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Soneto 146

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Soneto 146

My poor soul, the center of my sinful earth,
Minha pobre alma, centro de meu corpo pecador,
feeding these rebel pow’rs that thee array,
que alimentas as forças rebeldes com que te revestes,
Why dost thou pine within and suffer dearth,
por que definhas por dentro e sofres penúria,
Painting thy outward walls so costly gay?
pintando tuas paredes externas com tinta tão cara?
Why so large cost, having so short a lease,
Por que fazes tanta despesa para um aluguel tão curto,
Dost thou upon thy fading mansion spend?
e jogas fora dinheiro ao gastá-lo numa mansão decadente?
Shall worms, inheritors of this excess,
Não irão os vermes, herdeiros de teus excessos,
Eat up thy charge? Is this thy body´s end?
devorar teu protegido? Não é esse o fim do teu corpo?
Then, soul, live thou upon thy servant’s loss,
Portanto, alma, alimenta-te com a fome de teu corpo pois,
And let that pine to aggravate thy store;
ao deixá-lo definhar, teu tesouro incrementas;
Buy terms divine in selling hours of dross;
compra bens celestes e vende o lixo aqui da terra;
Within be fed, without be rich no more.
alimenta-te por dentro e deixa de enriquecer por fora.
So shalt thou feed on death, that feeds on men,
Assim, às custas da morte, que do homem vive, tu viverás
And death, once dead, there’s no more dying then.
e tu, morte, uma vez morta, não mais existirás.

[Continua...]

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My poor soul, the center of my sinful earth,
    Minha pobre alma, centro de meu corpo pecador,
feeding these rebel pow’rs that thee array,
    que alimentas as forças rebeldes com que te revestes,
Why dost thou pine within and suffer dearth,
    por que definhas por dentro e sofres penúria,
Painting thy outward walls so costly gay?
    pintando tuas paredes externas com tinta tão cara?
Why so large cost, having so short a lease,
    Por que fazes tanta despesa para um aluguel tão curto,
Dost thou upon thy fading mansion spend?
    e jogas fora dinheiro ao gastá-lo numa mansão decadente?
Shall worms, inheritors of this excess,
    Não irão os vermes, herdeiros de teus excessos,
Eat up thy charge? Is this thy body´s end?
    devorar teu protegido? Não é esse o fim do teu corpo?
Then, soul, live thou upon thy servant’s loss,
    Portanto, alma, alimenta-te com a fome de teu corpo pois,
And let that pine to aggravate thy store;
    ao deixá-lo definhar, teu tesouro incrementas;
Buy terms divine in selling hours of dross;
    compra bens celestes e vende o lixo aqui da terra;
Within be fed, without be rich no more.
    alimenta-te por dentro e deixa de enriquecer por fora.
    So shalt thou feed on death, that feeds on men,
Assim, às custas da morte, que do homem vive, tu viverás
    And death, once dead, there’s no more dying then.
e tu, morte, uma vez morta, não mais existirás.

Dentre os 154 sonetos conhecidos de Shakespeare, apenas o soneto acima é de cunho religioso, de inspiração estoico-paulina. Os exegetas de Shakespeare consideram-no como um dos ‘sonetos de ouro’ do Bardo. É colocado logo após um dos sonetos considerados ‘pobres’, o 145, no qual o poeta faz toda uma prestidigitação semântica e léxica para salvar as expressões and saved my life (Anne saved my life) e hate away (Hathaway), alusões a sua esposa. O Soneto 146 ecoa várias passagens da Bíblia, como o quotidie morior (morro todos os dias) de São Paulo, I Cor., 15, 31, ou aquele enigmático pensamento de Cristo expresso em Marcos, 16, 25: ‘Quem perder sua vida, salvá-la-á; quem salvar sua vida, perdê-la-á’. Na verdade, o eu poético recorre a um conceito ‘matemático’ aplicado à ascese paulino-cristão-estoica, ou seja, corpo e alma (entidades separadas, no conceito platônico) são ‘inversamente proporcionais’, isto é, ‘quanto pior para o corpo, tanto melhor para a alma; quanto pior para a alma, tanto melhor para o corpo’; pode parecer uma fórmula simplista, mas a hagiografia cristã abunda em exemplos de ascetas que, para salvar a alma, fizeram o corpo sofrer. A fórmula também se reflete na vida de ordens religiosas ditas ‘severas’, como a dos Cartuxos, em alguns de cujos refeitórios lia-se a frase seguinte: “O prazer de morrer sem dor vale bem a dor de viver sem prazer’. Cito casos extremos, para deixar mais clara a tese, mas as quatorze linhas do soneto, no fundo, expressam o antagonismo entre corpo e alma na ascese cristã. A metáfora a que Shakespeare recorre no soneto é a velha ideia de que o corpo é apenas a morada da alma; em resumo, o poeta medita que, de modo geral, damos muito mais valor à casa (corpo) do que à moradora da casa (alma), uma inversão de valores. Assim, no primeiro quarteto, o eu poético já censura a alma, que é dona do corpo, por permitir que ele, com prejuízo da alma, que definha, alimente ‘as forças rebeldes’ que o assediam (basicamente as três concupiscências: a da carne, a dos olhos e o orgulho da vida) e, com seus excessos, leve a alma, que o sustenta, a ficar definhando espiritualmente. Enquanto o corpo ‘engorda’ com os prazeres do pecado, a alma ‘emagrece e definha’. No segundo quarteto, o eu poético recorre à metáfora do ‘aluguel’, muito usada pelos poetas medievais: a alma, imortal, aluga o corpo, mortal, para nele habitar por um determinado prazo de aluguel; o locador do corpo é o próprio Deus. Por que, então, dar tanto valor àquela casa, o corpo, enfeitá-la, pintá-la, fazer melhorias para, acabado o prazo estipulado pelo locador, abandoná-la à decadência e aos vermes? Não é uma péssima política? No terceiro quarteto o eu poético alude a Mateus VI, 9-16, passagem em que Cristo nos pede que não acumulemos tesouros na terra, onde a ferrugem os destrói e a traça os devora, mas no céu, onde nem há ferrugem nem traça. A alma deve ‘se alimentar com a fome do corpo’, ou seja, com o sacrifício dos sentidos, com o sofrimento da obediência aos mandamentos e da repulsa às três concupiscências: mais uma vez, o ‘inversamente proporcional cristão’: quanto mais o corpo sofre, mas a alma se regozija. Os prazeres do pecado são ´lixo’ que deve ser rejeitado. É evitando o pecado, a verdadeira morte, que a alma vive; o pecado ‘devora o homem’ e mata a alma; a virtude faz o homem viver e deixa a alma viva. A alma virtuosa mata a morte: viverá eternamente.

Outras traduções da copla final: Malaplate: Dévore ainsi La Mort, qui les hommes dévore: / Morte la Mort, qui donc pourrait mourir encore? (Devora assim a Morte, que os homens devora: / morta a Morte, quem poderá ainda morrer?); Péricles Eugênio: “A Morte, que nos traga, hás de tragar assim, / e morta a morte, eis que não mais teremos fim”; Schlegel et alii: So zehrst am Tod du, der na Menschen zehrt; / Und ist Tod tod, hat Sterben aufgehört (Assim tu destróis a morte, que destrói as criaturas; / E estando a Morte morta, cessa o morrer).

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Élvio Funck foi professor na UFRGS, PUC e Unisinos. Doutorou-se em literatura inglesa, na University of Texas. Já fez proezas várias em matéria de tradução. A mais constante é a obra de William Shakespeare: dele, já completou a versão ao português de mais de 20 de suas peças – sim, inclui as mais famosas, Hamlet, Othelo, Rei Lear, Romeu e Julieta, quase sempre pela editora Movimento (muitas em parceria com a UNISC). Agora tem se dedicado à tradução interlinear dos sonetos do bardo inglês. A tradução interlinear é como diz o nome: traduz linha por linha, impondo-se essa dura restrição, que implica como que desconhecer as linhas seguintes ou anteriores, e abandona as preocupações com rima e metro, em favor da precisão vocabular, verso a verso.

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