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Marco Ricca está à beira do abismo em “Lamento”

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Marco Ricca está à beira do abismo em “Lamento” Nick Maftum/Divulgação

Estreia dos diretores Diego Lopes e Claudio Bitencourt no longa-metragem, Lamento (2019) entra em cartaz nesta quinta-feira (26/8) nos cinemas brasileiro. Estrelado por Marco Ricca e Thaila Ayala, o filme já foi exibido nos festivais de Brasília, Nashville, Cairo e Burbank.

Em Lamento, Elder (Ricca) administra o hotel herdado de seu pai. Em suas mãos, o hotel passou de um resort de luxo para um hotel à beira da falência. O protagonista é o epítome da pessoa cuja vida foi fácil, mas que no auge dos 50 anos enfrenta as consequências de uma vida excessiva, com um vício errático em álcool e cocaína. O fracasso de sua vida profissional reflete em seu casamento com Rosa (Veronica Rodrigues), que está em ruínas e sem perspectivas de melhoria.

No limite do equilíbrio emocional, Elder coloca tudo em risco ao enfrentar seus demônios e as consequências de suas decisões quando um casal instala-se em um dos quartos do hotel e se recusar a sair depois de uma noite de brigas e quebradeiras.

Nick Maftum/Divulgação

“O Elder está em um momento delicado da vida, com vários problemas financeiros e emocionais e ele tenta enfrentá-los, dentro das impossibilidades que ele tem como ser humano, meio frágil, meio falho. Você assiste à trajetória desse personagem indo por um movimento totalmente vertiginoso em relação à vida dele. Você nunca tem muita certeza de se o que ele está vivendo é real ou está num mundo próprio dele. É um cara que está em constante abstinência, com todas as dores que isso traz, enfrentando uma separação e enfrentando também a perda de algo que é importantíssimo para ele, que é o hotel que herdou do pai e do qual ele não conseguiu fazer algo rentável”, explica Marco Ricca.

Figura central dos devaneios de Elder, a garota de programa Letícia (Thaila Ayala) aparece na vida do protagonista e logo some, misteriosamente. “A personagem trata de uma garota de programa com uma personalidade enigmática, nada decifrável, que desaparece de forma bem misteriosa. Ela é muito intensa, com uma personalidade de muitas camadas, de leitura difícil. Uma hora ela é uma coisa, outra hora ela é outra. Essa é a grande curiosidade sobre ela é o que me levou a me apaixonar pela personagem. Foi um trabalho muito desafiador, tudo muito denso, tenso e intenso”, diz Thaila sobre sua personagem.

Um ponto importante em Lamento é o hotel: mais do que uma locação, o edifício é quase como um personagem dentro da história. A produção do filme, rodado inteiramente em Curitiba, utilizou um hotel em operação e que possuía um andar inteiro com a decoração antiga original. “A nossa direção de arte modificou completamente o térreo e o primeiro andar do hotel para adequá-lo ao que queríamos”, conta o diretor Diego Lopes.

Na entrevista a seguir, o realizador conta como foi dividir a direção com Claudio Bitencourt, elogia as colaborações do ator Marco Ricca e ilustra o fio da navalha no qual se equilibra o protagonista Elder: “Ele aparenta um equilíbrio enquanto internamente é uma bomba relógio que acaba abraçando os piores caminhos para enfrentar os seus problemas”.

Nick Maftum/Divulgação

Primeiro longa-metragem de ambos, Lamento se filia à tradição do suspense policial. O que atrai vocês nesse gênero?

Inicialmente o foco estava em compreender o arco do personagem principal, Elder. Conforme o roteiro foi evoluindo percebemos que estávamos com uma narrativa muito inspirada no gênero noir, gostamos desse caminho e abraçamos a ideia, adicionando também elementos de thriller, porém nunca deixando de ter o drama como estrutura principal.

Como vocês dividiam as funções de direção no set de filmagem?

Todo o processo sempre foi muito discutido e definido por nós dois. Então, quando chegamos no set, tínhamos muita unidade na direção por saber aonde queríamos chegar. Mesmo assim, existia uma divisão no diálogo. Eu foco muito na direção de atores enquanto o Claudio tem um visão focada no estético, como enquadramento e fotografia. Mas reforço que o filme como um todo é uma visão sinérgica dos dois. 

Apesar de enfrentar uma crise profissional e pessoal, Elder aparece no início do filme como um homem equilibrado e resiliente. Logo, porém, toda a instabilidade do personagem vem à tona e começa a empurrá-lo para um abismo. Como vocês construíram dramaticamente o protagonista?

Todos nós temos máscaras que de certa forma não permitem transparecer, na grande maioria das vezes, os reais conflitos internos que temos, os nossos demônios. Elder não é diferente, ele aparenta um equilíbrio enquanto internamente é uma bomba relógio que acaba abraçando os piores caminhos para enfrentar os seus problemas.

Nick Maftum/Divulgação

A trama é reticente quanto ao passado e às motivações dos personagens, além de, no caso de Elder, não deixar claro às vezes se o que vemos pelos olhos dele realmente aconteceu ou não passa de fantasia do protagonista. Em que medida essas lacunas são importantes para o desenvolvimento e o mistério da história?

Propositalmente optamos por permitir essa confusão, transformando o espectador em um ser ativo na confusão que o personagem está vivendo. Isso desenvolve um incômodo em quem vê, que está alinhado com o que Elder vivencia, deixando tudo mais visceral. 

As cenas em que Marco Ricca contracena com Thaila Ayala e Veronica Rodrigues são sempre caracterizadas por uma permanente tensão, ainda que de naturezas distintas: a primeira desperta o desejo em Elder, enquanto a segunda evoca a melancolia e o ressentimento do personagem. Como foi dirigir Ricca nesses dois registros diferentes ao lado dessas atrizes? 

Foi um enorme prazer ter o Marco no projeto, além de ser um dos grandes atores brasileiros da nossa atualidade, é uma pessoa incrível. Isso não fez com que o processo fosse mais fácil, o personagem Elder exigiu uma entrega intensa, e o Marco desafiava a todo momento. Importante ressaltar aqui que esse desafio era muito positivo, pois ao indagar, questionar, elevava a construção do personagem, e somos extremamente grato por ter tido a honra de dirigi-lo. Na verdade, foi uma honra o elenco como um todo que tivemos no filme. Grandes atores, sem exceção.

Falando em abismo, a sequência em que Elder caminha equilibrando-se no parapeito do terraço do hotel é angustiantemente realista. Como essas cenas foram filmadas?

O filme conta com diversas intervenções de pós-produção. Essa cena foi a mais elaborada do filme. Todo o hotel foi recriado em ambiente digital 3D realístico para fazer a composição da cena, que foi filmada em um terraço em Curitiba. O resultado é o que vemos na tela, porém todo o processo sempre foi feito com toda a segurança necessária.

Nick Maftum/Divulgação

Quais são seus próximos projetos?

Já estamos em busca do financiamento do nosso próximo longa chamado, Kintsugi. Dessa vez decidimos desenvolver um thriller que abraça o gênero do começo ao fim. Estamos muito animados com nosso próximo projeto, porém muito felizes com o que conquistamos com Lamento.

Lamento: * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Lamento:

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