Tradução

Retraduzindo os clássicos

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Retraduzindo os clássicos

Paris, setembro de 2021

Depois de muitos anos traduzindo lançamentos e best-sellers nas áreas de literatura e ciências humanas, iniciei outra frente de trabalho: as retraduções. Nos últimos dez anos fiz Os Ensaios de Montaigne, as Máximas de La Rochefoucauld, a Cartuxa de Parma de Stendhal, a Educação Sentimental de Flaubert, Sobre heróis y tumbas de Sabato, alguns Balzacs (Pai Goriot, Lírio no Vale, Mulher de Trinta anos, Ilusões perdidas), os 120 dias de Sodoma do marquês de Sade, alguns contos infantis de Perrault.  Anteriormente, tinha feito Viagem ao fim da noite, de Céline — até então só havia tradução em Portugal — e Tristes trópicos do Lévi-Strauss. Agora, divido com Mario Sergio Conti a grande empreitada da retradução dos sete volumes de À la recherche du temps perdu, de Proust.

Ao longo das horas e das telas em que todo tradutor se extravia, foram surgindo, à medida que mergulhava nesses livros, as indagações habituais, acrescidas das específicas à retradução. Comecemos por uma premissa. Retraduções referem-se em geral a obra supostamente clássica — a qual, portanto, já terá chegado ao leitor por editores e tradutores que nos antecederam. O que leva, então, uma editora a republicar um título que pode estar em circulação em livrarias, senão disponível em sebos ou bibliotecas? Mais: por que se deve retraduzir um clássico? A partir de que critérios? 

Chegamos a algumas suposições. E a Italo Calvino. E às suas definições do que é um clássico, expostas em Por que ler os clássicos. Uma delas diz que clássicos são aqueles livros de que em geral se ouve dizer: “Estou relendo”.  Penso muito nisso enquanto retraduzo Proust. Sim, porque num dia em que fui entrevistar o escritor espanhol Jorge Semprun, dele ouvi, não sem uma ponta de ironia: “nunca se encontra um francês que esteja lendo Proust, todos o estão relendo.” Mas há outra definição de Calvino, a minha preferida: a de que um clássico é o livro que nunca termina de dizer o que tinha para dizer. E aí está a resposta à indagação da retradutora: os editores nos pedem para retraduzir livros que jamais terminam de dizer a que vieram. Cabe-nos descobrir que outros segredos ainda têm a revelar.

Todos os conceitos, teorias, hipóteses, dúvidas que nos rondam numa tradução e alimentam artigos e teses, valem para a retradução. Mas há questões que me parecem específicas e dela exclusivas. Refiro-me a três. 

A primeira é que hoje todos aceitam o que há alguns anos ainda soava como heresia: as traduções envelhecem. Parece-me ponto pacífico que as traduções dos clássicos estão fadadas a, cedo ou tarde, ser superadas. Obviamente, não pelo conteúdo do original, mas pela língua da tradução. A língua autêntica, aquela com que se trabalha — estou falando de literatura, e não de textos científicos com seus jargões e terminologia — é a língua em que “se vive, se move e se é” (já dizia Ortega y Gasset, como deve se lembrar quem leu um conhecido ensaio dele, dos anos 1930, sobre tradução).  E essa língua evolui, enterra palavras, incorpora novos jeitos de dizer, relega outros à gaveta do desuso. 

Não faz muito, li que desde a primeira edição do dicionário enciclopédico Le Petit Larousse Illustré, que é de 1906, quase 10 mil palavras foram suprimidas, ao passo que nestes cento e poucos anos 18 mil foram incorporadas. Na média, houve uma morte programada de 500 palavras por edição do Petit Larousse.

[Continua...]

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