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“Thor: Amor e Trovão” parece comédia romântica

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“Thor: Amor e Trovão” parece comédia romântica Disney/Divulgação

A quarta aventura solo do deus do trovão só faz barulho: em seu novo filme, o super-herói louro da Marvel oscila entre o metido a engraçadinho e o galã romântico – fracassando retumbantemente em ambos os registros. Em cartaz a partir desta quinta-feira (7/7) nos cinemas brasileiros, Thor: Amor e Trovão (2022) traz novamente Chris Hemsworth como o viking espacial fortão e tem direção de Taika Waititi – que também assina o título anterior da franquia, Thor: Ragnarok (2017).

Thor: Amor e Trovão é o 29º filme do chamado Universo Cinematográfico Marvel. A ação se passa após os acontecimentos de Vingadores: Ultimato (2019), com Thor (Hemsworth) vivendo em uma espécie de retiro espiritual, em busca de um sentido para a vida e falando baboseiras de filosofia new age. A aposentadoria do herói é interrompida por um assassino galáctico conhecido como Gorr (Christian Bale), o Carniceiro de Deus, que busca a extinção de todas as divindades do cosmos.

Para combater esse poderoso vilão, Thor – depois de algumas aventuras rápidas ao lado dos Guardiões da Galáxia – e seu amigo colosso de pedra Korg (o próprio diretor Taika Waititi) juntam-se ao Rei Valquíria (Tessa Thompson), que governa a cidade de Nova Asgard. Para surpresa do protagonista, quem também se junta a eles é a cientista e sua ex-namorada Jane Foster (Natalie Portman), que surpreendentemente consegue empunhar o martelo mágico Mjolnir, transformando-se em uma versão feminina de Thor.

O grupo parte então em sua missão para impedir que Gorr domine o universo, o que inclui confrontar o chefão Zeus (Russell Crowe) em seu próprio templo. Entre idas e vindas entre os planetas, Thor e Jane ainda encontram tempo para discutir o relacionamento no convés de um barco viking interestelar ou no meio de uma batalha contra monstros alienígenas.

Disney/Divulgação

A ideia de fazer com que os filmes de super-heróis cortejem outros gêneros cinematográficos é a princípio sempre bem vinda: nem sempre funciona, mas o humor nas produções da Marvel e o clima sombrio e gótico nos títulos da DC com Batman e Superman muitas vezes tornam essas aventuras escapistas com personagens absurdamente inverossímeis até mesmo interessantes. O próprio diretor e ator Waititi já tinha se saído bem ao temperar Ragnarok com boas doses de comicidade. Mas em Amor e Trovão a maionese decididamente desandou.

O excesso de piadas, boa parte delas sem a menor graça, compromete o ritmo do filme – que quase nunca engata porque a trama tem de parar a todo o instante para dar espaço a cenas supostamente divertidas ou a alguma sequência de chistes trocadas entre os personagens. Mas o erro maior de Thor: Amor e Trovão é a tentativa de alinhar a história com os clichês das comédias românticas lacrimosas – com direito a doença fatal e todo o chororô em torno. O desconforto e a assimetria da dupla central nas sequências de flerte são evidentes na tela: atriz de grandes recursos dramáticos, Natalie Portman está definitivamente além do personagem, pouco à vontade fazendo charminho vestindo a armadura de Thor mulher; ator limitado, Chris Hemsworth fica aquém do papel quando o protagonista tem de bancar o sensível e abrir o coração para a amada.

Thor assemelha-se em alguns momentos na primeira parte do filme como uma versão rejuvenescida e bombada do roqueiro Axl Rose, enquanto a trilha sonora é recheada de sucessos do Guns N’ Roses. No entanto, a simpática homenagem ao grupo norte-americano cansa e vira paisagem depois de tantas referências e trechos repetidos dos hits Sweet Child o’ Mine, Paradise City, Welcome to the Jungle e November Rain.

Disney/Divulgação

No fim das contas, o mais interessante em Thor: Amor e Trovão acaba sendo o vilão, ainda que sua caracterização remeta mais uma vez a Voldemort – quantas vezes ainda a figura morfética do arqui-inimigo do bruxinho Harry Potter vai inspirar a criação de figuras malignas no cinema? Interpretando Gorr, o sempre ótimo Christian Bale – que encarnou o herói Batman em três filmes – imprime complexidade a um personagem movido pelo ressentimento contra os deuses, que exigem adoração incondicional sem nunca atender os pedidos dos humanos que os cultuam.

De certa forma, o desejo de vingança de Gorr nada mais é do que o desejo do homem moderno de matar Deus e assumir o bridão do próprio destino. Pena que quase não haja espaço para existencialismo no filme enquanto Thor se esforça nos papéis de salvador do universo, comediante de stand up e valentino escandinavo.

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Thor: Amor e Trovão: * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Thor: Amor e Trovão:

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