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A arte exuberante de Beatriz Milhazes por inteiro

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A arte exuberante de Beatriz Milhazes por inteiro Beatriz Milhazes. Foto: Vicente de Paulo/Divulgação

Com a recente abertura na primeira quinzena do mês da mostra Beatriz Milhazes: Avenida Paulista no Itaú Cultural e no Masp, em São Paulo, uma das mais importantes artistas brasileiras da atualidade ganha a maior exposição monográfica de sua carreira no Brasil. De caráter panorâmico e retrospectivo, a exposição reúne cerca de 170 trabalhos e fica em cartaz até o dia 30 de maio de 2021 em ambas as instituições.

Entre pinturas em grandes e pequenos formatos e esculturas, em exibição no museu paulista, e gravuras, colagens e acrílicas, no Itaú Cultural, algumas obras são inéditas – e a maioria vem de coleções privadas, sendo reveladas ao público pela primeira vez.  A mostra cobre a produção da artista carioca entre os anos 1990 e 2020.

O título remete a uma pintura de Milhazes do início dos anos 2000, Avenida Brasil, e faz referência ao endereço das duas instituições que co-organizam essa exposição – celebrando, de certa forma, essa parceria inédita. Avenida Paulista também é o nome de uma obra que a artista realizou especialmente para ser exibida no Masp.

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“Avenida Paulista” (2020). Foto: Vicente de Melo/Divulgação

No Museu de Arte de São Paulo, a curadoria é de Adriano Pedrosa, diretor artístico da instituição, com assistência de Amanda Carneiro, curadora assistente na instituição. Já no Itaú Cultural, a curadoria é de Ivo Mesquita. Tanto Pedrosa quanto Mesquita têm uma longa relação com Milhazes e acompanham sua carreira há anos. 

“A mostra cobre mais de três décadas de sua produção de pinturas, colagens, gravuras, desenhos, têxteis, bem como amplo material documental. Nesse sentido, é uma oportunidade verdadeiramente única para se conhecer e compreender o trabalho dessa que é uma das principais artistas brasileiras vivas, com uma obra já amplamente consolidada no panorama internacional”, diz Adriano. 

Milhazes é uma das artistas brasileiras mais importantes no cenário artístico nacional e internacional. Reconhecida por sua produção icônica, ela trabalha com um complexo repertório de imagens associadas a diversos motivos, origens e fontes, oscilando entre a abstração e a figuração, a geometria e a forma livre. 

Seu sucesso crítico reflete-se também no mercado de arte: suas telas têm alcançado cifras milionárias nos últimos 15 anos em leilões internacionais, catapultando-a ao posto de artista brasileira contemporânea mais bem cotada da atualidade. A tela O Mágico (2001) foi vendida em pela Sotheby’s de Nova York em 2008 por US$ 1,05 milhão, enquanto O Moderno (2002) foi arrematada por US$ 1,1 milhão em um leilão em Londres.

Em 2012, novo recorde internacional com a venda do quadro Meu Limão (2000) por US$ 2,098 também na Sotheby’s nova-iorquina. No Brasil, em 2016, no auge da crise econômica, uma tela de Milhazes teria sido comprada por R$ 16 milhões na noite de abertura da feira SP-Arte.

“Meu Limão” (2000). Foto: Manuel Águas & Pepe Schettino/Divulgação

Beatriz Milhazes estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no início da década de 1980, quando participou da antológica exposição Como Vai Você, Geração 80? junto a um grupo heterogêneo de artistas que, de forma resumida, buscou retomar a pintura em contraposição à vertente conceitual da arte brasileira dos anos 1970. 

As pinturas, gravuras, colagens e esculturas de Milhazes refletem formas e cores brasileiras e registram histórias e culturas artísticas desde o barroco até o modernismo, passando pelo dito popular até o erudito. Suas obras também estabelecem relações entre a artista e seu entorno mais próximo, da sua cidade Rio de Janeiro e do bairro onde fica seu ateliê, o Jardim Botânico

Atualmente, suas obras estão em instituições prestigiadas como Centre Georges Pompidou (Paris), Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Madri), MoMA (Nova York), Tate Modern (Londres) e Museum of Contemporary Art (Tóquio)

“Dancing”. Foto: Manuel Águas & Pepe Schettino/Divulgação

A mostra simultânea nas duas instituições cobre a produção da artista entre os anos 1990 e 2020, iluminando os desdobramentos da técnica que inventou e cunhou de monotransfer em torno da transferência e da impressão, que permeia seu pensamento e intervenção nos diferentes suportes e linguagens artísticas com os quais trabalha. A exposição está dividida em dois grandes núcleos: pinturas e esculturas no Masp; gravuras, colagens e acrílicas no Itaú Cultural – embora não exclusivamente.

Na entrevista a seguir, Beatriz Milhazes fala sobre a megaexposição, sua linguagem criativa e a inserção internacional do artista brasileiro: “A nossa história da arte já está sendo revista e reconhecida sua importância internacionalmente. O Brasil, hoje, faz parte do mundo, e a nossa arte está junto nesse movimento”.

“Pó de Arroz”. Foto: Manuel Águas & Pepe Schettino/Divulgação

Beatriz Milhazes: Avenida Paulista abarca três décadas de sua produção artística. Que tipo de avaliação você faz a partir desse olhar retrospectivo da sua trajetória? O que significa apresentar a maior exposição panorâmica de sua obra nessa altura de sua carreira?

Para mim é uma grande emoção! Eu já tive outras retrospectivas no Brasil e no exterior, contudo essa é a mais completa. A união do Masp e Itaú Cultural em um projeto tão denso e de alto nível permite que os visitantes possam fazer um mergulho no universo de minha obra através dos principais meios que ela tem sido desenvolvida. A pintura é o tronco principal, mas a colagem e a gravura participam hoje de forma ativa no raciocínio, desenvolvimento e evolução da obra.

Na mostra, o público tem acesso às diversas linguagens que você trabalha, em especial pintura, gravura, colagem, escultura e desenho – e também aos diálogos e misturas que você promove entre elas. Você busca objetivos específicos em cada linguagem ou todas são apenas veículos distintos para um projeto artístico comum?

Cada meio tem suas características, e é muito importante que se compreenda as possibilidades e identidade de cada um. A linguagem é uma só, mas, para evoluir e manter o meu interesse nesse processo no ateliê, é importante inserir novos desafios, questões que irão criar uma reação em cadeia e te propor inovação. A variação de meios é fundamental nessa construção. E cada um oferece uma nova possibilidade de comunicação com a obra, sempre liderada pela pintura.

De que maneira a repercussão internacional positiva de trabalhos como o seu, tanto do ponto de vista crítico quanto comercial, tem ajudado para a divulgação da arte brasileira contemporânea no mundo?

A minha posição é interessante, especialmente por ter essa união de crítica, instituição e mercado. Na verdade, isso acontece para um grupo restrito de artistas, independentemente de nacionalidade. O fato de ser brasileira e mulher ainda pontua uma outra situação importante. Não tenho dúvidas de que esse fato é uma porta que se abre para outros artistas brasileiros. A nossa história da arte já está sendo revista e reconhecida sua importância internacionalmente. O Brasil, hoje, faz parte do mundo, e a nossa arte está junto nesse movimento.

“Moreno”. Foto Stephen White/Divulgação

“O Buda”. Foto Manuel Águas & Pepe Schettino/Divulgação

“Mariposa”. Foto Sid Hoeltzell/Divulgação
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