Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha

A escuridão da ensolarada Califórnia

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A escuridão da ensolarada Califórnia
A HBO lança a sua versão das histórias do advogado e detetive Perry Mason, um dos mais populares personagens da literatura e televisão americanas, de um jeito que só a HBO faria, e a gente sai ganhando. Perry Mason teve versões televisivas que foram dos anos 1950 até os 1990, em diferentes formatos, mas nunca foram algo, digamos, impressionante, e ele mesmo não era um personagem do nível de um Sam Spade, um Philip Marlowe, os caras da época. A versão HBO aproxima Perry Mason dos grandes, e propõe um clima mais alinhado com os elementos na narrativa noir, o estilo criado nos Estados Unidos da Depressão, e nomeado pela editora Gallimard, francesa. Black, dark, virou noir. O noir retrata a visão niilista e pessimista dos Estados Unidos nos anos 1930 e 1940, quando o país sai da loucura dos anos 1920, é mergulhado na Lei Seca e, ainda por cima, na pior depressão econômica da sua história, algo que até hoje marca a psique americana. O noir também olha de forma impiedosa para as injustiças do sistema americano, algo que a narrativa oficial prefere colocar pra debaixo do tapete. Racismo, violência policial, violência em geral, leis cruéis e de inspiração puritana, um conjunto de verdades que era real naquele tempo, e segue valendo hoje, ou não teríamos Black Lives Matter. A California se torna um cenário especialmente forte por ser um lugar de tanta riqueza e tanta luz. Na terra do sol permanente, a escuridão está muito, muito presente, e manda. Esse é o tom do Perry Mason que a HBO nos traz. Como sempre, a direção de arte é de fazer chorar. COMO alguém pode criar ambientes de época com tanta, tanta, tanta perfeição? Todo mundo viu Boardwalk Empire. Todo mundo viu Chernobyl. Pois é. Bem vindos à Los Angeles de antes, porque ela era assim, ou devia ser. Perry Mason é um advogado caído em desgraça, que se torna uma mistura de detetive com protetor de inocentes. Ele mergulha na escuridão para trazer alguma verdade à tona. Nesse sentido, ele é um elemento do otimismo americano que sobrevive, mesmo sem querer, a tudo que vê ao seu redor. A corrupção, a violência, a maldade, pura e simples. Eu sou um órfão de Os Sopranos, a melhor série de todos os tempos, e talvez a melhor coisa que a HBO tenha feito na vida. Perry Mason não deve suspender a minha perda, mas atenuar. Se for assim, já vale o ingresso, com sobra. E, de lambuja, vemos Matthew Rhys, o ator galês que fez Phillip Jennings, o espião russo em The Americans. Hi, Matthew! So nice to see you again. Vejam.

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