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O alienígena está entre nós

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O alienígena está entre nós Syfy/Divulgação

Resident Alien é aquela série que aparece de mansinho e, quando a gente vê, já é tarde. Tarde mesmo, após a gente bingear quarto capítulos um atrás do outro, meu caso.

O canal é o Syfy, e vejo na Wikipedia que “sua programação é dedicada à ficção científica, fantasia, terror e paranormal”. Ou seja, Syfy é o equivalente no mundo a cabo da TV Record aqui fora.

Resident Alien, tecnicamente, não é muito nada disso aí. Não chega a ser ficção científica, a não ser stritu senso em parte dos artefatos que o alienígena traz, e que caem na Terra juntamente com ele. Terror e paranormalidade, quando aparecem, não se comparam ao mundo Bozo ao nosso redor. Crueza, alguma crueldade e humor de gosto questionável sim, o tempo todo.

A história é assim: um alienígena que veio à Terra para realizar uma missão nada agradável (pra gente) enfrenta problemas mecânicos com sua nave e cai em uma cidadezinha no Colorado. A partir daí, tudo é mais ou menos o cenário surreal do oeste americano, com montanhas, neve e gente quase tão esquisita quando o alienígena.

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Ele, o alien, chega, encontra uma cabana e imediatamente elimina o único ocupante da casa jogando-o em um lago congelado, sem maiores expressões de remorso. Sem nenhuma expressão de remorso, na verdade. Ali ele passa os próximos meses, isolado e aprendendo tudo sobre a Terra a partir do que vê na televisão em geral, e no seriado Law and Order em especial.

Além das horas diante da tevê, ele caminha pelas montanhas cobertas de neve atrás dos pedaços da sua nave e de um artefato que lhe permitirá cumprir a sua missão de nos exterminar. Essa rotina tranquila é rompida quando a polícia vai até a sua cabana sur lac pedir a ele que ajude a cidadezinha próxima. O único médico teve uma morte súbita e esquisita, e precisam que ele assuma enquanto outro médico não é encontrado. O sujeito que ele jogou no lago antes que tivessem tempo para um diálogo era, agora sabemos, médico.

Daí em diante, o que temos são as cenas cheias de constrangimento e algum riso que esse encontro nos fornece. De um lado, um alienígena (ah, ele foi capaz de reordenar as suas moléculas e assumir a forma humana, claro) com um conhecimento bem pouco amplo da vida na Terra, e terráqueos não tão diferentes dele. Ele tenta atender ao que dele esperam, enquanto escandaliza a todos com comentários pra lá de politicamente, socialmente e historicamente incorretos.

Em termos de narrativa, causa espanto a ousadia dos criadores da série em arremessar toneladas de novos plots, numa taxa raramente vista. Coisas que a gente mais ou menos espera que surjam a cada três episódios são adicionados em um e, de alguma forma, a estrutura aguenta. Em parte, porque, vamos combinar, é tudo uma grande farsa, da qual a gente participa porque, sério, Resident Alien é interessante paca.

Há muitos anos, uma série como Os Invasores assustava os americanos com a ideia de que “eles” estavam entre nós. A alusão, clara, em plena Guerra Fria, era os comunistas, esses alienígenas que querem tomar as nossas armas. No Brasil, até o Pelé participou de uma novela estranha pra caramba, chamada Os Estranhos. E.T. phone home, lembram?

A vantagem, para os americanos, é ter alguém podendo falar tudo que eles querem, e não podem mais. Misoginia, racismo, xenofobia, tudo que virou tabu para todos, menos o Trump, sai naturalmente da boca de nosso alienígena.

O sujeito estranho, incompreensível, mas dotado de uma capacidade incomum de se mover pelos espaços intersticiais, é um fascínio especial. Lembro do personagem incorporado por Peter Sellers em Being There (Muito Além do Jardim), que funciona muito da mesma forma.

O que me faz sofrer é que, após esgotar os episódios que estavam acumulados, tive que me adaptar ao ritmo da série, que sai semanalmente, às quartas-feiras. Chato isso, mas é o jeito.

Eu estou vendo, e portanto, vejam. Fica a dica.

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