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“A Boneca Sou Eu”: Lia Menna Barreto revisita trajetória no MARGS

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“A Boneca Sou Eu”: Lia Menna Barreto revisita trajetória no MARGS Foto: Carlos Stein e Fabio Del Re

Trinta e seis anos após exibir a primeira exposição individual da então recém-graduada Lia Menna Barreto, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul apresenta a maior mostra solo já realizada pela artista. Lia Menna Barreto: A Boneca Sou Eu – Trabalhos 1985-2021 reúne dezenas de obras – objetos, esculturas, sedas, instalações, pinturas e publicações – que ocupam todo o primeiro andar do MARGS, reaberto ao público em 11 de maio, com visitas mediante agendamento prévio.

“Há uma atração que conjuga fascínio e desconcerto no encontro com a produção de Lia Menna Barreto. Em um primeiro contato, suas obras são capazes de acionar sentidos díspares, despertando sensações que se alternam entre delicadeza e brutalidade, afeto e crueldade, ternura e perversidade, perplexidade e ironia”, descreve o diretor-curador do MARGS, Francisco Dalcol, que assina a curadoria da exposição com a curadora-assistente do museu, Fernanda Medeiros. “Partindo em grande parte da apropriação de brinquedos infantis, bonecas de plástico, bichos de pelúcia e animais de borracha, seus trabalhos operam no limite do tensionamento da quase violação dos universos lúdico, infantil e mesmo feminino”, completa o curador.

Ao chegar no foyer do MARGS, o visitante que espera ver logo de cara intervenções em objetos sintéticos – tão características de Lia – encontra uma obra que chama atenção pela manipulação de um material orgânico. Em Máquina de Bordar (concebida originalmente em 1999), sementes de milho são dispostas sobre um tecido molhado dentro de bandejas. Com o devido cultivo e secagem, as raízes tecem bordados, gradualmente retirados da estrutura – processo que se repete enquanto a instalação está exposta.

Imagem de arquivo da obra “Máquina de Bordar”. Foto: Sergio Sakakibara

“Comecei fazendo aquela experiência do milho no algodão, mas usei matalassê na época. Quando secou, fui jogar fora o material, e atrás tinha um bordado de raízes. Queria mostrar o milho crescendo, não só o pano com o bordado”, recorda Lia, que no dia da entrevista tinha se deslocado do sítio onde vive, em Eldorado do Sul, para regar a obra.

Na parede ao fundo, “Colar”, de Lia Menna Barreto. Foto: Raul Holtz

Ao acessar a galeria central do museu, Colar ganha evidência com suas dimensões de 5 metros de altura por 11 de largura. A obra site-specific – criada especificamente para o espaço que a abriga – é composta por centenas de peças e objetos. “Foi um trabalho bem espontâneo, não tinha ideia de como ia ficar. Eu tinha pilhas de lagartixas, ratos, bordadinhos, nunca imaginei pra que ia servir aquilo”, explica a artista, assídua compradora de brinquedos no comércio popular de Porto Alegre.

“Adoro ir às galerias da Voluntários da Pátria. Em 2000, houve um ‘ataque chinês’, tinha muito material nas lojas, e eu me esbaldei. Comprei muito, depois começou a rarear. É uma tristeza, até mudei meu trabalho por causa disso”, conta Lia. “As lagartixas eu achei numa loja, vinham num saquinho com umas cinco. Vi onde era fabricado e encomendei mil lagartixas. Quando chegou, quase morri”, diverte-se.

Nome de projeção nacional e internacional a partir dos anos 1990, vinculada aos artistas da Geração 80 no Rio Grande do Sul, Lia observa que a mudança para o estado, depois de passar a infância em Andradina (SP), revelou um mundo até então desconhecido. “Quando era criança, eu não tinha boneca. Vivia de bicicleta, pulando em árvore com meus irmãos. Quando cheguei no sul, passei a sentir uma atração por esse universo dos brinquedos. Ficava impressionada com as cores das lojas infantis. Entrar nelas era fascinante”, recorda. “Em Andradina, eu nunca via um tecido peludo, e aqui o que mais me atraía eram esses tecidos. Aí fiz vários trabalhos com ursos”, conta a artista, referindo-se a obras como Os Três Ursinhos e as Meninas (1994).

“Os Três Ursinhos e as Meninas”. Foto: Jose Eckert

Embora evite interpretações de seus trabalhos por um viés psicológico, Lia arrisca duas possíveis leituras para o interesse despertado por esses materiais: “o que me vem à cabeça é que eu revisito um mundo proibido pro adulto”. E acrescenta a curiosidade por simulacros diversos – “gosto muito de uma coisa que imita a outra, desse faz-de-conta”.

Imagem de arquivo de “Jardim da Infância”. Foto: Sergio Sakakibara

Na Sala Aldo Locatelli, a exposição resgata parte da série Ordem Noturna. “O trabalho foi criado em 1996 para uma exposição no Rio de Janeiro. Pensei: vou usar tudo que tem calor. Levei para a ateliê ferro de passar, estufa, cobertor, maçarico, lanterna, lampião e comecei a trabalhar em cima disso. Esculpi as cadeiras com o maçarico”, explica a artista, referindo-se à obra Jardim da Infância (1996), que integra a série. “Muita gente fala: ‘Teve um acidente, pegou fogo’”, comenta Lia, imitando a reação de assombro que bonecas e cadeiras derretidas costumam provocar nos espectadores. “Os trabalhos dão margem a essas interpretações, e as pessoas gostam de sentir isso. Eu tenho uma certa ingenuidade em lidar com esse mundo.”

“Ratão”. Foto: Ricardo Romanoff

No lado oposto, nas Salas Negras do MARGS, Lia apresenta Ratão (1993), instalação que pertence ao acervo do museu, e Diário de uma Boneca (1998), em que as figuras industrializadas das quais a artista costuma se apropriar dão lugar a mais de 400 bonecas confeccionadas por Lia, feitas de tecido e de pedaços de outras bonecas.

“Diário de uma Boneca”. Foto: Leopoldo Plentz

“Comecei esse trabalho quando minha filha, Lara, tinha 2 anos. Quando ela dormia, eu ia ao ateliê, ao lado da minha casa, e fazia uma bonequinha. A primeira era para a Lara. Saíam umas bonecas horrorosas, mas eu aceitava todas. Um dia levava um minuto, parecia uma trouxa, no outro, fazia uma mais bem-feitinha. Passaram três dias, então pensei que a Lara não ia querer tanta boneca. Virou um diário”, recorda a artista. “Foi muito prazeroso. Eu me apaixonava em vê-las enfileiradas, como uma paisagem. Nem sei bem exatamente por que parei.”

Exposição: Lia Menna Barreto: A Boneca Sou Eu — Trabalhos 1985-2021

Curadoria de Francisco Dalcol e Fernanda Medeiros
Em exibição até 8 de agosto de 2021
Onde :MARGS (Praça da Alfândega, s/n – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: conforme a legislação vigente, neste primeiro momento o MARGS reabre para visitação mediante agendamento prévio nas modalidades “Visita presencial sem mediação” e “Visita presencial com mediação”, que deve ser feito pela plataforma Sympla. De terça-feira a domingo, das 10h às 19h (último acesso às 18h), sempre com entrada gratuita. No caso da “Visita presencial com mediação”, serão duas faixas de horários, para grupos de até seis pessoas: das 11h às 12h, e das 14h às 15h, de terça-feira a sábado.

A exposição integra o programa “História do MARGS como História das Exposições”, que tem como objetivo trabalhar a memória da instituição, e se insere no programa da atual direção artística da instituição de realizar mostras dedicadas a artistas mulheres.

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