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“The Expanse” e a sci-fi que te gruda no sofá

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“The Expanse” e a sci-fi que te gruda no sofá Foto: Amazon Prime Video/Divulgação

Eu quero confessar um dos meus milhares de defeitos. Nunca gostei de videolocadora. Em parte porque eu sempre esquecia de devolver e gastava bilhões em multas. Em parte porque eu detestava o jeito com que os filmes eram classificados, basicamente, por gente que nunca viu um filme na vida.

Onde você via “Ficção”, por exemplo, era batata que ia encontrar Guerra nas Estrelas, Blade Runner, Star Trek e assemelhados. Ou seja, na academia da videolocadora, ficção era, necessariamente, científica. Pra um escritor de ficção, a não-científica, essa era uma experiência muito, muito frustante, acreditem.

Ficção científica é uma categoria de ficção que surge com o avanço industrial, quando escritores como Júlio Verne começam a pensar nos futuros que a revolução tecnológica poderia trazer. A palavra “robô”, por exemplo, aparece em uma obra tcheca de 1920, quando surge a ideia de que o trabalho repetitivo seria melhor feito por máquinas do que por humanos. Essa categoria de ficção ganha força nos anos 1950, com a aceleração das transformações que a Segunda Guerra Mundial, a era atômica e a Guerra Fria trouxeram. No Brasil, não fazemos nada de ficção científica porque, como podem ver, a gente não tem uma relação muito sólida com a ciência, ou com o futuro.

Existem obras-primas nessa categoria, como Metropolis, de Fritz Lang, 2001 – Uma Odisseia Espacial, de Stanley Kubrick, o lindo e chatíssimo Solaris, de Andrei Tarkovski, Blade Runner, de Ridley Scott, entre muitas outras coisas muito boas. Nossa obsessão com o futuro só faz aumentar, em uma época que muda muito mais rapidamente do que conseguimos acompanhar. A ficção científica aponta possibilidades, as melhores e as piores, e entre elas andamos, pra frente, quando dá.

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Pois uma série chamada The Expanse é uma das melhores coisas que vocês podem ver quando o assunto é o futuro, a tecnologia e pra onde a humanidade se encaminha. Nestes tempos em que a humanidade envia nada menos do que três espaçonaves até Marte, na mesma semana, esse futuro se torna tão inevitável quanto próximo.

Em The Expanse, já fomos lá e ocupamos boa parte do sistema solar. A Terra segue sendo a mãe de todos, sendo uma Atenas, na comparação com o passado. Marte, árido e duro, é uma Esparta, militarista, que ganhou força, identidade e rivalidade, e guerras entre as duas potências se tornaram mais ou menos comuns. A terceira turma da série são os Belters, os feios, sujos e malvados, que ocupam o Belt, o cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, ricos em minérios e que abastecem a indústria dos planetas interiores. Os Belters são os sem-planeta, humanos que nunca pisam em um solo e cujos corpos não conseguem lidar com a gravidade, e curtem uma baita dor de cotovelo, tatuagens e péssimos cortes de cabelo.

A Terra é a humanidade clássica, tratando todos os demais como filhos desgarrados; Marte é o irmão que enriquece, mas segue sendo briguento, e os Belters são os desajeitados necessários, a classe trabalhadora que produz riqueza e se sente não convidada pro banquete. A partir desses três ramos distintos de uma mesma espécie, a nossa história avança, nos confrontos entre eles e, claro, no possível contato com algo que não é nenhum dos três, ou humano.

The Expanse é diferente da maioria do que se vê porque é boa, muito boa. Há outras coisas muito boas, a canadense Orphan Black, a inglesa distópica Black Mirror, o delicioso filme coreano Space Sweepers, com o primeiro robô trans já registrado, e The Mandalorian (não exatamente cientítfico, mas a melhor coisa surgida de Star Wars, que é uma solene besteira). The Expanse é um bom diferente, mais denso, mais rico, mais valendo o seu tempo.

Já são cinco temporadas e esteve na Netflix, agora na Amazon Prime Video. Juntamente com Maravilhosa Sra. Maisel – a melhor comédia, longe, que se pode assistir –, já justificam uma assinatura. The Expanse tem um texto tão bom que me lembra The Wire, personagens densos e fortes, e os mocinhos podem morrer, e alguns morrem mesmo, o que dá mais tensão pra história.

Veja.

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