Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

Better call uma ambulância

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Better call uma ambulância Netflix/Divulgação

Estimados leitores, Better Call Saul, disponível na Netflix, é a melhor coisa que o Tennessee Williams nunca escreveu – e ele também não nasceu no Tennessee, by the way. Better Call Saul é tão bom porque não é encaixável. Não existe algo muito parecido, com o mesmo jeito, o mesmo tempo, a mesma linguagem e sotaque. As séries de tevê, normalmente, se apoiam em pilares dramáticos mais fortes e marcantes. Ação, conflito, gestos e palavras que conduzam para algum lugar, clima. Better Call Saul não é assim. Os gestos podem tomar um tempo praticamente iraniano, e as falas podem ser circulares e durar vários episódios. Personagens poderosos somem, em geral mortos em circunstâncias duras. Existe violência, e muita, porque Better Call Saul é um spin-off de nada menos do que Breaking Bad. Mas a maior violência está na relação surda e triste entre dois irmãos, Saul – na sua versão anterior, Jimmy – e Charlie, o irmão ilustre e sem coração.

Como alguns devem saber, Better Call Saul surgiu porque havia tanta coisa boa em Breaking Bad que era impossível simplesmente deixar pra lá. E uma das melhores coisas, claramente, era o advogado sem qualquer escrúpulo, o advogado mais sem escrúpulos que jamais vagou sobre este mundo.
Better Call Saul era pra ser a história da transformação de Jimmy em Saul, esse anjo gauche e safado.

Os gângsteres da série são muitos, mas a maior dose de maldade – por ser sem motivo ou ganho direto – é a da maravilhosa Kim Wexler. A gente começa achando que está assistindo à transformação de um sujeito bom, mas maltratado pela vida até ficar mau, de Jimmy para Saul, e está. Mas, ao mesmo tempo, vemos a inexplicável Kim surgir, se tornar a parceira e mentora de Saul, simplesmente porque sim. Assustador.

Better Call Saul é um exercício. Alguém ali está praticando as artes escuras do escrever sobre a inescrutável alma humana. O que surpreende, talvez, é a combinação da qualidade da escrita com as atuações. Os seres que ganham vida em Better Call Saul são um inacreditável mosaico feito com humanos, como você, como eu, só que, na verdade, como eles.

A atual temporada é a sexta, e não parece. A sensação é a de se estar sempre no mesmo lugar, um redemoinho girando em torno de si mesmo, com todo o tempo do mundo para apenas girar – e nada é menos televisão do que isso. O que talvez seja a comprovação que faltava de que a televisão do streaming é mesmo uma nova espécie, com novas regras, novas cores, novos tempos e formas.

Twin Peaks deu início a tudo isso. Twin Peaks foi a obra seminal de um grande doido, David Lynch, e provou que a televisão não estava condenada a ser ela mesma, longe disso. O que a gente vê agora é a exploração continuada do caminho que ele iniciou, e as possibilidades são tão vastas!

Better Call Saul é bom, bom, bom. Também é um exercício sobre o mal, e assusta. O olhar de Better Call Saul é diferente porque, diferente de quase toda a tevê, ele é amoral. Ele olha, sente, mas não julga. Nós realmente não sabemos o que a série pensa dela mesma. Apenas sabemos que ela sabe o quanto boa ela é. E é mesmo.

Better Call Saul está na última temporada e agora fez uma pausa, aquela diaba da pausa de meia-temporada, como se a gente tivesse uma meia-atenção, meio-desejo ou meia-vida pra ficar esperando enquanto o resto chega.

É duro, mas necessário. Vamos esperar, e ver de joelhos quando chegar. Better Call Saul é tão boa ou melhor do que qualquer outra coisa já feita nessa nova televisão dos tempos do streaming.

Quando ela vier, veja.

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