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“Casa de Antiguidades” conjura nossos fantasmas

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“Casa de Antiguidades” conjura nossos fantasmas Pandora Filmes/Divulgação

Protagonizado pelo grande ator Antonio Pitanga, um dos rostos mais característicos do cinema novo, Casa de Antiguidades (2020) entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (21/7). O longa foi o único latino a receber o selo da seleção oficial do Festival de Cannes de 2020 – que, mesmo não ocorrendo por conta da pandemia, divulgou a lista das obras que estariam em competição oficial.

Premiado em Cannes 2016 pelo curta A Moça que Dançou com o Diabo, João Paulo Miranda Maria estreia na direção de longas com Casa de Antiguidades, abordando temas fundamentais no país como o racismo sistêmico, o colonialismo, a exploração econômica e a crise de identidade nacional.

No filme, Cristovam (Pitanga) é um ex-vaqueiro do interior de Goiás que trabalha em uma fábrica de laticínios no Sul de propriedade de empresários de origem germânica que pregam a separação da região do restante do Brasil. O contraste cultural e étnico da nova morada provoca no trabalhador um processo de isolamento e perda de referências.

Pandora Filmes/Divulgação

Na casa abandonada em que se instala nessa comunidade povoada por descendentes de alemães, Cristovam vai descobrindo aos poucos objetos que aparecem sem explicação e remetem a suas origens e ancestralidades. Ao mesmo tempo, a precariedade material e a hostilidade dos locais vão encurralando cada vez mais o protagonista, levando-o a ações com consequências desastrosas.

Casa de Antiguidades teve sua estreia mundial no Festival de Toronto de 2020 e recebeu distinções como o prêmio FIPRESCI da critica internacional no Festival de Toulouse. Astro de clássicos do cinema brasileiro como Bahia de Todos os Santos (1960), Barravento (1962) e Os Fuzis (1964), Antonio Pitanga foi premiado por seu papel no Festival de Colônia, na Alemanha, e no Festival de Lima, no Peru. O veterano ator vê Cristovam como “um grande presente”: “Cristovam é um homem do Brasil, um autêntico trabalhador brasileiro, e ter sido convidado por João Paulo Miranda Maria para interpretá-lo me deu uma alegria imensurável, no alto dos meus 80 anos, eu não poderia estar mais feliz”.

Com poucos diálogos, a história de Cristovam, um homem negro indígena do Brasil rural, foi construída de modo que o público tenha também uma experiência sensorial. “Quero que o público sinta o filme, e sinta o que o que Cristovam vive durante o filme e mostrar o que eles não estão vendo. O que teoricamente é invisível, pode ser sentido”, argumenta o diretor.

Casa de Antiguidades alinha-se a uma vertente da produção cinematográfica brasileira contemporânea que flerta com gêneros como suspense, fantasia, horror e ficção científica para colocar em cena questões nacionais prementes e problemáticas como reparação histórica, exclusão social, crise ambiental e conservadorismo institucional. Flertando com o mistério e o sobrenatural, o filme de João Paulo Miranda Maria dialoga com títulos recentes como Trabalhar Cansa (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas, O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, Açúcar (2017), de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, O Animal Cordial (2017), de Gabriela Amaral, Azougue Nazaré (2018), de Tiago Melo, e Todos os Mortos (2020), de Marco Dutra e Caetano Gotardo, entre outros.

Pandora Filmes/Divulgação

Casa de Antiguidades: * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Casa de Antiguidades:

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