Tradução

O tradutor como contrabandista

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O tradutor como contrabandista

Da série: Tradutores pensam a tradução (org. Karina Lucena)

A história da tradução talvez seja a história de algumas metáforas. Desde os primórdios do ofício, persiste a ideia de que não basta dizer apenas “eu traduzo”. Em alguns momentos, o próprio nome “tradutor” foi renegado. Lembremos, por exemplo, o paradoxal conselho de Horácio aos tradutores de todos os tempos. Está na Arte Poética: nec verbo verbum curabis reddere fidus interpres (“não tentes verter palavra por palavra, como fiel tradutor”). Ora, então, para bem traduzir, não basta traduzir — é preciso fazer algo mais. E o que seria essa ação suplementar? 

Nos tempos de Dom Dinis, em português, “traduzir” dizia-se “tornar em linguagem” ou “trasladar”.  Eis aí, implícita, uma metáfora conhecidíssima do ofício tradutório: a ideia de que há algo que se transporta, que se leva de um ponto a outro. O tradutor seria portanto uma espécie de barqueiro (talvez um Caronte?) transportando cernes de palavras através de certo rio difícil e esperando (imagina-se) que essas mesmas palavras não se transformem em desprezo. 

Outra figura é a que aproxima o tradutor de um corredor, numa carreira irresolvível, sempre no encalço do autor, embora simultaneamente proibido de superá-lo. Também já se comparou o tradutor a um músico que interpreta certa partitura, ou um pintor que trata de retratar uma paisagem. A partitura e a paisagem, claro, são o original. 

Até aqui, falei de metáforas mais ou menos neutras. Há aquelas decididamente negativas. Cervantes comparou a leitura de uma obra traduzida ao ato de olhar um tapete pelo avesso. Nabokov afirmou, num poema beligerante, que a tradução é o berro de um papagaio, a conversa de um macaco ou a profanação de um sepulcro. 

Desde que comecei a traduzir (já lá se vai uma década), sempre assumi uma postura otimista em relação ao meu ofício. Jamais encarei o tradutor como um traidor, mas como um intermediário, uma espécie de espírito viajante, conectando mundos, culturas, linguagens e individualidades. 

A tradução, como a concebo, é uma forma de transcender as visões binárias da incomunicabilidade entre as culturas. A existência de comunidades interculturais (como os judeus e os moçárabes que formaram a Escola de Toledo, no século XII) faz soçobrar a ideia de que as culturas humanas sejam compartimentos estanques e que um tradutor deva pertencer necessariamente a um dos lados. A tradução que pratico é uma atividade fronteiriça e encontra seu melhor representante na figura do contrabandista. 

Pois o contrabandista é a criatura fronteiriça por natureza: e é ocioso afirmar que pertença a este ou àquele lado da fronteira que cruza incessantemente, levando o que seja necessário para lá e para cá. O contrabandista é uma criatura em movimento, não um parasita estático. O que o tradutor-contrabandista efetua em sua andança incansável é o ato da criação estética. É esse ato — a criação do novo a partir do que nos dá a letra e o mundo — que liberta o tradutor do anátema de Horácio e transforma sua atividade em algo infinito, que infinitamente se tenta definir. 

Minha atividade de tradutor sempre foi uma extensão de minha atividade literária — assim como minha produção literária é marcada pelas traduções que realizei. Meu interesse pela poesia narrativa — inclusive em sua forma oral, que ainda vive em nossos repentistas — me levou a traduzir The Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer (Contos da Cantuária, na minha tradução). A ideia de que o verso não é um empecilho, mas um complemento ou mesmo um combustível à ação narrada, me levou a manter a forma metrificada e rimada que se encontra no original.

Um traço comum a muitos cultores da poesia oral é que suas ideias, afirmações e contestações parecem nascer naturalmente em verso — como se a redondilha maior (metro preferido dos repentistas) fosse sua forma espontânea de falar. Busquei assimilar essa naturalidade do verso em minhas traduções (embora eu traduza preferencialmente em decassílabos). Ao verter os Contos da Cantuária, não me inspirei em traduções acadêmicas da literatura medieval, mas em obras fundamentadas na oralidade — como por exemplo o Martín Fierro, de Hernández; o Santos Vega, de Ascasubi; e o Antônio Chimango, de Ramiro Barcellos. Não se tratava aí de fazer um simples decalque ou transmissão de vocabulários, mas de captar um espírito de expressão e reacender uma compreensão do verso poético como um modo especial de falar — um modo que nos permite, inclusive, dizer coisas que não seriam ditas de outra forma. 

O contrabandista, dizia eu, é uma criatura do movimento: quando para, deixa de ser o que havia sido. Para contrabandear, é preciso estar em migração constante. A ideia de que a tradução é uma forma de contrabando mostrou-se, para mim, um tônico salvador em tempos de desespero e um estímulo a seguir buscando o próximo vau e a próxima passagem, ainda quando a sombra cubra meus passos e a noite se encha de estampidos e ranger de dentes. 

José Francisco Botelho é jornalista, escritor, poeta e tradutor. De sua mão saíram os Contos de Cantuária, de Chaucer, assim como o Romeu e Julieta, de Shakespeare, entre outros. 

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