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Três filmes suíços imperdíveis

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Três filmes suíços imperdíveis "Espacate". Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Até o dia 19 de maio, a plataforma de streaming Petra Belas Artes à la Carte está promovendo o ciclo Volta ao Mundo: Suíça. Parceria com a Swiss Film Foundation, a mostra reúne oito filme produzidos na Suíça, incluindo dois longas do grande cineasta Alain Tanner.

Representante de ponta em seu país dos “novos cinemas” que irromperam em meados da década de 1960 mundo afora na esteira do neorrealismo italiano e depois da nouvelle vague francesa, o diretor do antológico Jonas, que Terá Vinte e Cinco Anos no Ano 2000 (1976) está representado com dois dos mais significativos títulos de sua filmografia: O Último a Rir (1969) e Na Cidade Branca (1983).

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Vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, o excelente O Último a Rir é uma ácida desconstrução do ethos capitalista suíço insuflada pelos ares revolucionários do Maio de 68. No centésimo aniversário da fundação de uma empresa relojoeira em Genebra, o industrial Charles Dé (François Simon), neto de 50 anos do fundador, está farto de sua vida burguesa: em entrevista a um repórter televisivo, o empresário confessa-se existencialmente perdido, reconhecendo o avô – que tinha ideias anarquistas – como artesão e seu filho como um legítimo capitalista, mas sendoi evasivo sobre si mesmo.

Em crise, Charles subitamente abandona a família e vai morar no interior com um jovem casal que conhece por acaso – cozinhando, lendo, bebendo e se envolvendo em discussões filosóficas com Paul (Marcel Robert) e Adeline (Mari-Claire Dufour). Em segredo, ele mantém contato com a filha Marianne (Maya Simon), enquanto o resto da família contrata um investigador particular para encontrá-lo.

“O Último a Rir”. Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Na Cidade Branca, que deu a Tanner o prêmio francês César de Melhor Filme Francófono, o engenheiro de navio cargueiro Paul (Bruno Ganz) aproveita uma parada em Lisboa para desembarcar, sem uma razão especial. A estadia do marinheiro suíço em um quarto de hotel é como um parênteses, um interlúdio, durante o qual experimenta um grande esvaziamento existencial – sensação que mistura angústia com alívio.

Paul vaga pela cidade por dias a fio, filmando com sua câmera Super-8 e enviando as imagens para sua esposa na Suíça, acompanhadas de cartas que contam suas longas horas de meditação. Em meio a essa deambulação pela capital portuguesa, o estrangeiro envolve-se amorosamente com Rosa (Teresa Madruga), jovem portuguesa que trabalha no hotel em que está hospedado, mergulhando em um romance que poderá dar sentido a sua vida à deriva.

“Na Cidade Branca”. Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Tanto O Último a Rir quanto Na Cidade Branca podem ser interpretados como libelos libertários antiburgueses, protagonizados por homens de meia idade cansados da vida adequada aos padrões sociais convencionais, que abrem mão da segurança e do conforto para se arriscarem em uma nova existência emancipada, regida por prazer, liberdade, carência material e imprevisibilidade. Curiosamente, em ambos os filmes repete-se uma cena similar: atirado na cama do quarto do hotel onde está escondido do mundo, o exausto protagonista é abruptamente desperto pela camareira, que irrompe em cena querendo fazer a arrumação e anunciando que, afinal de contas, já é meio-dia.

“O Último a Rir”. Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Um dos pontos comuns nesses dois longas de Tanner é a qualidade da trilha sonora: em O Último a Rir, a partitura de Jacques Olivier passeia pelas alamedas tortuosas da música erudita de vanguarda, enquanto em Na Cidade Branca o saxofone jazzístico de Jean-Luc Barbier faz a cama perfeita para a contemplação das amorosas e melancólicas imagens captadas de Lisboa.

“Na Cidade Branca”. Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Entre os filmes suíços contemporâneos incluídos na mostra, um dos mais interessantes é o recente Espacate (2020). Prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Sófia deste ano, o drama dirigido por Christian Johannes Koch é ambientado em uma cidade do interior no inverno, Marina (Rachel Braunschweig), uma professora de ensino médio de quarenta e poucos anos casada e com uma filha adolescente, mantém um caso com Artem (Aleksey Serebryakov), ucraniano pai de uma de suas alunas, Ulyana (Masha Demiri).

Embora o imigrante e sua filha vivam na Suíça há anos, nenhum dos dois tem autorização de residência. Quando Ulyana é pega roubando um fone de ouvido em uma loja de eletrônicos, a fim de reparar um incidente em que se envolveu na escola, o episódio acaba expondo tanto a situação irregular dos estrangeiros quanto o romance clandestino entre Marina e Artem.

Além da história dramaticamente tensa e bem amarrada e da bela fotografia invernal, Espacate destaca-se pela coesa atuação do elenco – em especial da protagonista Rachel Braunschweig, ótima atriz que também se sobressai em Mulheres Divinas (2017), comédia dramática sobre a luta das suíças pelo direito ao voto das mulheres, surpreendentemente só permitido no país a partir de 1971.

“Espacate”. Petra Belas Artes à la Carte/Divulgação

Assista ao trailer de Espacate:

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