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Brown love

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Brown love Netflix/Divulgação

Eu Nunca… voltou em segunda temporada e já pulou pro primeiro lugar nas 10 mais entre as séries da Netflix no Brasil. Parte desse sucesso deve ter a ver com a quantidade de jovens entre os praticantes de Netflix por aqui. Eu Nunca… é sobre amor jovem, vida jovem e, como elemento importante e adicional, amor jovem étnico, no caso, de uma jovem americana de origem indiana e suas aventuras ao tentar viver a adolescência nos Estados Unidos, onde jovens americanas de origem indiana são americanas, mas de uma espécie particular, e menos americana do que outras espécies americanas.

Os Estados Unidos, pra quem não sabe, é uma sopa cheia de bolinhas étnicas, cada uma ocupando um espaço no prato da sopa, mas não necessariamente se sentindo representada, compreendida ou aceita pela sopa como um todo. Nos últimos anos, histórias da experiência brown – nem branca nem negra, mas de outra cor – têm ocupado espaço e audiência, e Eu Nunca… vai direto por esse caminho, contando as aventuras da adolescente Devi na sua escola californiana e na sua família indiana, na narrativa dupla de quem tem, de fato, duas cidadanias culturais.

Devi é uma garota americana da Califórnia. A mãe, no entanto, que vive na Califórnia há tantos anos quanto Devi, é indiana. Sua melhor amiga é chinesa-americana, especialmente porque elas se entendem e sofrem dos mesmos males. Não é fácil você tentar fazer parte da sopa quando seus pais puxam você para a borda o tempo inteiro, cobrando atitudes, comportamentos e uma vida que não é aquela que você deseja ter – a vida igual à de seus colegas e amigos.

Os Estados Unidos sempre foram um país formado por imigrantes, claro. Mas os imigrantes brancos se juntam à sopa sem maiores problemas. Os vindos da África, em uma trajetória trágica, são indiscutivelmente americanos hoje. Os imigrantes vindos da Ásia, nem brancos nem negros, e ainda minoria nos números, ficam em um lugar pouco claro e difícil. E esse é o lugar onde se coloca Devi.

Um negro americano pode sofrer diferentes tipos de discriminação, mas a sua nacionalidade não é questionada. Um imigrante vindo da Índia, ou China, Japão, Indonésia ou Vietnã é questionado o tempo todo: “De onde você é?” é uma das perguntas mais frequentes, como se ele ou ela tivessem que ter vindo de algum lugar que não ali mesmo.

Uma das coisas mais americanas que existem é a tentativa de avançar nas questões pelo método da discussão aberta. No Brasil, preferimos o milenar método de jogar tudo pra baixo do tapete e fazer de conta que o problema nunca existiu. Os americanos colocam tudo na rua, abrem o jogo, e esperam que o tempo e a briga ajudem as coisas a se encaixarem em algum lugar que sirva a todos.

Devi não está especialmente interessada em debates culturais. Ela tem 15 anos e prefere beijar garotos, especialmente um dos dois que ela, aparentemente, namora. A mãe sente falta do marido, tristemente morto, para a ajudar a lidar com o americanismo da filha, que a impede de ser indiana como a mãe.

No entanto, e a mãe descobre isso ao longo da série, a Índia com que ela sonha não existe mais, ou de verdade. Ela também já é americana demais para a Índia, mesmo que indiana demais para a Califórnia.

Identidade é uma das maiores questões para nós, humanos.

A série tem texto, agilidade, e se faz ver. O curioso é que ela é narrada por celebridades com John McEnroe ou Gigi Hadid. Por que John McEnroe ou Gigi é uma boa pergunta. Mas, em se tratando de séries, e destes tempos, a resposta é: por que não?

Por conta de tudo isso, e pra sabermos pra onde vai a tadinha da Devi, veja. Fica a dica.

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