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“Lightyear” não é “Toy Story”

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“Lightyear” não é “Toy Story” Disney/Divulgação

Animação em cartaz nos cinemas brasileiros, Lightyear (2022) decepcionou nas bilheterias na América do Norte, arrecadando no final de semana de estreia pouco mais de US$ 50 milhões – o filme custou cerca de US$ 200 milhões. Por aqui, a performance do aguardado spin off da franquia Toy Story voou mais alto proporcionalmente, faturando R$ 12 milhões neste primeiro fim de semana e desbancando Top Gun: Maverick do atual topo nacional de bilheterias. O fraco desempenho comercial geral do longa é reflexo da expectativa frustrada em relação a uma produção da Pixar, conhecida pelo alto nível de seus filmes e pelo envolvimento do público com suas histórias – Lightyear está distante literalmente anos-luz de Toy Story.

Esse afastamento do universo criado em torno dos brinquedos animados nos quatro filmes da série Toy Story é anunciado logo no início de Lightyear pelos letreiros informando que o filme a ser exibido teria sido a origem do herói astronauta, visto no cinema pelo menino Andy em 1995 – ano de lançamento do antológico primeiro título da franquia. A história é uma aventura de ação de ficção científica em que Buzz Lightyear – dublado em inglês no original pelo ator Chris Evans e na versão brasileira pelo apresentador Marcos Mion – acaba acidentalmente provocando a queda de sua gigantesca nave espacial, obrigando-o e a toda a grande tripulação a permanecer em um planeta hostil a 4,2 milhões de anos-luz da Terra.

Atormentado pela culpa, o patrulheiro espacial tenta encontrar um caminho de volta para casa através do espaço e do tempo, em uma sucessão de testes pilotando uma nave a fim de atingir o hiperespaço, sempre sem sucesso. Cada voo malogrado leva minutos para Buzz – porém, o tempo passa diferentemente para quem não está flertando com as leis da física, e o piloto espanta-se ao notar que a cada aterrissagem seus amigos e colegas como a comandante Alisha Hawthorne envelhecem alguns anos.

Depois de finalmente atingir o hiperespaço em uma de suas tentativas, Buzz é surpreendido na volta por um novo cenário: o planeta está sendo atacado por enormes robôs vindos de uma nave que paira ameaçadoramente sobre sua estação. Ao lado de um simpático e esperto gato robô chamado Sox e de um grupo de recrutas despreparados e sem noção liderado pela neta de Alisha, o protagonista vai enfrentar o misterioso líder alienígena Zurg e seus misteriosos planos.

Disney/Divulgação

Lightyear é uma animação tecnicamente primorosa, utilizando recursos de computação gráfica sofisticados. A narrativa tem ritmo, alternando com equilíbrio ação, emoção e humor – característica comum aos filmes da Pixar. Falta ao filme, no entanto, o encanto e a empatia dos mais memoráveis títulos da produtora – como os dois primeiros Toy Story, Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003), Os Incríveis (2004), WALL-E (2008) e Divertida Mente (2015).

À exceção do ótimo gato robótico Sox, falta graça aos personagens de Lightyear – inclusive ao próprio Buzz: apesar de seguir sendo corajoso e obstinado, o astronauta tem muito pouco em seu filme próprio daquela ingenuidade quase tola que fazia parte do seu charme na série Toy Story. Não ajuda nada também a abordagem de multiversos e viagens no tempo que a trama apresenta confusamente no terço final do filme – um expediente, aliás, em geral muito mal explorado pelo audiovisual contemporâneo, que costuma se enrolar do ponto de vista narrativo quando se embrenha nesse cipoal de teorias e especulações científicas.

Um dos acertos de Lightyear é enfatizar no enredo os conflitos interiores do herói, que precisa superar a culpa, a frustração, a teimosia e a autossuficiência para aprender a trabalhar em equipe e enfrentar os desafios da vida. Por fim, merece aplauso ainda o destaque na trama ao relacionamento lésbico da comandante Alisha, que se casa e tem um filho com uma mulher – a cena do beijo da personagem na companheira, por sinal, motivou 14 países do Oriente Médio e da Ásia a proibirem o filme.

Disney/Divulgação

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Lightyear: * * * 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Lightyear:

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