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Minha cidade tinha a Jornada Nacional de Literatura

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Minha cidade tinha a Jornada Nacional de Literatura
Meu nome é Stéfani Fontanive e eu sou de uma cidade que tinha a Jornada Nacional de Literatura. Tinha. Em 2019, ela foi primeiro adiada, depois cancelada. Marcada originalmente para entre os dias 30 de setembro e 4 de outubro do ano passado, ela ganhou nova data pela falta de recursos: março de 2020. Mas, no início de dezembro, como o dinheiro continuou curto, os organizadores a cancelaram definitivamente. Será um novo período sem Jornada, que já havia deixado de ser realizada em 2015, e não se sabe quando ela voltará. Chorei ao saber da notícia e busquei todas as boas lembranças que tinha do evento. Chamei amigos para conversar e compartilhar histórias e memórias dos dias que vivemos na Jornada. O evento era um marco para Passo Fundo, surgido há quase quarenta anos, em 1981, do sonho de uma mulher: a professora Tania Rösing. Tudo começou em um jantar com Josué Guimarães. O escritor perguntou para Rösing como estavam as coisas no curso de Letras da Universidade de Passo Fundo. A resposta: “uma mesmice”. Mas ela tinha um plano para mudar isso, e ele passava pela criação de um evento dedicado ao encontro de autores e leitores. Nos dias prévios, os participantes se preparariam para o grande momento: leriam e debateriam as obras. A ideia, conhecida como pré-Jornada, seguiria até os dias atuais. Guimarães acreditou no projeto de Tania Rösing e trouxe os participantes da primeira edição daquela que então era chamada Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense, inaugurada já com presenças importantes do peso de Moacyr Scliar e Mario Quintana. “A Jornada nasceu bem sonhada e abençoada”, contou Rösing. Escritores notáveis nunca deixaram de ser procurados, mesmo em tempos difíceis: para a edição que deveria ocorrer este ano, a ideia era levar a Passo Fundo o mineiro Silviano Santiago e o português Valter Hugo Mãe. Na primeira edição, Guimarães foi além dos livros e relatou, às cerca de 750 pessoas que compareceram à Jornada pioneira, histórias inéditas do seu período no exílio – como a tentativa de reunir João Goulart e Leonel Brizola na formação de uma resistência à ditadura, de fora para dentro. Também falou um pouco sobre a personalidade de cada um desses amigos, afirmando que era mais próximo de Jango, pois, assim como ele, gostava da vida boêmia. Dois anos depois, novamente por influência de Josué Guimarães, a Jornada tornou-se nacional. Os autores convidados, novamente, eram amigos do escritor que foram encantados pelo projeto: Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Orígenes Lessa, que não queria aparecer – Passo Fundo, dizia, era longe demais, e aos 80 anos aquela não era uma viagem muito agradável. A alternativa foi fretar um avião para fazer o trecho entre Porto Alegre e o interior do Estado. Lessa não seria o autor mais distante a comparecer em terras passo-fundenses. Durante quase 40 anos de história, diversos autores passaram pela cidade, entre eles Ariano Suassuna e Edgar Morin que, em sua estadia, receberam os títulos – respectivamente – de doutor e […]

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