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Os desastres da guerra em tempos de pós-verdade

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Os desastres da guerra em tempos de pós-verdade Reserva Imovision/Divulgação

Alternando ficção e documentário em sua carreira, Sergei Loznitsa, premiado cineasta nascido em Belarus e criado na Ucrânia, escava o passado da União Soviética e seus reflexos no presente. Não é diferente em Donbass (2019), seu quarto longa-metragem de ficção, que pinta um retrato de caos, desinformação, corrupção e esgarçamento do tecido social na região no leste da Ucrânia, que vive um conflito desde 2014 entre forças governamentais apoiadas por milícias, muitas delas fascistas, e movimentos separatistas atrelados à Rússia – que anexou a Crimeia, região ao sul do país, na mesma época. O filme, que entrou recentemente no catálogo da plataforma de streaming Reserva Imovision, deu a Loznitsa o prêmio de direção da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes.

Donbass é dividido em 13 episódios sem relação necessariamente entre si, que juntos formam um conjunto cacofônico e desolador de uma circunstância específica, mas que guarda semelhanças em muitos aspectos com as realidades vividas em diversos locais do mundo atualmente – inclusive e em particular no Brasil. Cada segmento do filme leva ao próximo por meio de um personagem em particular, que entrega a narrativa a outra pessoa.

Assim, por exemplo, o trecho que acompanha um administrador de hospital corrupto é seguido por um episódio no qual esse funcionário é parado em um posto militar de controle, onde um jornalista alemão está sendo questionado sobre seu passaporte, e cuja história curta é então narrada – e assim sucessivamente. Nenhum personagem, entretanto, aparece em mais de duas partes. Cada episódio é baseado em um incidente documentado ocorrido na República Popular de Donetsk – um autodeclarado estado pró-Rússia na região de Donbass – entre 2014 e 2015, com vários deles inspirados em vídeos amadores postados no YouTube.

Reserva Imovision/Divulgação

Já tendo abordado as origens da Guerra no Donbass no documentário em Maidan (2014), Loznitsa não se preocupa muito em contextualizar o conflito nessa ficção – o que pode provocar alguma confusão em quem não esteja familiarizado com os fatos. O fundo histórico do filme é que depois de o presidente pró-russo Viktor Yanukovych ter sido deposto em novembro de 2013, uma série de protestos antirrevolucionários irromperam no leste e no sul da Ucrânia, especialmente na região de Donbass, que logo se transformaram em conflito aberto entre as forças separatistas financiadas pela Rússia – e muitas vezes com pessoal russo – e as tropas ucranianas leais ao governo.

A escassez de informações é uma estratégia recorrente do cinema de Loznitsa, utilizada pelo realizador em documentários aclamados como The Trial (2018), que mostra o julgamento de um grupo de supostos contrarrevolucionários na URSS em 1930, e o magnífico State Funeral (2019), preciosa compilação de imagens da comoção nacional causada pelo velório e enterro do ditador soviético Josef Stalin. Mais do que propor uma investigação histórica que esclareça de alguma maneira os fatos, esses filmes querem chamar atenção para o poder de persuasão da propaganda e das narrativas baseadas em conceitos manipuláveis como causa, pátria, nação.

Donbass testemunha a atualidade da estratégia de controle da opinião pública pela informação: em uma era de notícias falsas e fatos alternativos, em que as fontes duvidosas nas redes sociais têm tanto alcance e crédito quanto a imprensa responsável, a informação é arma extremamente letal na guerra moderna. Corrupção endêmica, discriminação sancionada pelo Estado, burocracia bajuladora, violência física institucionalizada e manipulação desavergonhada da mídia são os ingredientes do amargo caldo social e cultural em que estão imersos os personagens do filme.

Nessa sátira de humor cruel, não há heróis nem inocentes: ninguém escapa moralmente incólume de uma sociedade assim corroída em seus princípios humanitários e comunitários – nem mesmo a população civil, sempre a principal vítima dos desastres da guerra. Pela lente implacável de Loznitsa, o conflito parece mais com uma briga de gangues rapinando um butim do que uma guerra civil insuflado por algum ideal.

Reserva Imovision/Divulgação

Loznitsa em geral filma seus episódios em longos planos-sequência, o que imprime em Donbass a verossimilhança do cinema documentário e da reportagem jornalística. A tensão em cena é permanente: a qualquer momento tudo pode ir pelos ares por conta de um súbito bombardeio – o que eventualmente acaba acontecendo no filme.

Dois momentos destacam-se pela capacidade de sintetizar o estado de anomia em todos os níveis. Em um dos capítulos, um empresário é avisado que seu jipe roubado foi encontrado por militares; porém, quando vai recuperar o veículo, Semyon (Alexander Zamuraev) descobre que ele foi confiscado pelos combatentes, que ainda lhe aplicam uma multa exorbitante e o prendem em uma sala cheia de outros homens – todos falando em seus celulares tentando levantar fundos para pagar as multas com as quais também foram achacados. Já em outro, mais brutal, um soldado capturado (Valeriy Antonyuk) é acusado de fazer parte de um esquadrão de extermínio ucraniano, amarrado a um poste, ridicularizado e espancado por uma multidão de civis.

Donbass começa e termina no mesmo set – que lembra o filme hollywoodiano Mera Coincidência (1997), de Barry Levinson: um trailer em que um grupo de pessoas está sendo maquiada para aparecer em uma falsa reportagem de televisão, fingindo serem moradores em estado de choque diante de um cenário montado como se tivesse acabado de acontecer um ataque com bombas.

Retrato impiedoso de um mundo dominado pela pós-verdade, no qual o enredo pode ser qualquer absurdo que os poderosos desejam que seja e a ausência de princípios e a barbárie estão naturalizados, Donbass choca também porque poderia ser ambientado não apenas nas geladas estepes da fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas também por aqui nestes tristes trópicos brasileiros.

Reserva Imovision/Divulgação

Donbass: * * * * * 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Donbass:

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