Artigos, Marcelo Carneiro da Cunha, Série

Bom demais

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Bom demais Foto: Netflix/Divulgação

Há pratos que ficam melhores depois de um tempo. Pizza, por exemplo. Existe algo melhor do que uma pizza que você descobre por acaso na geladeira às quatro da manhã? Não, não existe.

E é com esse espírito que eu recomendo a todos os leitores que abram a Netflix e procurem até encontrar Master of None, duas deliciosas temporadas mantidas geladinhas desde 2015, pra surpresa de quem resolver dar uma mordida nelas.

Aziz Ansari é um comediante indiano-americano, com uma longa trajetória entre stand up e participações em pérolas como Parks and Recreation, e cocriou e escreveu Master of None, em que faz o protagonista, Dev Shah. Gente, como é bom.

Não é bom daqueles de elogio depois de assistir a uma peça quando se conhece o diretor e ele nos pega na saída e pergunta o que a gente achou. Nada disso. É bom de BOM, bão, good, marvellous, ou, no nível supremo que um adjetivo pode atingir, tri bom.

Dev é um sub ator de comerciais e similares que sobrevive com algum conforto em Nova York. Trinta anos, sem maiores traumas, alguns poucos e ótimos amigos, ele se pergunta afinal o que fazer com a vida, enquanto ela ainda nos oferece escolhas.

E é sobre escolhas que Master of None se espalha, em suas duas ultra tasty temporadas. Na primeira, a série elabora sobre a conveniência, ou possibilidade, de se fazer escolhas como um casamento, quando ainda estamos nos maravilhando com as possibilidades que a vida e os apps de paquera nos trazem.

Dev é um ser dotado de curiosidades, vontades e muita apreciação pelo que a vida tem de legal: pessoas, mulheres, filmes, comidas. Como tantos americanos da idade dele, não há um Vietnã, uma AIDS, uma questão maior do que o cotidiano para lidar.

O que pega a gente e não larga é o olhar, o registro, cheio de humor, cheio de detalhes que nos fazem pensar enquanto sorrimos pra dentro, e algum nível de existencialismo pós-sartreano. O episódio sobre Thanksgiving segundo a amiga gay, Denise, é uma das melhores coisas que você ainda não viu nesta vida. O episódio que abre a segunda temporada, homenagem ao neorrealismo italiano, é pra ver tomando sorvete em cima de uma lambreta. Ah.

As delicadezas e delícias são tantas que é difícil parar, e é difícil se conformar com a não existência de uma terceira temporada. Em 2018, Ansari foi atingido por uma garota que publicou, anonimamente, um relato de uma saída dela com Ansari, onde ela chega perto de o acusar de assédio, ou abuso. A história toda fica pra lá de Bagdá em termos de indefinição sobre o que efetivamente ocorreu. Várias mulheres se indignaram com as acusações da anônima, afirmando que ela ia contra tudo que o MeToo propunha, vulgarizando o que pode ser chamado ou não de abuso. Porque é ela quem insiste para eles saírem, e tudo que acontece, mesmo narrado por ela, parece, principalmente, um bad date, aquelas saídas entre pessoas que até podem sair, mas não deveriam fazer mais nada além de apertar a mão e nunca mais se ver, isso logo após o expresso depois do jantar.

A impactante série I May Destroy You, injustamente fora dos Globo de Ouro, fala disso. Do poder adquirido, ou em aquisição pelas mulheres, de fazer tudo, entre finalmente colocar limites no patriarcado, e destruir alguém por razões justas, ou nem tanto.

Ansari não foi destruído, mas se afastou das luzes e retomou o stand up.

Se você assistir a Master of None, talvez concorde comigo que isso é lamentável, não termos mais Master of None, eu quero dizer. A anônima se vingou de Ansari, e nós ficamos órfãos. Pode ser que precise ser assim mesmo, mas não deixa de ser uma pena, também.

Veja.

  • Como a vida pode surpreender pra melhor, vai mesmo haver uma terceira temporada de Master of None, dessa vez situada em Londres. Tou aqui sentado, esperando ansioso.

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