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Mestre da seriedade

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Mestre da seriedade Netflix/Divulgação

A série Master of None, disponível no Netflix, foi criada pelo americano de origem indiana Aziz Ansari, que montou todo um sistema filosófico baseado no humor de stand up, uma das glórias da cultura americana. Na duas primeiras temporadas, Aziz incorpora Dev, um jovem nova-iorquino que desvenda o mundo a partir da sua ótica brown – nem negro, nem branco, mas mais ou menos as duas coisas.

Há várias séries criadas com essa experiência de mundo, e vale demais a pena ver Ramy e I May Destroy You. Ramy fala de um jovem americano de origem muçulmana que quer ser muçulmano nos Estados Unidos pós-11 de Setembro. I May Destroy You é criação da incrível Michaela Coel, londrina e africana, poderosíssima.

Aziz Ansari escolhe contar as suas histórias de uma forma suavizada pelo eixo do humor, da mesma forma que Woody Allen escolhe contar a sua trajetória judaica. Ambos são grandes narradores dos seus contemporâneos, e ambos conseguem narrar o que querem, nos mantendo atentos e fisgados por um certo tipo de humor em que a ironia substitui a gargalhada. Funciona.

O que acaba de ser lançado é a terceira temporada de Master of None. Se você não viu nenhuma, aproveite. Aziz viaja delicada, mas sinceramente sobre a dureza nova-iorquina, se desloca pela Itália, volta ao seu território, e sempre com o seu jeitinho de narrar. Vale muito a pena.

Com o sucesso das primeiras temporadas, se esperava logo a terceira, mas Aziz foi atropelado por um momento me too que o acertou em cheio. Uma garota que declaradamente buscou sair com ele – celebridade – e, ao final de um date mal realizado, ela fez um relato anônimo em um site feminista que deixou Aziz mal na foto.

O relato não impressionou a todo mundo com o mesmo efeito. Muitas foram as mulheres que defenderam Aziz, dizendo que não houve assédio, não houve nada fora do prumo, apenas um date que saiu do eixo, acontece. Mas os tempos são de me too, e ele levou quatro anos pra lançar a sua terceira temporada de Master of None.

Ele escolheu sair de cena, quase por completo, e ceder o centro do palco para a amiga negra e gay de Dev, Denise. O que vemos não é Dev se espalhando por Nova York, mas Denise, vivendo no campo com a sua esposa, que quer um filho.

O registro é sério, sombrio, triste com um campo gelado no countryside nova-iorquino. E eu ainda não sei o que achei de tudo isso.

Nas duas temporadas iniciais, o leve humor remove a sombra, e a sombra existe. Um dos melhores episódios, e vejam por favor, é um em que Dev e Denise, crianças, vivem vários feriados de Thanksgiving, durante os quais Denise começa a lidar com a sua sexualidade. O episódio é glorioso, vejam pra crer.

Já nessa temporada, o registro melancólico não deixa muito espaço para a imaginação. A vida de mulheres negras e gays é mais difícil do que a vida das mulheres não negras, e não gays, e não existem muitas formas de tornar isso divertido.

Woody Allen era genial quando resolvia tirar sarro da tragédia humana, e linear quando resolvia ser Ingmar Bergman, mais ou menos o mesmo acontece com Aziz.

Machado de Assis tem um conto sensacional chamado Um Homem Célebre, no qual um pianista que quer muito compor uma sinfonia consegue apenas compor músicas que se tornam imensamente populares, e ele sofre, sofre, sofre. Parece que ser conhecido como humorista não satisfaz a quem quer ser, acima de tudo, levado a sério.

Pra mim, grande, enorme mesmo, é saber contar histórias humanas, e portanto trágicas, usando a moldura da comédia. Através dela, vivemos o que provavelmente não iríamos querer ver de outra forma. Aziz, como Woody e o pianista de Machado, não se conformam. São deuses, mas querem ser trágicos. Uma pena.

Segue sendo bom, mas as duas primeiras temporadas são melhores. Vejam tudo, e achem alguma coisa.

Fica a dica.

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