Artigos | Cinema

“Crimes do Futuro” especula sobre o pós-humano

Change Size Text
“Crimes do Futuro” especula sobre o pós-humano O2 Play/Divulgação

As transformações físicas e simbólicas do corpo humano são uma obsessão recorrente no cinema de David Cronenberg. Em Crimes do Futuro (2021), novo filme do diretor de títulos perturbadores como Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983), Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) e Crash: Estranhos Prazeres (1996) divaga a partir de metáforas e especulações sobre o que pode ser a existência para além do humano. O drama de ficção científica entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (14/7) e na plataforma de streaming MUBI no dia 29 de julho.

Escrito e dirigido pelo cineasta canadense, Crimes do Futuro estreou mundialmente na competição principal do Festival de Cannes deste ano. O filme marca o retorno de Cronenberg ao longa-metragem, depois de quase 10 anos de Mapa para as Estrelas (2014).

Crimes do Futuro é situado em época e local indefinidos, em que a vulgarização da biotecnologia de ponta contrasta com cenários urbanos degradados e ambientes internos decadentes. No enredo, à medida que a espécie humana se adapta a um mundo sintético, o corpo sofre novas transformações e mutações.

O2 Play/Divulgação

Acompanhado por sua parceira Caprice (Léa Seydoux), o artista performático Saul Tenser (Viggo Mortensen) exibe as metamorfoses interna do seu corpo em ações que incluem cirurgias realizadas em galerias de arte, nas quais esses chamados neo-órgãos são extirpados. Enquanto alguns exploram o potencial ilimitado do trans-humanismo, em que a dor física foi praticamente abolida, outros tentam monitorá-lo – como a dupla de burocratas Timlin (Kristen Stewart) e Wippet (Don McKellar) e um policial (Welket Bungué). Ao mesmo tempo, um grupo misterioso tenta usar a notoriedade de Saul para jogar luz sobre a próxima fase da evolução humana em uma performance que seria a mais chocante da carreira do artista.

O roteiro de Crimes do Futuro foi escrito há cerca de 20 anos, enquanto Cronenberg produzia Crash: Estranhos Prazeres. Se naquele filme baseado em um romance do escritor J. G. Ballard as transmutações corporais estavam relacionadas com acidentes de automóvel que ativavam conexões entre prazer, beleza e máquinas, em sua nova produção o realizador especula a respeito do fascínio pelas possibilidades de reinvenção das sensações e percepções humanas na esteira dos avanços acelerados da tecnologia – “Cirurgia é o novo sexo”, sussurra Timlin no ouvido de Saul depois de uma de suas operações-espetáculo.

O2 Play/Divulgação

Crimes do Futuro provoca até o ponto quase do ultraje. O esgotamento do humano do ponto de vista biológico diante da evolução do mundo sintético ecoa correspondência no filme com um declínio também do humanismo: as manipulações e intervenções cirúrgicas nos corpos confrontam tanto limites éticos quanto estéticos. Até que ponto é aceitável dispor sem limites do corpo humano, seja o próprio ou de outra pessoa, a fim de estimular o prazer sensorial ou estético? A alteração do metabolismo e da anatomia significa necessariamente uma evolução da espécie? O que seria o pós-humano?

O filme mais pergunta do que responde. As questões que suscita, no entanto, são indiscutivelmente intrigantes – mesmo quando parecem ser distantes ou obscuras demais. Provocador, estranho, lacunar, irregular, Crimes do Futuro prende a atenção e desperta a curiosidade – muitas vezes mórbida.

Mestre em criar imagens potentes e perturbadoras em seus filmes, David Cronenberg sintetiza a mistura de deslumbramento e espanto de sua nova obra preenchendo a tela com o rosto de Saul extasiado pelo vislumbre de uma nova etapa do humano. Beatificação ou danação?

O2 Play/Divulgação

Crimes do Futuro: * * * * 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Crimes do Futuro:

RELACIONADAS
PUBLICIDADE