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Para ver ou para assistir?

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Para ver ou para assistir? BBC/HBO/Divulgação

Vamos definir, para efeito desta coluna, que exista uma diferença fundamental entre os dois verbos. Digamos que assistir seja o que fazemos quando não queremos nos envolver, não queremos passar boa parte da semana refletindo sobre a série diante de nós? E digamos que ver seja aquilo que fazemos quando a série nos revela, expõe, força goela abaixo algo que, se nos deixassem em paz, preferiríamos sequer ficar sabendo?

The Sopranos, The Wire, Mad Men seriam as séries para ver. Emily in Paris, Bridgerton e levezas similares seriam para assistir, e entre elas haveria muitas outras, misturando as duas experiências.

Se estamos de acordo, podemos dizer que I May Destroy You é a série para ver, se ver é o que você está pensando em fazer neste próximo final de semana, ou quando der um tempo e você estiver a fim de mais do que leveza, humor e superficialidades, mesmo que boas. A criadora, atriz e codiretora se chama Michaela Coel, e ela é simplesmente a melhor coisa surgida na Inglaterra desde Fleabag, igualmente para ver, mas sem tanta dor no estômago. Ela surgiu para os nossos olhos com a série Chewing Gum e se afirma com I May Destroy You, muito provavelmente a melhor série para quem quer ver algo surgido nestes tempos. Independentemente do que você sinta vendo, e eu senti várias coisas, e algumas delas bem difíceis de lidar, Michaela é brilhante.

Uma das coisas que chamam a atenção nestes tempos é a ascensão forte, intensa das mentes e vozes de mulheres e, também, de mulheres negras. Quem parou pra ver a posse de Joe Biden teve a chance de ver o surgimento de uma estrela instantânea, a inacreditável Amanda Gorman, poeta, 22 anos, negra, que simplesmente derrubou a internet e o mundo que a assistiu ler o seu poema The Hill We Climb vestindo, ora vejam, Prada.

Michaela é inglesa, de origem ganense, e nos mostra uma Londres sofisticada, moderna, descolada e brown. Os brancos estão lá, mas ao fundo, e sem voz. O tema de fundo é a violência, especialmente sexual, a que as mulheres continuam sendo expostas, de diferentes formas. Michaela escolhe a sua forma de mostrar, revelar, denunciar, e a forma é tão simples quanto clara. Não temos escolha a não ser ver.

Eu não sinto prazer algum em ver como o nosso mundo ainda é desigual, desequilibrado, injusto. Eu gostaria de assistir, em vez de ver. Mas Michaela acha a forma correta, mesmo que dura, de fazer com que a sua história se imponha ao nosso desejo de estar longe dali, assistindo à quinta temporada de Friends pela centésima vez.

A década começou com uma outra voz feminina criando a série Girls, também da HBO I May Destroy You é BBC/HBO. Girls tinha a virtude de ser, sim, consequência de uma visão feminina e muito jovem iniciando um protagonismo no mundo e na tevê. Mas era a voz de meninas brancas do Brooklyn, esbanjando white privilege por todos os lados e agarrando o gostosão do Adam Driver nas horas vagas. Girls era Seinfeld, mas no vazio, não no humor. Girls era pouco, e Michaela é muito.

Pra nossa sorte, mulheres assumem a direção e nos permitem ver o mundo que elas sempre viram e nós, homens, não. Ver, estimados leitores, é preciso.

Então, vejam.

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