Dança, Entrevista, Reportagens

Macarenando a diversidade

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Macarenando a diversidade Foto: Macarenando

Música, gestos e experimentações com linguagens audiovisuais compõem o projeto Dance a Diversidade, da Macarenando, iniciativa que explora dança, humor e cultura pop em suas criações desde 2013. A série de 21 vídeos, apresentada nos canais digitais do coletivo, aborda a temática LGBTQIA+ a partir de canções de artistas como Adriana Calcanhotto, Johnny Hooker, Lulu Santos e Nei Matogrosso.

O projeto é um desdobramento da pesquisa da companhia em torno do procedimento “Dance a Letra”, que consiste em atribuir gestos literais para letras de músicas e já resultou em outras experimentações em vídeo da Macarenando. Para Dance a Diversidade, os diretores Diego Mac e Gui Malgarizi propuseram ao grupo que as coreografias partissem de uma coleção de 30 gestos, criados a partir do espetáculo 100 Formas para o Amor, concebido em 2014 pelo coletivo, de modo a tornar o “amar sem formas” a premissa central de abordagem do universo LGBTQIA+.

“De modo geral e estrutural na linguagem do grupo, a diversidade aparece na busca pela desconstrução do ‘padrão de corpo’ estabelecido no setor da dança. Partimos da ideia de que todos podem dançar, por meio de uma abordagem plural e indiscriminada sobre os corpos e as suas histórias – entendendo os corpos como eles são, sem preconceitos de forma, peso, idade, cor, gênero e classe social. Isso pode soar muito simples, fácil de ser praticado e resolvido, mas não é: ainda há uma noção muito forte no campo da dança de um ‘corpo modelo’ a ser atingido para que se possa dançar”, explica Mac – leia a entrevista a seguir.

Codiretor do projeto ao lado de Mac, Gui Malgarizi chama atenção para uma cacofonia proposital no título do projeto. “Pode ser lido como ‘Dance Adversidade’, o que não é à toa. Temos muito a dizer, refletir e dançar a respeito dos desafios e adversidades que se impõe à população LGBTQIA+ e aos artistas em nossa sociedade – somam-se a isso os obstáculos do fazer cultural e artístico provocados pela pandemia de Covid-19”, explica o coreógrafo, ressaltando que a Macarenando é composta majoritariamente por pessoas LGBTQIA+ e mulheres.

Com orientação coreográfica de June Machado, a série reúne os bailarinos Aline Karpinski Dias, Arthur Bonfanti, Chiarah Cohén, Daniela Aquino, Dani Dutra, Dani Boff, Denis Gosch, Diego Mac, Eduardo Richa, Freda Corteze, Giulia Baptista Vieira, Juliana Rutkowski e Nilton Gaffree Jr. Os ensaios, as gravações e a edição do material foram realizados nas casas dos participantes ao longo de sete semanas.

Contemplado com recursos da Lei Aldir Blanc no edital “Criação e Formação – Diversidade das Culturas”, operado no Rio Grande do Sul pela Fundação Marcopolo – criticada por conta de problemas no processo de inscrição da convocatória, confira ao final da matéria –, o projeto da Macarenando promove ainda uma masterclass gratuita no dia 12 de junho, mediada pela professora da UFRJ Luciane Coccaro. Intitulado “Como esse vídeo dança? Ferramentas para a criação de dança para telas”, o encontro vai abordar procedimentos e técnicas utilizadas em Dance a Diversidade.

Na entrevista a seguir, Diego Mac fala sobre a abordagem da Macarenando para a temática da diversidade, os diálogos entre dança e vídeo e a pesquisa de gestos e repertórios da série lançada neste mês pelo grupo.

Qual o papel da diversidade nos projetos da Macarenando e como esse tema ganhou forma na série?

A diversidade é um dos princípios artísticos da Macarenando. De modo geral e estrutural na linguagem do grupo, a diversidade aparece na busca pela desconstrução do “padrão de corpo” estabelecido no setor da dança. Partimos da ideia de que todos podem dançar, por meio de uma abordagem plural e indiscriminada sobre os corpos e as suas histórias – entendendo os corpos como eles são, sem preconceitos de forma, peso, idade, cor, gênero e classe social. Isso pode soar muito simples, fácil de ser praticado e resolvido, mas não é: ainda há uma noção muito forte no campo da dança de um “corpo modelo” a ser atingido para que se possa dançar. Na Macarenando temos corpos de todos os tipos, com diferentes histórias, e o meu trabalho como coreógrafo e diretor, nesse contexto, junto com o Gui Malgarizi, é harmonizar e relacionar essa diversidade dos corpos, das histórias e dos desejos durante os processos de criação e apresentação dos nossos produtos e projetos culturais.

Em última instância, acabamos por tocar em questões estéticas, éticas e políticas da diversidade, colaborando, por meio da arte que fazemos, no combate ao preconceito e a discriminação das pessoas e dos seus corpos. Partindo dessa ideia, bastante presente e contínua no trabalho que fazemos, foi um caminho bem orgânico trazer esse assunto como tema de um projeto, não só como elemento que estrutura a linguagem do grupo. E é dessa forma que a diversidade ganha protagonismo nesse projeto, como assunto e forma das obras.

Nessa linha, o trabalho teve como norte o levantamento de materiais artísticos sobre diversidade e o universo LGBTQIA+ da nossa trajetória artística que pudessem servir de elementos de trabalho para a composição das obras, como a retomada dos títulos das cenas do espetáculo 100 Formas para o Amor (2014) para nomear os gestos que utilizamos nas coreografias desse projeto – utilizando novamente uma das nossas premissas artísticas: o trabalho de reprocessamento e pós-produção do que já está existe, donde a apropriação da coreografia Macarena é emblema máximo e dá nome ao grupo. Em outras palavras: o que se faz com o que se tem? Assim, nas obras resultantes do projeto, a diversidade e o universo LGBTQIA+ aparecem de inúmeras formas: explicitamente, num duo de criador e criatura do Nilton Gaffree Jr. com a sua drag queen Cassandra Calabouço, ou de forma mais sutil e implícita, em vídeos que abordam corpo, sexo, violência e amor sem formas.

Em maio do ano passado, no começo da pandemia, conversamos sobre as relações entre dança e vídeo – relembre aqui –, tão amplificadas nesse momento de distanciamento. Como você enxergou as propostas desse diálogo ao longo desse período, que infelizmente persiste?

Entendo que há muitos pontos positivos nesse processo compulsório da relação entre dança e vídeo, em que os artistas da dança viram no vídeo e nas tecnologias de comunicação os únicos meios possíveis de manterem suas atividades. No âmbito essencialmente artístico, é especialmente positivo porque colocou em debate e em ênfase as práticas da videodança, minimizando as ingenuidades e as fake-descobertas sobre o tema, trazendo visibilidade aos artistas que já se dedicavam a esse tipo de pesquisa e trabalho – um nicho ainda bastante pequeno no setor da dança, mas não menos rigoroso artisticamente. Também trouxe novas oportunidades de mercado para a dança, especialmente em âmbito pedagógico.

O que você destaca como desafios e potencialidades desse diálogo? Na nossa conversa em 2020 você enfatizou o interesse da Macarenando em utilizar a linguagem videográfica para formar público e democratizar o acesso à dança cênica.

O desafio é a relação da produção com o processo criativo, e o que podemos fazer com o que temos, sem prejudicar o rigor estético e artístico das criações em dança. Estamos no sul da América do Sul, e toda relação com a tecnologia aqui é muito precária. Então precisamos olhar para a realidade e nos movermos por ela, com uma visão bastante pé-no-chão e de longo alcance sobre o que é possível fazer. Não dá para pensar em produções de vídeo e dança tendo como modelo os padrões europeus ou norte-americanos. Aqui é o bailarino-captador, é a câmera de celular, é o ring light adaptado, é o tripé feito de livros, é o cenário-casa, “é o corpo na cama, é o carro enguiçado, é a lama”.

Qualquer produção que não caminhe sobre esse terreno soa descontextualizada e oportunista em relação ao vídeo. Se você trabalha com a relação dança e vídeo e nenhuma dessas dificuldades aparecem, se não surge nenhuma questão inédita para você, se você não é afetado por esse processo, você permanece no mesmo lugar, ainda somente na dança, sem abrir portas para o universo videográfico. O que mais buscamos fazer na Macarenando é abrir essas portas para a relação da dança com o vídeo. Não tratar o vídeo como um suporte oco a ser recheado com imagens de pessoas dançando, mas como um elemento que podemos mobilizar e por ele sermos mobilizados – o vídeo é mais um corpo a ser coreografado.

Isso significa se debruçar sobre esse universo e sobre tudo o que ele significa hoje em termos de comunicação social. Nesse sentido, o vídeo não é apenas um quadro artístico, é também uma ferramenta de comunicação com o público. Contudo, isso não se dá de modo separado na Macarenando: um vídeo de dança, outro de informes e contato direto com o público. Não. Nosso interesse está em descobrir como essas duas dimensões podem operar juntas e ao mesmo tempo num único objeto artístico, e, assim, fomentar público para a dança. Essa, para nós, é a grande potencialidade desse diálogo.

Como foi desenvolvida a pesquisa dos gestos coreografados nos vídeos da série?

Nosso objetivo artístico desde o início foi o de aprofundar o procedimento Dance a Letra e descobrir o que mais podemos fazer com ele. Assim, os gestos foram criados a partir de um desafio que Gui Malgarizi e eu lançamos à equipe: como criar 20 vídeos de Dance a Letra com um universo restrito de gestos para associar às palavras das músicas? Para criar esse universo, nos apropriamos de dois elementos que já existiam nos nossos repertórios de criação. A ideia de Coleção de Movimentos, desenvolvida por mim em pesquisa de mestrado, e os títulos das cenas do espetáculo 100 Formas para o Amor. E assim criamos a coleção de 30 gestos que seriam posteriormente utilizados na criação das coreografias.

Todo o trabalho foi feito remotamente, em reuniões via Zoom, em que lançávamos o item a ser criado (exemplo: Gesto 1 – Pick Up Line) e cada bailarino improvisava um gesto para aquele título, até que escolhíamos o que melhor traduzia a ideia e fosse potente o suficiente, em termos de movimento, de ser reprocessado/utilizado em diferentes contextos semânticos. Após esse processo, com a coleção montada, teve início a criação dos Dance a Letra em específico, em que a tarefa de cada bailarino foi de arranjar-montar-relacionar os gestos da Coleção com a letra da música. Esse trabalho também foi realizado em reuniões coletivas via Zoom, mas também individualmente com cada bailarino, de acordo com as concepções dos vídeos. Após, se deu o período de gravação das imagens, seguido do período de edição e montagem vídeo coreográfica, em que uma nova camada de sentidos para o Dance a Letra foi aplicada. 


Como foi a escolha do repertório?

O primeiro procedimento foi a pesquisa do universo musical LGBTQIA+. Criamos uma playlist colaborativa no Spotify e todos adicionaram sugestões de músicas. Contudo, nesse processo, foi muito forte o questionamento dos critérios para a escolha dessas músicas: cantores e cantoras LGBTQIA+? Compositores LGBTQIA+? Temática LGBTQIA+? Na medida em que íamos debatendo sobre isso, fomos adicionando canções com um único critério: você deve saber me dizer por que adicionou essa música numa playlist LGBTQIA+. E assim fomos identificando que os critérios são diversos por excelência. Não há uma regra única nem um único elemento que possa dar conta de representar o universo LGBTQIA+: são múltiplos pontos de vista, temáticas, intérpretes, compositores e canções porque são diversas as pessoas e as suas histórias. Acabamos por selecionar músicas que de alguma maneira versam sobre humanidade, identidade, gênero, corpo, sexualidade e amor, e cujos arranjos e letras fossem potentes o suficiente para serem objeto de criação artística e de relação com os gestos da coleção.

Por fim, nos conta sobre a masterclass de junho.

A masterclass tem o objetivo de compartilhar com o público e profissionais da dança o processo de criação desse projeto. Nossa ideia é mostrar as ferramentas, as habilidades e os procedimentos que utilizamos para desenvolver os objetos artísticos, bem como debater sobre as relações entre dança e vídeo e tentar entender um pouco de como o vídeo dança na Macarenando. É uma maneira de colaborar com outros artistas a partir da experiência que temos com a criação de dança para telas. Desde 2014 trabalhamos com isso na Macarenando, e eu desde 2006.

Dance a Diversidade

A série de 21 vídeos é atualizada diariamente nos canais da Macarenando no Instagram, no Facebook e no YouTube desde 17 de maio.

Masterclass gratuita “Como esse vídeo dança?”

O encontro “Como esse vídeo dança? Ferramentas para a criação de dança para telas”, com mediação da professora da UFRJ Luciane Coccaro, será realizado no dia 12 de junho, das 14h às 17h, pela plataforma Zoom, com inscrições abertas. A masterclass vai abordar procedimentos e técnicas utilizadas em Dance a Diversidade.

Sobre o edital “Criação e Formação – Diversidade das Culturas”

Com recursos da Lei Aldir Blanc, o edital “Criação e Formação – Diversidade das Culturas” é executado pela Fundação Marcopolo, selecionada pela Secretaria de Estado da Cultura do RS. A operação da convocatória recebeu críticas de proponentes – incluindo uma carta de nove colegiados do Conselho Estadual de Cultura – que exigiram a revisão completa do processo. Um dos principais pontos em discussão foi uma falha no formulário de inscrição dos candidatos pessoa física, admitida em comunicado da Marcopolo, em que constava a categoria de cotista “LGBTQIA+” em vez de “mulher trans/travesti” e “homem trans”, como originalmente previa o texto do edital. Após a revisão, os inscritos como “LGBTQIA+” que não se enquadraram nas categorias trans/travesti perderam o status de cotistas, passando a integrar a classificação geral. O grupo de proponentes excluídos das cotas tem se articulado em protesto à decisão da Fundação Marcopolo, com manifestações de artistas publicadas nos perfis de Facebook e Instagram da cantora Necka Ayala.

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