isolamento acústico, sozinha e muito focada, aperfeiçoando meu som, minha técnica, minha interpretação.

Os anos passaram e meus interesses mudaram. Segui uma nova carreira e hoje trabalho exclusivamente como tradutora. Uma coisa, no entanto, devo muito à minha formação como musicista: meu treinamento como intérprete me fez ter uma boa fôrma mental para trabalhar a serviço de um autor – compositor no caso da música, escritor no caso da tradução.

Um instrumentista sempre sabe que tocará peças compostas por outras pessoas (a não ser que também tenha uma veia autoral). O que o torna um bom músico é sua interpretação da obra que apresenta, seja um concerto de Mozart tocado regularmente nos últimos 240 anos, seja a peça de um colega compositor que precisa de intérpretes para a estreia de uma obra. A riqueza desse processo é que cada época toca um Mozart diferente (assim como cada época traduz um Flaubert diferente); numa mesma época, cada instrumentista produz uma interpretação diferente (e cada tradutor também).

Tudo isso pode soar óbvio, de uma platitude desconcertante. Mas essa obviedade faz toda a diferença: ela liberta. Pois não existe “a” interpretação correta de Mozart, apenas instrumentistas que, em vez de buscar um ideal inalcançável, mobilizam toda a sua maturidade (técnica, emocional, intelectual) para “entender” a composição e transformá-la em sons que sejam fieis à partitura e façam sentido para o ouvinte. Tento fazer o mesmo em meu trabalho como tradutora, recusando a rigidez e a vaidade de tentar chegar a algo definitivo. Sou uma peça-chave do produto livro-em-tradução, sem dúvida, mas, essencialmente, busco ser uma boa intérprete, mobilizar meus conhecimentos e sensibilidades no trabalho com o texto e, fiel a ele, torná-lo compreensível.

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Um instrumentista sempre sabe que tocará peças compostas por outras pessoas (a não ser que também tenha uma veia autoral). O que o torna um bom músico é sua interpretação da obra que apresenta, seja um concerto de Mozart tocado regularmente nos últimos 240 anos, seja a peça de um colega compositor que precisa de intérpretes para a estreia de uma obra. A riqueza desse processo é que cada época toca um Mozart diferente (assim como cada época traduz um Flaubert diferente); numa mesma época, cada instrumentista produz uma interpretação diferente (e cada tradutor também).

Tudo isso pode soar óbvio, de uma platitude desconcertante. Mas essa obviedade faz toda a diferença: ela liberta. Pois não existe “a” interpretação correta de Mozart, apenas instrumentistas que, em vez de buscar um ideal inalcançável, mobilizam toda a sua maturidade (técnica, emocional, intelectual) para “entender” a composição e transformá-la em sons que sejam fieis à partitura e façam sentido para o ouvinte. Tento fazer o mesmo em meu trabalho como tradutora, recusando a rigidez e a vaidade de tentar chegar a algo definitivo. Sou uma peça-chave do produto livro-em-tradução, sem dúvida, mas, essencialmente, busco ser uma boa intérprete, mobilizar meus conhecimentos e sensibilidades no trabalho com o texto e, fiel a ele, torná-lo compreensível.

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