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A alegria não é só brasileira

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A alegria não é só brasileira Jayme Caon Jovegelevicius e Fernando Samalea. Foto: Guido Spina/Divulgação

A partir desta semana, o professor, escritor e músico Jayme Caon Jovegelevicius vai dividir aqui impressões, lembranças, informações e comentários sobre sua grande paixão: o rock argentino. Neste primeiro texto da série O Rock Argentino e o Brasil, o porto-alegrense conta como descobriu e foi literalmente cativado pela música jovem e urbana feita na Argentina ⎯ um arrebatamento que o levou a largar tudo na capital gaúcha e se bandear para Buenos Aires.

Nos dois anos em que morou por lá, Jayme mergulhou na cena musical argentina e conheceu alguns de seus protagonistas, como a figura à sua direita na foto acima, o baterista Fernando Samalea ⎯ integrante da banda de Charly García que já tocou ou gravou com nomes como Gustavo Cerati, Andrés Calamaro, Illya Kuryaki & The Valderramas, Joaquín Sabina e La Portuaria, entre outros.

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Sama, como é também chamado o músico portenho, aparecerá logo nos textos de Jayme. Antes disso, vamos saber como nasceu esse amor pelo rocanrol.

Arquivo Pessoal

Por Jayme Caon Jovegelevicius


A música deu outra dimensão para minha vida alguns anos antes de eu conhecer Buenos Aires. Por volta dos 13, 14 anos, perguntei para um amigo mais velho por que escutava falar tanto em Beatles e Pink Floyd. A resposta veio com o download da discografia das bandas, em um pen drive. Estava em uma etapa de absorver tudo o que poderia romper com um entorno conservador e era levado pela curiosidade.

Visitando a casa de outro amigo, fui apresentado aos long plays que ele compartilhava com os companheiros de apartamento. A qualidade do que tocava, os encartes físicos que contavam histórias e o barulho da agulha captaram minha atenção. Gostei tanto que mandei arrumar um Gradiente 3-em-1 e fui resgatando os LPs da família que haviam sobrevivido à passagem do tempo.

Por essa época, me dedicava a procurar compulsivamente tudo que tivesse a ver com a contracultura, a história e a energia de um passado que me interessava mais do que o presente. Nas férias de julho dos meus 16 anos, conheci o rock argentino.

Era 2011 e meus pais programaram uma viagem de Porto Alegre até Buenos Aires. O plano era sairmos de carro, fazer uma parada em Montevidéu para visitar nossos primos uruguaios e de lá cruzar o Rio da Prata. Nos dias que antecederam a viagem, folheava um guia turístico portenho. Eu nunca havia estado na capital argentina e, em alguma página entre a Casa Rosada e La Boca, encontrei o endereço de uma disquería. Recortei o pedaço, passei o marca-texto e guardei para quando chegássemos.

Cumprida com êxito a primeira parte da viagem, desembarcamos em Buenos Aires e fomos passear por San Telmo. Ao cruzar a calle Defensa e a avenida San Juan, um Elvis Presley de papel em tamanho real convidava para entrar. Na parede, um grafite escrito Eureka Records, tienda de vinilos.

Entramos e a primeira impressão foi promissora. Discos coloridos pendurados desde o teto, paredes cheias de pôsteres e camisetas de bandas que eu não conhecia davam uma aura especial ao lugar.

Entre as pilhas de LPs usados, escolhi artistas que já figuravam no meu radar e arrisquei algumas capas que me pareceram afudês. Quando me aproximei do caixa para pagar, vi que o atendente não era muito mais velho. Em portunhol, contei que era do Brasil, expliquei o que vinha escutando e perguntei o que ele me recomendava conhecer da música argentina.

Por cima dos discos que eu havia escolhido, pousaram mais dois. Enxerguei uma flor branca e lilás na capa do primeiro. O título, quase apagado, A 18’ del Sol. Na capa do segundo, quatro homens não muito felizes ao redor de uma mesa posta e a palavra Bicicleta.

O atendente me explicou que o primeiro disco era de um artista chamado Luis Alberto Spinetta e que o segundo era de uma das bandas mais importantes da Argentina, Serú Girán. Anotou meia dúzia de nomes em um bloco de notas e me entregou. Mandou eu procurar na internet quando chegasse em casa. Fiz cara de entendido e agradeci.

Durante a pandemia, decidi fazer o que tinha vontade. Quando abriram as fronteiras, no final de 2021, pedi demissão do meu trabalho como professor em Porto Alegre e investi minhas economias no plano de viver dois anos por allá.

Quando cheguei em Buenos Aires, fui procurar a loja. Entrei e contei essa história para o atendente que encontrei. Explicou que era o dono do lugar e que provavelmente havia sido ele mesmo quem recomendara os discos.

Antes de sair, avistei um livro de recados. Pelas dúvidas, deixei anotado: cuidado com o que venham a conhecer aqui.

Podem terminar morando em Buenos Aires.

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