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“Ilusões Perdidas” lembra as fake news balzaquianas

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“Ilusões Perdidas” lembra as fake news balzaquianas California Filmes/Divulgação

Um dos maiores clássicos da literatura universal, o romance Ilusões Perdidas ganhou uma nova adaptação cinematográfica arrebatadora, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. Dirigido pelo francês Xavier Giannoli, realizador de títulos como Marguerite (2015) e A Aparição (2018), o filme baseado no texto de Honoré de Balzac (1799 – 1850) fez sua estreia no Festival de Veneza e foi o grande vencedor do prêmio César deste ano, levando seis estatuetas – entre elas as de melhor filme, ator revelação (Benjamin Voisin), coadjuvante (Vincent Lacoste) e roteiro adaptado.

Publicado originalmente em 1837, o romance de Balzac é mais atual do que nunca ao abordar a falta de escrúpulos da imprensa francesa da época, que não hesitava em publicar notícias falsas – que hoje são chamadas de fake news – mediante um bom pagamento. A perda da ingenuidade de um jovem escritor sonhador que se muda do interior da França para Paris serve de pretexto também para o autor retratar a fogueira de vaidades que consumia o meio literário e teatral daquele tempo e a hipocrisia das regras e vícios da alta sociedade.

California Filmes/Divulgação

Em Ilusões Perdidas (2021), Lucien de Rubempré (Voisin) é um poeta provinciano que se envolve com um nobre local casada, Louise de Bargeton (Cécile de France), que se encanta com os poemas do rapaz. Levado à capital pela amante, que o apresenta a pessoas influentes como a marquesa d’Espard (Jeanne Balibar), Lucien acaba escrevendo artigos e resenhas de encomenda para jornais escandalosos a fim de adquirir reputação e enfim lançar-se em uma carreira literária.

Enquanto vai ganhando fama no meio das letras, convivendo com figuras como o poderoso editor Dauriat (Gérard Depardieu), o jornalista venal Etienne Lousteau (Lacoste) e o jovem escritor promissor Nathan d’Anastazio (interpretado pelo ótimo ator e cineasta canadense Xavier Dolan), o protagonista conquistará glória, dinheiro, mulheres e poder – até ser consumido pela própria ganância e pelo implacável julgamento de um mundo ao qual na verdade nunca pertenceu.

California Filmes/Divulgação

O diretor Xavier Giannoli assina o roteiro com Jacques Fieschi, revelando que começou a juntar material sobre o livro quando estudava cinema na Sorbonne: “Comecei então a acumular notas, referências visuais, estudos de crítica, porque os críticos de todos os lados queriam recuperar Balzac. E até quando me lembro, sempre convivi com a ideia de um dia fazer uma adaptação cinematográfica do romance”.

O cineasta explica que a ideia de Ilusões Perdidas era também de homenagear o “esplendor francês”, seu espírito, linguagem, estética e espaços: “A equipe técnica se concentrou para restaurar a sensação do tempo o mais preciso e sensual possível. Gostei de mergulhar nesse mundo da Paris do século 19, descobrindo esse fantástico teatro esquecido do Château de Compiègne, por exemplo, que é central para o final do filme. Com suas perspectivas, parece que foi desenhado por Kubrick”.

Para preparar o protagonista Benjamin Voisin – jovem e talentoso ator de filmes como Verão de 85 (2020) e O Baile das Loucas (2021) –, foram feitos diversos ensaios e outras atividades que contribuíssem para ele entrar no clima de época e no personagem. “Fizemos longos ensaios já com o figurino, nos quais Benjamin recitava poemas, ria, chorava. Ele tinha uma inocência sem sentimentalismo, uma sensualidade sem vulgaridade, uma dicção de época sem esforço. Uma evidência de cinema onde o menor gesto tem uma graça sem cálculo. Ele era Rubempré, um Rubempré moderno. Tudo estava encarnado”, elogia Giannoli.

California Filmes/Divulgação

A transposição perfeita para a tela do minucioso retrato social pintado com palavras precisas por Balzac é o grande trunfo do filme. Impressiona como as descrições expondo os bastidores das promíscuas relações entre jornalistas, empresários, aristocratas, políticos e artistas desnudam uma comédia humana que podemos reconhecer na atualidade – incluindo a maneira como a informação e a verdade eram distorcidas e manipuladas, com uma lógica e objetivos idênticos aos das redes sociais de hoje.

Merecem destaque também a excelência e a homogeneidade das atuações do numeroso elenco, capaz de emprestar vida e complexidade à plêiade de personagens que orbita em torno de Lucien Rubempré em sua trajetória de ascensão e queda.

California Filmes/Divulgação

Ilusões Perdidas: * * * * * 

COTAÇÕES

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Assista ao trailer de Ilusões Perdidas:

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