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“Alvorada” olha o impeachment de Dilma da sala de casa

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“Alvorada” olha o impeachment de Dilma da sala de casa Vitrine Filmes/Divulgação

Dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi, o documentário Alvorada (2021) estreia nesta quinta-feira (27/5) simultaneamente nos cinemas e nas plataformas de streaming Now, Oi e Vivo Play. O filme narra em intimidade o dia a dia de um chefe de Estado em sua residência oficial: Dilma Rousseff no Palácio do Alvorada, durante o processo de impeachment que acabou por afastar a primeira mulher eleita presidente do Brasil. Coincidentemente, o longa entra em cartaz na semana em que Dilma foi internada na segunda-feira no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, depois de sentir um mal estar durante uma reunião online, mas recebendo alta já na terça-feira.

Exibido no 26º Festival de Cinema É Tudo Verdade, Alvorada foi filmado durante o período de julgamento do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, feito no calor da hora, em tom de urgência. Cientes de que outros filmes já estavam em produção sobre os fatos que se desenrolavam no Congresso e na sociedade civil – a maioria desses documentários dirigidos por mulheres –, as diretoras e a equipe de Alvorada optaram por abrir a câmera exclusivamente no espaço fechado do palácio residencial da presidente.

O filme mostra, além do melancólico epílogo de um período de governo popular, também – e paradoxalmente – o fortalecimento de uma mulher que, embora estivesse sendo alvo de todo tipo de ataque, não esmoreceu nem tomou os acontecimentos contra ela de forma pessoal, sempre mantendo uma visão lúcida da história e antecipando a onda de retrocesso que estava por vir no país.

Vitrine Filmes/Divulgação

Alvorada mostra a aproximação do impeachment através dos corredores do palácio desenhado por Oscar Niemeyer, acompanhando o vai e vem de reuniões políticas, o dia a dia da cozinha, a troca de guardas, os sussurros, os telefonemas sem fim, a tensão crescente da presidente, dos funcionários, assessores e ex-ministros, perplexos e quase sem ação. Durante esse período, conforme os dias vão passando, o filme revela aspectos inéditos da personalidade de Dilma, na medida em que retrata a presidente em conversas informais sobre política, história, literatura e, principalmente, sobre si mesma.

O documentário não se propõe a explicar detalhadamente todo o processo de impeachment, mas a observar o lado humano do desenrolar desse episódio histórico de dentro da residência oficial da sua personagem principal.

Anna Muylaert dirigiu filmes de ficção como Durval Discos (2002) e É Proibido Fumar (2009). Com Que Horas Ela Volta? (2015), recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Sundance e de público na mostra Panorama do Festival de Berlim em 2015. O longa foi lançado em 30 países, o que levou Anna a ser convidada a fazer parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Atualmente, está em preparação para filmar seu novo longa-metragem, chamado O Clube das Mulheres de Negócios

Já a produtora, diretora e roteirista Lô Politi estreou como realizadora com Jonas (2015), thriller dramático que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional do Rio. Atualmente produz e dirige, em parceria com Dandara Ferreira, o filme Divino Maravilhoso, sobre a cantora Gal Costa

Na entrevista exclusiva a seguir, Anna Muylaert e Lô Politi comentam sobre os bastidores de filmagem de Alvorada, outros documentários sobre o impeachment, a relação e a resiliência de Dilma Rousseff e o significado do filme delas no Brasil de hoje. “O filme é mais uma peça para reflexão sobre o caráter do golpe. E, para quem o apoiou, fica a pergunta: valeu a pena tirar a Dilma daquele jeito? Não teria sido melhor para todos que ela tivesse cumprido o mandato? Até quando a elite pretende manipular os rumos da nação?”, questiona Muylaert.

Vitrine Filmes/Divulgação

Vocês já disseram que imaginavam que registrariam um movimento de resistência popular e institucional em defesa do governo de Dilma Rousseff, mas os fatos não se desenrolaram dessa maneira. Como essa diferença entre expectativa prévia e realidade do material captado determinou o resultado final de Alvorada?

Anna Muylaert – Desde o início propusemos para Dilma esse recorte de filmar o golpe de dentro do Alvorada. No início das filmagens, no entanto, imaginávamos mais ação do que de fato acontecia. Isso gerou um descompasso inicial até percebermos que o filme era esse, um filme sobre uma espera, menos de ação e mais de construção dessa melancolia. Então eu diria que essa diferença não mudou o resultado do filme, apenas nos fez corrigir os rumos de nossas próprias expectativas.

Lô Politi – Já tínhamos a ideia, desde o princípio, de ter esses recorte de tempo e de espaço, e ter o palácio como coprotagonista do filme. Queríamos explorar os três andares de poder, os espaços amplos e vazios, a arquitetura, chegar perto dos funcionários e do staff mais próximo da presidente. Mas imaginávamos, ou desejávamos, que houvesse mais movimento, tanto no sentido da resistência quanto das negociações políticas, apoios etc. Quando percebemos que essa “ausência” e quebra de expectativa era o que estava dando o tom do filme, partimos para uma exploração mais profunda dessa atmosfera, que no final acabou determinando a própria narrativa do filme. 

Ainda que essa não tenha sido a intenção dos projetos, Alvorada termina por integrar uma espécie de trilogia sobre o impeachment de Dilma com os documentários Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e O Processo, de Maria Augusta Ramos. Como você situa seu filme em relação a esses outros dois títulos?

Muylaert – Creio que o filme da Petra é um filme sobre o grande plano geral da história da nossa democracia nas ultimas décadas, culminando com o golpe de 2016 e a prisão do Lula. O filme da Guta é um filme sobre o processo burocrático do impeachment da Dilma dentro do Senado. E o Alvorada se concentra mais na ideia de poder – que é o espaço palácio – e na personagem da Dilma. Portanto, acho que os filmes se complementam.

Como vocês dividiram o trabalho de direção? Como era o dia a dia de filmagem na intimidade do palácio?

Politi – Eu fiquei o tempo todo no palácio, filmando todos os dias, Anna ia de vez em quando e conversávamos sempre sobre o rumo dos nosso trabalho. No período da montagem isso se inverteu e Anna ficou direto acompanhando os montadores e eu ia de vez em quando, mas discutíamos todos os aspectos juntas, o tempo todo, da concepção, filmagem, montagem e finalização. O dia a dia foi um pouco tenso, estávamos com duas câmeras dentro da casa de uma presidente da República, todos os dias, durante meses, num momento em que ela passava por grande tensão. O ar estava pesado, lá dentro e no Brasil inteiro. Então tinha dias muito difíceis, de muita angústia, outros mais mornos, quando não acontecia nada e nós aproveitávamos pra filmar a rotina do palácio – nesses dias filmamos muito do que dá esse tom melancólico do filme.

Outro ponto em comum entre esses três documentários é que todos foram dirigidos por mulheres. O que isso significa levando em conta que se trata do registro da deposição da primeira mulher a ocupar a presidência no Brasil? No caso específico de Alvorada, o fato de as realizadoras serem mulheres contribuiu para a construção da intimidade com Dilma?

Muylaert – Acho que, naquele momento, quando Dilma estava vivendo sob muitos ataques violentos, tanto da classe politica como da imprensa e da sociedade civil, ficou claro para muitas mulheres o caráter misógino do golpe, portanto acho que foi mais urgente para as mulheres saírem para campo. No caso do Alvorada, por termos tido o acesso privilegiado à residência oficial da presidente, essa intimidade apareceu mais.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em Alvorada é a fortaleza, a serenidade e a lucidez da presidente, mesmo diante de uma situação adversa que já acenava com um desfecho negativo para ela. Comente a respeito da atitude de Dilma diante do iminente colapso, por favor.

Muylaert – Acho que esse é um dos fatores mais importantes do filme.  Temos que lembrar que a cobertura de imprensa sobre a Dilma desde o primeiro mandato, tendia à misoginia – além de críticas ao seu vestuário, havia uma tendência a taxá-la de histérica. Mas, quando abrimos a câmera ali, naquele momento tão difícil da história dela e do país, a verdade era outra. O que vimos foi uma mulher em equilíbrio, tendo uma visão clara e ampla do que estava acontecendo e com a extraordinária capacidade de não levar todo aquele movimento contra ela para o lado pessoal.  A visão dela sempre foi sociológica e política, e não pessoal, por isso acredito que ela conseguiu cruzar aquele fogo, como diz ela no filme, lutando – mas com tranquilidade.

Politi – É isso, acho que desde o começo ela e todos nós já antecipávamos o desfecho negativo. Mas o impressionante é que aos poucos todos em volta foram caindo, desanimando, entristecendo, menos ela. Ela se manteve no eixo o tempo todo, ela era a própria resistência. Essa talvez tenha sido pra mim a maior quebra de expectativa. Esperávamos ver ali um bunker movimentado coordenando a resistência ao golpe – mas a resistência estava dentro dela. No dia seguinte ao veredito, com aquele clima tristíssimo em todos os cantos do palácio, ela saiu cedo para andar de bicicleta. Firme, ereta.

Vitrine Filmes/Divulgação

Em alguns momentos de Alvorada, fica evidente o desconforto de Dilma com a presença da equipe de filmagem, inclusive com a presidente pedindo para desligar a câmera. Vocês chegaram a considerar a hipótese de o projeto ter de ser interrompido?

Politi – Sim, eu achava que ela poderia simplesmente mandar a gente embora. Ela estaria no seu direito, ela estava na casa dela e nós estávamos incomodando. Várias vezes eu achei que ela faria isso. Mas não. Ela havia se comprometido e manteve até o fim. Mesmo quando ela não queria que estivéssemos perto dela, ela nunca impediu que filmássemos o que quiséssemos dentro do palácio. E nós filmávamos o tempo todo, sem que ela soubesse exatamente onde a gente estava e nem o que estávamos filmando. Achei isso muito corajoso.

A opção pelo documentário de observação em Alvorada é interrompida apenas por uma longa conversa de vocês com Dilma. Esse encontro tinha como objetivo repactuar os termos da colaboração entre equipe de filmagem e personagem?

Politi – Essa conversa foi exatamente para repactuarmos. Foi uma espécie de DR entre nós e ela, porque estava muito difícil e tenso pra ela e pra nós. Então pedimos a conversa, ela topou e, como acontece muitas vezes com ela, a conversa tomou rumos mais profundos, mais filosóficos. Ajudou o fato de ter sido tarde, depois de um dia difícil, ela estava cansada e foi abrindo a guarda, refletindo sobre temas que parecem alheios ao momento, mas que falam exatamente sobre como ela estava enfrentando aquele golpe terrivelmente violento em relação a ela.

A cena final, mostrando um grupo de mulheres da limpeza do Palácio da Alvorada posando para uma foto na mesa desocupada da já deposta presidente Dilma, é eloquente e rica em interpretações. Para você, o que ela significa especialmente?

Muylaert – Creio que o Alvorada no fim das contas é um ensaio sobre poder. O espaço palácio, com suas centenas de funcionários e com os Dragões da Independência cumprindo suas caminhadas protocolares, no fundo simbolizam o poder do presidente da República, seja ele ou ela quem for. E a Presidência da República, no fim das contas, é uma cadeira, uma cadeira e uma caneta. Portanto, se o filme é um filme sobre o poder – que os golpistas tanto disputavam naquele momento –, natural ele acabar com a imagem de novas mulheres sentando na cadeira, se imaginando donas da cadeira, afinal a cadeira é o símbolo do cargo, e a cadeira vazia é uma brecha.

Politi – Acho que toda a sequência final significa muito, tanto como digestão poética e melancólica de um final que, na verdade, é trágico, como de metáfora pra um país que elegeu a primeira mulher presidente da República e não aguentou o tranco. Ela foi embora, outro presidente vai entrar, não importa se bom ou ruim, o palácio e os funcionários continuarão lá, na sua rotina de todos os dias. Mas aquelas mulheres da limpeza, assim como todas nós mulheres, sentaram um pouquinho naquela cadeira de presidente, junto com Dilma. 

Desde a rodagem de Alvorada, muitas mudanças aconteceram no país nos âmbitos político e institucional. O que você acha que o filme diz a respeito do Brasil de hoje? 

Muylaert – Creio que a violência que presenciamos no dia 17 de abril na Câmara Federal, dia da votação do impeachment pelos deputados federais, foi o trailer do que estamos vivendo agora. Portanto, ver o filme agora nos faz compreender melhor o conteúdo hipócrita e machista daquele golpe, cujas consequências foram devastadoras e continuam sendo. Acho que, visto hoje, o filme é mais uma peça para reflexão sobre o caráter do golpe. E, para quem o apoiou, fica a pergunta: valeu a pena tirar a Dilma daquele jeito? Não teria sido melhor para todos que ela tivesse cumprido o mandato? Até quando a elite pretende manipular os rumos da nação?

Vitrine Filmes/Divulgação

Alvorada: * * * 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Alvorada:

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