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Bem limpinhos

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Bem limpinhos Netflix/Divulgação

Spotless tem um ótimo ponto de partida: o proprietário de uma empresa altamente especializada em limpeza de cenas de crimes é informado que o seu contrato com a polícia de Londres está por ser encerrado. E isso é um enorme problema, porque esse é o seu único cliente, uma vez que a investigação de mortes é mais um menos, ainda, um monopólio estatal, não é mesmo?

Jean Bastière, nosso protagonista, veio da França para a Inglaterra há vários anos, casou, teve filhos e se tornou tão inglês que chega até mesmo a beber cerveja em momentos em que deveria beber vinho. A adaptabilidade humana é uma fonte inesgotável de surpresas, não é mesmo?

O começo de nossa história é esse, o momento em que sua empresa – que já anda balançando financeiramente – está diante do desastre anunciado de perder o cliente, e os muitos corpos que ele precisa remover, e cenas cuja bagunça ele precisa limpar. Para tornar tudo ainda mais francês, o irmão distante e bastante complicado, Martin, chega, com uma moça congelada dentro do carro e uma carga de, digamos, produtos ilícitos armazenados no interior da moça, que chega dentro de um freezer, dentro do carro de Martin.

Se isso não bastou pra atrair a sua atenção, estimado leitor, não sei o que seria capaz de.

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Spotless é isso. Uma série produzida em 2015, que chegou há pouco na Netflix, e mais do que merece ser vista neste inacreditável 2020.
O argumento é forte, os personagens não menos, e o desenvolvimento da trama é daqueles que deixam a gente meio enjoado por tantas curvas no caminho. Você percebe notas de Breaking Bad, tons de The Sopranos, perfume de The Wire, o tempo inteiro. Jean e Martin trazem uma carga de dores que deveria ter afundado no Canal da Mancha, mas vive ao redor deles, e não vai embora de jeito algum. Os eventos aceleram e perdem o controle com a entrada de dois outros irmãos, os criminosíssimos Nelson e Victor Clay, tão amassados pela infância quanto Jean e Martin – ou, vamos combinar, beeeem mais amassados, e bem melhor armados.

O resultado é uma série em que você realmente não sabe muito bem que horror o próximo episódio vai trazer, e chega ao final descobrindo a ironia maior: a série, como a maior parte dos humanos, se encerra sem saber, sem admitir, sem imaginar que os seus momentos finais serão mesmo os últimos.

Por algum motivo, não muito compreendido, Spotless não teve uma segunda temporada. Talvez tenha incomodado demais, qui sait? Talvez tenha sido cínica demais, realista demais, humana demais?

Mas você vê claramente que Spotless, como boa alma cristã, contava com a ressurreição, pelo jeito que termina sem terminar e nos deixa na mão. Triste.

Todo mundo gosta de um bom Krimi, um bom filme sobre crimes e criminosos. Todo mundo aprecia ver que existem pessoas, em algum lugar, com vidas muito mais perigosas e menos entediantes do que as nossas.

Você fica na dúvida se eles, tendo a escolha, optariam pelas nossas vidas, em troca das deles.

Eu acho que sei a resposta, mas, como em Spotless, o texto aqui termina antes do final. De certa forma, isso é bom pra narrativa, e bom pra gente.

Vejam.

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