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O Jogo da Lula é o maior do mundo

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O Jogo da Lula é o maior do mundo Netflix/Divulgação

A Netflix informa que Squid Game, série coreana que somente no Brasil se chamou Round 6, se tornou o programa de maior audiência na história do streaming. Não o programa de outra língua que não a inglesa. O programa mais visto no mundo todo, tendo chegado ao primeiro lugar de audiência em nada menos do que 90 países, e sem contar a China, onde ele não passou.

Você, caro leitor, cara leitora, viu?

A série não chega a ser exatamente única. Outros filmes e séries já falaram sobre jogos mortais, e uma das franquias mais lucrativas do cinema, Jogos Vorazes, é exatamente sobre isso, mesmo que de outro jeito. A Roma Antiga já entendia do assunto, quando inventou os jogos vorazes originais, nos combates de gladiadores.

Se não é o tema, talvez seja o jeito que a série encontrou pra se narrar. Talvez seja a ideia relativamente inusitada de remeter a tragédia para o universo infantil, na forma de uma série de jogos aparentemente inocentes, até que alguém começa a atirar nos participantes, um a um. Eu acho que é muito por isso que Squid Game, Round 6 ou como se chame, ganhou tração tão rapidamente, e tão mundialmente.

Não sei se os caros leitores dessas mal traçadas têm filhos? Eu tenho, um menino de nove anos, e, na semana passada, o assunto na escola dele foi o fato de que TODAS as crianças viram, tão rapidamente que os pais não tiveram tempo sequer de desconfiar, na primeira revolta organizada do terceiro, quarto ano em diante desde que a escola foi inaugurada, há cinco décadas. Eles ficaram sabendo da série ao mesmo tempo em que todo mundo, e um pouco antes de os pais saberem, ou imaginarem que nossos pré-pré-adolescentes iriam nos surpreender dessa forma acessando conteúdo proibido para menores de 16 anos.

O meu filho assumiu a parte dele na revolta, e disse que tinha entendido que não era conteúdo para a idade deles, mas que tinham desejado ver assim mesmo e que eu não me preocupasse porque “Eu tenho espírito crítico, papai”. Certo.

Isso criou o ambiente para um debate com o filho que vou ter com os caros leitores: o que, afinal, é Round 6? Crítica ao capitalismo? Horror edulcorado? Estranhamento oriental para olhos delicadamente ocidentais? Todos os elementos acima?

O que eu falei com o meu rebelde infantil foi que a gente está olhando pra uma sociedade diferente, que enriqueceu muito nos últimos anos, mas ao custo de deixar de ser a si mesma, de várias formas. Que ela ganhou peso e corpo, e talvez tenha perdido a alma.

Eu gosto demais de um filme de Taiwan, Vive l’Amour, do diretor Tsai Ming-liang, que desenha bem demais a realidade de quem se ocidentalizou, deixou de ser oriental, em parte, sem se tornar ocidental por inteiro. A vida, ela fica um tanto partida, e isso talvez explique esse sofrer todo que eles soltam pelos poros.

A Coreia do Sul também vive o resultado de uma guerra terrível que partiu o país em duas metades opostas. Meu filho, aos nove, também me informou que a Coreia do Norte é o pior país do mundo (em particular por não haver internet – portanto nada de games). A imaginação fraturada, as famílias divididas, a vida sob a ameaça de milhares de mísseis apontados pra Seul, nada disso ajuda, na hora de tornar a vida algo menos aflitivo. Daí, Round 6.

A Coreia vive uma realidade extrema, e dura. A diferença é que ela tem uma enorme e sofisticada indústria cultural, que nos dá as boy e girl bands de meninos e meninas perfeitamente plastificados, nos dá produtos de alta tecnologia que antes eram japoneses e nos dá uma produção audiovisual de nível global. Sofrer, mas poder mostrar, é uma vantagem, quando a gente pensa nisso. Nós, brasileiros, sofremos tão bem quanto qualquer outro povo. Simplesmente não achamos mais jeitos de nos mostrar que o mundo queira ver. Nos falta o que os coreanos já sabem fazer, e muito.

Vejam.

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