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Da abstinência de pressa à busca do presente

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Da abstinência de pressa à busca do presente
por Julia Dantas   Onde foram parar as horas que eu gastava no ônibus toda semana? Como muitos, achei que na quarentena teria tempo de estudar alguma coisa nova, ler uma pilha de livros, manter a casa impecável. Na prática, levo um susto sempre que vejo na janela que o sol já se foi, e me pergunto o que aconteceu com o dia.   Não sou a única. Desde o dia 18 de março, organizo o Diário da Pandemia, um diário coletivo no qual cada dia é escrito por uma pessoa diferente. Já foram 127 dias, 127 pessoas. Não posso generalizar, mas acho que não é absurdo dizer que ninguém está entendendo muito bem a passagem do tempo durante o distanciamento social.   No dia 107, Reginaldo Pujol Filho descreveu a minha mesma perplexidade após fazer “contas esdrúxulas” e constatar que deixou de gastar na rua 14 horas em deslocamento. Porém: “Não tenho dormido mais, tenho assistido menos a TV, tenho entrado menos no Twitter e não posso acreditar que passo 14 horas desinfetando as compras semanais do Zaffari. Onde enfiei todas essas horas? Não tenho controle sobre elas”.   Sei que a perda foi, tecnicamente, das marcas do tempo. Antes, havia aulas, reuniões, grupos de pesquisa, compromisso de almoço, aniversários. A vida precisava se organizar ao redor e entre esses pontos pré-estabelecidos. O fim de semana era diferente dos outros dias. Não mais. Sem os pontos fixos, todo o resto se desestruturou. Me tornei completamente dona do meu tempo e não faço a menor ideia do que estou fazendo com ele.   Claro, há aqueles entre nós que mantêm os rituais. Eles levantam no mesmo horário de antes, tomam banho, colocam roupas de trabalho, sentam-se em frente ao computador como quem chega no escritório. Admiro essas criaturas com o mesmo assombro que dedico aos esquimós ou aos astronautas: que seres competentes para a adversidade! Como são capazes, disciplinados, realmente quase alienígenas. Na minha vida, tem reunião de pijama, notebook na cama quando faz muito frio, filme na hora do almoço e trabalho tarde da noite. Só não vou de pantufas até o mercado porque agora meus sapatos se dividem entre os de sair – novos moradores do corredor do prédio – e os de ficar em casa.   Pertenço ao time da Glória Di Leone, que disse, no dia 103: “Não há tempo para ler todos os livros que repousam na estante, nem para realizar a limpeza da casa como planejo, nem de assistir filmes, entrevistas e lives que me interessam. Como pode?”   Confusão transatlântica Felipe Massaro, no dia 13, tentou uma explicação: “Uma sensação estranha de que o tempo já não é mais o mesmo, de que estamos numa grande insônia transatlântica”. Eu não entendi o que é uma insônia transatlântica, mas gostei.   A confusão já estava instalada desde o começo para muita gente. Vanessa Silla escreveu: “Estamos no quinto dia aqui, ou será que já é o oitavo, não sei”. (Era o oitavo). Para a […]

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