Crônica | Parêntese

Uma vitória da tua gente

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Uma vitória da tua gente José Falero Recém-chegado de lá do fundão da cidade, ali tá tu, a bordo do Bonsucesso, comendo a pipoca doce que tu pegou baratinho na mão dum piá que nasceu chorando, como todo o mundo, mas não no Moinhos de Vento, e sim num lugar que ensinou ele a parar de chorar bem antes do tempo. O bonde atravessa o Túnel da Conceição, e aí, olhando pela janela, tu viaja no viaduto. Tu sabe: algum cara completamente diferente do teu pai ganhou uma fortuna pra calcular a quantidade exata de aço que aquele bagulho tinha que ter pro vento não acabar derrubando tudo com o passar dos dia, mas foi uma pá de cara idêntico ao teu pai que ganhou um salário de fome pra virar todo o concreto que foi usado ali. Puta obra de engenharia, tu pensa. Mas, na real, pra ti que mal e porcamente domina as quatro operação básica da aritmética, até os barraco de pau da invasão lá perto da tua casa já são tudo umas puta obra de engenharia. Publicidade Tu segue viajando no viaduto. Tu sempre viaja nele quando passa por ali. É um bom viaduto, tu pensa. Não porque cumpre o seu papel há várias década, não porque resiste firme e forte ao aumento do tráfego, não porque é ousadamente curvo. É um bom viaduto porque tu avalia como um bom lar, caso a tua vida venha a degringolar. Tu pensa nas vantagem daquele viaduto: por exemplo, a maior parte das pessoa que tu conhece não vem pro Centro por ali, e sim pela João Pessoa, e isso é importante, porque se tu virar morador de rua, tu não vai querer ser visto pelas pessoa que gosta de ti, que te ama; tu prefere perder contato com elas e deixar elas pensando que tu tá bem, em algum lugar digno; tu não quer fofoca sobre a tua desgraça rolando solta lá na tua quebrada, como tu já viu acontecer. Isso te faz lembrar daquele cara. Aquele, pai do teu bruxo, conhecido pelas bebedeira e pelas confusão. Aquele que, durante a tua infância, morou na tua vila. Aquele que pedia pra tua vó aplicar as injeção que ele tinha que tomar na bunda, e que um dia xingou a tua vó, e que por isso tomou um rapa dum primo teu. Aquele que, quando bebia, tentava se comunicar com os outro num inglês fajuto, pra fazer todo o mundo dar risada. Aquele que um dia sumiu sem deixar vestígio. Aquele que anos mais tarde foi visto por alguém, numa avenida qualquer, sentado numa cadeira de roda, pedindo esmola. Tu também lembra daquela outra figura, aquele cara que era só pouca coisa mais velho que tu e que um dia engravidou uma mina e não quis assumir o filho. Tu lembra de como o pai dele ficou puto por achar que aquilo não era atitude de homem e aí resolveu botar ele pra fora de casa. Ninguém nunca mais soube daquele malandro, por bastante […]

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José Falero Recém-chegado de lá do fundão da cidade, ali tá tu, a bordo do Bonsucesso, comendo a pipoca doce que tu pegou baratinho na mão dum piá que nasceu chorando, como todo o mundo, mas não no Moinhos de Vento, e sim num lugar que ensinou ele a parar de chorar bem antes do tempo. O bonde atravessa o Túnel da Conceição, e aí, olhando pela janela, tu viaja no viaduto. Tu sabe: algum cara completamente diferente do teu pai ganhou uma fortuna pra calcular a quantidade exata de aço que aquele bagulho tinha que ter pro vento não acabar derrubando tudo com o passar dos dia, mas foi uma pá de cara idêntico ao teu pai que ganhou um salário de fome pra virar todo o concreto que foi usado ali. Puta obra de engenharia, tu pensa. Mas, na real, pra ti que mal e porcamente domina as quatro operação básica da aritmética, até os barraco de pau da invasão lá perto da tua casa já são tudo umas puta obra de engenharia. Publicidade Tu segue viajando no viaduto. Tu sempre viaja nele quando passa por ali. É um bom viaduto, tu pensa. Não porque cumpre o seu papel há várias década, não porque resiste firme e forte ao aumento do tráfego, não porque é ousadamente curvo. É um bom viaduto porque tu avalia como um bom lar, caso a tua vida venha a degringolar. Tu pensa nas vantagem daquele viaduto: por exemplo, a maior parte das pessoa que tu conhece não vem pro Centro por ali, e sim pela João Pessoa, e isso é importante, porque se tu virar morador de rua, tu não vai querer ser visto pelas pessoa que gosta de ti, que te ama; tu prefere perder contato com elas e deixar elas pensando que tu tá bem, em algum lugar digno; tu não quer fofoca sobre a tua desgraça rolando solta lá na tua quebrada, como tu já viu acontecer. Isso te faz lembrar daquele cara. Aquele, pai do teu bruxo, conhecido pelas bebedeira e pelas confusão. Aquele que, durante a tua infância, morou na tua vila. Aquele que pedia pra tua vó aplicar as injeção que ele tinha que tomar na bunda, e que um dia xingou a tua vó, e que por isso tomou um rapa dum primo teu. Aquele que, quando bebia, tentava se comunicar com os outro num inglês fajuto, pra fazer todo o mundo dar risada. Aquele que um dia sumiu sem deixar vestígio. Aquele que anos mais tarde foi visto por alguém, numa avenida qualquer, sentado numa cadeira de roda, pedindo esmola. Tu também lembra daquela outra figura, aquele cara que era só pouca coisa mais velho que tu e que um dia engravidou uma mina e não quis assumir o filho. Tu lembra de como o pai dele ficou puto por achar que aquilo não era atitude de homem e aí resolveu botar ele pra fora de casa. Ninguém nunca mais soube daquele malandro, por bastante […]

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