Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

Rei Lear e o televangelismo

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Rei Lear e o televangelismo HBO/Divulgação

Sabem Succession? Pois a HBO está lançando a segunda temporada da versão cômica de Succession, que se chama The Righteous Gemstones – e, em algum lugar, Edir Macedo, Silas Malafaia e seus semelhantes choram. Pais dotados de reinos, impérios e poder, que precisam decidir para qual filho deixar a bronca de herança não é nada, mas nada novo. Sabem Rei Lear?

Patriarcas ou matriarcas que criam impérios, no mundo como ele é, raramente tiveram tempo para conhecer muito bem os filhos, ou pelo menos para acompanhar de perto a infância e crescimento deles. Alguns podem ter problemas com os nomes da prole, ainda mais com suas personalidades, desejos, estilo de governar ou forma de atacar a vida, ou o cofre da empresa. Num mundo simplificado, o primogênito herda e os outros estão lá para o caso de o primogênito não chegar vivo ao momento da coroação, ou desistir dela, sabem The Crown?

Casos há em que o patriarca resolve promover a cizânia entre os herdeiros, para ver quem parece mais com ele mesmo. Casos há em que o patriarca nem ao menos consegue imaginar o império, e o mundo, sem ele. Os filhos, sem a clareza necessária para saberem o seu lugar na ordem das coisas, partem para a luta. Os resultados costumam ser, bom…

Bilionários costumam manter relações puramente transacionais. As pessoas valem pelo que trazem, ou entregam. Nesses casos, os filhos tentam mostrar seu valor, ao mesmo tempo em que sabotam os irmãos. Não é agradável viver em famílias assim, e o melhor aglomerado dessas famílias que a gente teve a chance de conhecer foi no festival de reis Lear que foi Game of Thrones, lembram?

The Righteous Gemstones traz essa pancadaria familiar para o universo ainda mais esquisito das religiões pentecostais, em que, além de rios de dinheiro, temos questões teocráticas por todos os lados. Isso nunca, mas nunca mesmo, acabou bem. Sabem a Guerra dos Trinta Anos?

Os Gemstones são uma família de bilionários donos de igrejas, ou franquias, no sul dos Estados Unidos, o território cultural desse tipo de negócio. Quem faz o personagem do patriarca é nada menos do que John Goodman, de longe um dos mais brilhantes atores americanos. Eu viria por isso apenas, mas todo mundo ali é bom demais, como atores, que fique claro. No resto, é ruindade de doer.

Na cena inicial, estão batizando milhares de chineses na China, onde eles buscam crentes e faturamento. O batismo acontece em uma piscina, e tudo vai bem, até dois dos irmãos Gemstone começarem uma luta de esguichos e alguém, inadvertidamente, liga as ondas artificiais da piscina. Sério. E daí em diante, é só maluquice e diversão.

Os episódios não são muito consistentes. Existem momentos melhores e piores. O humor tem um registro bem americano, como nas partes do Saturday Night Live que nós, brasileiros, achamos exageradas, e são. Mas o inusitado desse universo inusitado, a esquisitice que rege tudo e todos e a maravilha de nível de atuação e de loucura dos personagens em geral torna assistir a The Righteous Gemstones uma das melhores coisas destes tempos doidos.

Vejam.

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