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Por que não alterar o “Hino Rio-Grandense”?

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Por que não alterar o “Hino Rio-Grandense”?

Nesta sexta-feira (15/1), às 10h, será realizada uma mesa-redonda no Facebook do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul para debater uma eventual mudança na letra do Hino Rio-Grandense. O encontro contará com a participação do escritor Jeferson Tenório, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2020, do historiador Tau Golin, do jornalista Juarez Fonseca, do cantor Victor Hugo, ex-secretário estadual da Cultura, e do professor Rafael Bán Jacobsen, presidente da Academia Rio-Grandense de Letras.

O tema voltou à baila no começo deste ano quando cinco parlamentares da chamada bancada negra recusaram-se a cantar o hino durante a cerimônia de posse da Câmara Municipal de Porto Alegre, no dia 1º/1. Os vereadores consideram racista o trecho da música que diz “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

O crítico musical e pesquisador Juarez Fonseca escreveu um texto sobre o assunto que vale a pena ler:

“Existe algum impedimento superior para alterar a letra do hino? Se for pela tradição, não será um impedimento. Desde a fundação do primeiro CTG, em 1947, e do MTG, em 1966, trocentas “regras” já foram alteradas ou mudadas pelo andar da carreta – ops, da charrete, ops, do jipe, ops, da Rural Willys, ops, da camionetona, ops do 4×4 asiático…

Ainda nos anos 1970, quando a moda da bombacha se instituiu entre os jovens urbanos (e urbanos quer dizer de todas as cidades do estado), muitos eram barrados em baile de CTGs. Os jovens passaram a usar bombachas mais estreitas, quando as “regras” eram bombachas que cabiam três dentro. Aos poucos isso foi se amenizando, cada um usando a bombacha que quisesse, desde que fosse bombacha.

Até mais ou menos uns 10 anos atrás, essas boinas argentinas que mais parecem discos de arado não existiam no Rio Grande. Hoje estão disseminadas. O que têm elas a ver com a tradição gaúcha? Mas você vai num baile de CTG e lá estão essas boinas horrorosas substituindo os chapéus, ainda que com a mesma largura das abas.

Até pelo menos o fim dos anos 1980, já com quase 20 anos de festivais nativistas, não havia cantores gritões na música do Rio Grande. Não havia. Hoje eles fazem sucesso exatamente entre os mais tradicionalistas. Mas como, não são tradicionalistas? Como “aceitam” essas mudanças todas na bombacha, no canto, nas boinas? Sem falar nas coreografias das danças… 

Por que não pode mudar o hino, para ser aceito por todos? Por que são os negros que protestam? Pois não são só negros. Eu não canto esse hino por não concordar com o que ele diz. Aliás, a música negra TRADICIONAL do Rio Grande nunca foi aceita nos festivais até a existência de festivais como a Moenda e a Tafona, da região mais forte de presença cultural negra.

No entanto, ritmos como o maçambique, das comunidades negras de Osório, Santo Antônio da Patrulha e Tavares, são tão ou mais gaúchos que/como a milonga, a vanera, o bugio. Quando um maçambique aparecia na triagem da maioria dos festivais, era descartado como “samba”. O primeiro ritmo negro a participar de um festival foi na música Bambaquererê, finalista na Califórnia da Canção – mas muito porque tinha a autoria de Barbosa Lessa.

Qual o problema em adaptar a letra do hino? Como demonstrei, esse argumento da tradição não se sustenta, a não ser no preconceito. Sim, somos um estado conservador e preconceituoso, SOMOS, SIM. Eu sei porque vivo aqui, ando por aqui e vejo, e sinto. E ninguém terá a petulância (como já ocorreu algumas vezes) de sugerir que eu me mude daqui.

Fico aqui enchendo o saco dos que não querem progresso, dos que não querem que o Rio Grande saia dessa inhaca em que está metido exatamente por causa de quem não quer olhar à frente. Que cultua uma tradição cheia de contradições. Por que Vitor Ramil, um dos mais gaúchos dos compositores gaúchos, nunca foi convidado para cantar em um CTG? Apenas um exemplo.”

sexta-feira, 15 de março de 2021 | 10h00

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