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“Meu Pai” comove mostrando a lenta agonia da razão

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“Meu Pai” comove mostrando a lenta agonia da razão California Filmes/Divulgação

Indicado ao Oscar em seis categorias, o filme Meu Pai estreia nesta sexta-feira (9/4) nas plataformas digitais Now, iTunes (Apple TV) e Google Play, disponível para compra. A partir de 28 de abril, o longa ficará disponível também para aluguel nessas plataformas e também na Sky Play e na Vivo Play. Dirigido pelo dramaturgo francês Florian Zeller, Meu Pai concorre às estatuetas douradas de melhor filme, ator (Anthony Hopkins), atriz coadjuvante (Olivia Colman), roteiro adaptado (Christopher Hampton), montagem e design de produção.

O drama é focado na relação entre Anthony (Hopkins) e sua filha Anne (Colman). Aos 81 anos, o idoso vive sozinho em um apartamento em Londres e recusa a ajuda de enfermeiros e cuidadores que a filha tenta lhe impor. Quando Anne resolve se mudar para Paris com seu companheiro, surge um impasse: como o pai, que sofre de sérios lapsos de memória, ficará completamente sozinho?

Ao mesmo tempo, fatos estanhos começam a acontecer: um desconhecido diz que o apartamento de Anthony não lhe pertence, Anne passa a se contradizer constantemente, episódios recentes, memórias remotas e rostos do passado misturam-se e nublam o entendimento do protagonista. Estaria ele perdendo a razão ou seria um plano da filha para tirá-lo de casa?  

California Filmes/Divulgação

Para Zeller, Hopkins sempre foi a primeira opção de ator para o papel central na adaptação de sua peça para o cinema – o protagonista foi batizado com o nome de Anthony justamente por causa do astro de filmes como Retorno a Howards End (1992) e Vestígios do Dia (1993). No teatro, o papel já foi interpretado por Robert Hirsch, Frank Langella e Fulvio Stefanini, no Brasil.

“Eu tinha a profunda certeza de que Hopkins seria poderoso e devastador no papel”, diz Zeller. O ator, que foi apresentado ao dramaturgo pelo roteirista Hampton, com quem trabalhou em filmes como Amor e Vingança (1985), confessa que ficou lisonjeado pelo convite: “Foi maravilhoso saber que escreveram o roteiro me imaginando como o personagem. Nesse caso, foi uma honra. E trabalhar nesse filme me fez pensar em minha própria mortalidade. Foi muito divertido, no set, memorizar as conversas e diálogos. De certa forma, quando as câmeras estavam rodando, nem precisava atuar”.

Já Olivia Colman conta que ficou tocada quando leu o roteiro: “Eu amo essa história. É uma das coisas mais bonitas já escritas sobre o assunto. O roteiro realmente mostra o que deve ser viver com uma pessoa portadora de Alzheimer, quando há momentos de clareza misturados com outros obscuros. Anne quer cuidar do pai, mas também precisa tocar a sua vida. Ela precisa tomar decisões muito sérias”.

A peça de Florian Zeller já havia sido recentemente adaptada para o cinema no filme francês A Viagem de Meu Pai (2015), estrelado por Jean Rochefort e Sandrine Kiberlain. No entanto, se na comédia dramática de Philippe Le Guay a velhice a a senilidade eram abordadas com um tom agridoce e por vezes leve, em Meu Pai não há nenhum momento de alívio: a decadência da razão e a ruína da identidade pessoal provocadas pela demência são expostas em toda a sua impiedosa crueldade.

Tema recorrente no cinema contemporâneo, o Alzheimer é abordado sob um ponto de vista incomum em Meu Pai: o enredo de Zeller e Christopher Hampton – dramaturgo responsável pelos roteiros adaptados de títulos como Ligações Perigosas (1988), pelo qual ganhou o Oscar, O Americano Tranquilo (2002) e Desejo e Reparação (2007) – se desenrola a partir do olhar e da compreensão dos fatos de Anthony, não de uma terceira pessoa consciente da doença do personagem. Dessa forma, o espectador é jogado na trama dividindo com o protagonista a incerteza quanto ao que realmente está acontecendo e a angústia por não distinguir com clareza o que é realidade, lembrança e imaginação.

Olivia Colman e, em especial, Anthony Hopkins podem bisar a premiação no Oscar por suas atuações – a atriz inglesa já levou o troféu por A Favorita (2018), o ator galês por O Silêncio dos Inocentes (1991). Enquanto a interpretação contida de Colman comunica o sofrimento da filha impotente diante do declínio de Anthony e amargurada pela ingratidão paterna, Hopkins está soberbo ao estampar no olhar e no rosto o espanto e o desamparo de pressentir-se sofrer um lento processo de desagregação da consciência.

California Filmes/Divulgação

Meu Pai: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Meu Pai:

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