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“Christabel” transforma poema gótico em fábula cabocla

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“Christabel” transforma poema gótico em fábula cabocla Foto: Pipa Pictures/Divulgação

Mais uma prova do bom momento do cinema de gênero no Brasil, o filme Christabel (2018) chega aos cinemas do país nesta quinta-feira (25/2). (Lembrando que, por conta das determinações da bandeira preta no modelo de distanciamento controlado no Rio Grande do Sul, os cinemas estão temporariamente fechados no estado.) Escrito e dirigido por Alex Levy-Heller, o drama fantástico inspirado no clássico poema vampiresco homônimo escrito no começo do século 18 pelo escritor inglês Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834) adapta o clima gótico e simbolista do texto original para uma fábula noturna cabocla ambientada no cerrado brasileiro. O longa foi escolhido Melhor Filme pelo Júri da Crítica do 22º Cine PE, em 2018.

“Preservar o aspecto lúdico e poético da obra no filme foi a minha principal preocupação. O tempo, o ritmo, o tom, a fotografia foram pensados no intuito de fazer a poesia emergir através das imagens. No poema encontramos temas que, apesar de expostos em 1816 quando foi publicado, ainda hoje soam polêmicos e geram importantes debates. Christabel prova-se incrivelmente atual e merecedor de uma adaptação para o cinema”, justifica Levy-Heller, realizador dos documentários O Relógio do Meu Avô (2013) e Macaco Tião – O Candidato do Povo (2017) e do drama histórico Jovens Polacas (2019).

A produção traz no elenco principal a estreante Milla Fernandez, a atriz Lorena Castanheira – também uma das produtoras do filme – e o ator Julio Adrião. Nessa livre adaptação da obra de Coleridge, em lugar da Inglaterra de princípios do século 18, a história se passa no coração do Brasil atual, o castelo onde a trama se desenrola é agora um lar humilde e o Barão do poema é um rústico trabalhador rural, Leonel (Adrião), que vive com a filha, a jovem e bela Christabel (Fernandez). A rotina austera e silenciosa dos dois, resumida a trabalho e compartilhamento das refeições, é abalada certa noite quando Christabel encontra perdida na mata Geraldine (Castanheira), uma mulher que diz ter sido atacada por homens e precisa de ajuda.

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Foto: Pipa Pictures/Divulgação

A chegada de Geraldine afeta drasticamente a dinâmica da casa, instaurando uma triangulação de relações em que tanto Christabel quanto seu pai são influenciados pela misteriosa hóspede. Típico homem da roça acostumado com a dureza e a amargura da vida, Leonel vê em Geraldine uma ameaça à estrutura patriarcal que rege seu lar – ao mesmo tempo em que se sente atraído pela sedutora desconhecida. Já a recatada e cordata Christabel, que alimenta o sonho romântico de casar com o noivo e ter filhos, encanta-se não somente pela sensualidade de Geraldine, mas também por suas ideias de liberdade, independência e de uma nova posição da mulher na sociedade.

“Não acredito nos homens”, diz Geraldine a certa altura para Christabel, cada vez mais siderada pela figura confiante e insidiosa da visitante. A crescente troca de olhares, gestos e toques alimentam a intimidade entre as mulheres e desenham uma espécie de espelhamento, em que a independência e espontaneidade de Geraldine é a imagem cada vez mais desejada por Christabel para si mesma. “Os anseios da jovem Christabel coadunam aos desejos da misteriosa Geraldine. A relação entre as duas mulheres é a essência do filme. O elemento fantástico apenas torna a obra ainda mais sedutora”, argumenta o diretor.

Foto: Pipa Pictures/Divulgação

Rodado em apenas 12 dias e com uma produção modesta, Christabel é eficiente em transpor o ambiente de conto de horror romântico europeu para uma paisagem de folclore rural brasileiro. Esse constante intercâmbio de referências culturais é responsável por alguns dos momentos mais inspirados do filme, como na sequência final em que o bardo menestrel do poema inconcluso de Coleridge é substituído por um sanfoneiro cantador de beira de estrada, que diz versos de sabor sertanejo escritos pela poeta cearense – e avó do cineasta – Maria de Lourdes Beltrão Heller (1914 – 2015).

Contribui decisivamente para a imersão nesse espaço um tanto suspenso no tempo a eficiente direção de arte e especialmente a excelente fotografia noturna de Vinicius Berger, criando belos planos na penumbra iluminada por velas e lampiões. Questionado por este site na coletiva de imprensa virtual de lançamento do filme, na última terça-feira (23/5), a respeito de suas inspirações estéticas para Christabel, o diretor citou a Hammer, célebre companhia britânica especializada em filmes de terror – mas a partir de uma abordagem diferente: “Os filmes da Hammer sugaram muito de Christabel e Carmilla (Carmilla, a Vampira de Karnstein, novela gótica escrita por Sheridan Le Fanu), explorando a sexualidade das mulheres, com vampiras lésbicas. Eu quis fazer o oposto disso, dessa exploração”.

“Busco muita inspiração em obras de arte, música, livros e filmes. Em Christabel, busquei inspiração em filmes como A Ilha do Milharal (filme de 2014 do diretor georgiano George Ovashvili), com pouca produção, poucos atores e pouca luz, e A Terra e a Sombra (filme de 2015 do diretor colombiano César Augusto Acevedo), que tem enquadramentos que são verdadeiros quadros de arte”.

Merece destaque ainda a atuação do trio central de intérpretes: Milla Fernandez e Lorena Castanheira estabelecem em cena uma conexão ao mesmo tempo delicada e sensual, enquanto Julio Adrião – ator que brilha em filmes brasileiros recentes como Sudoeste (2011), Quase Memória (2016), Sertânia (2018) e Aos Pedaços (2020) – empresta força e complexidade a seu personagem embrutecido.

Foto: Pipa Pictures/Divulgação

Foto: Pipa Pictures/Divulgação

Foto: Pipa Pictures/Divulgação

Christabel: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Christabel:

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