Entrevista, Literatura, Reportagens

A poesia nua de Claudia Schroeder

Change Size Text
A poesia nua de Claudia Schroeder Foto: Raul Kebs/Divulgação

Nesta sexta-feira (21/5), às 19h, a publicitária e escritora Claudia Schroeder lança seu novo livro, As Partes Nuas, em uma live no Instagram do Instituto Ling. O encontro virtual com o público será mediado pelo escritor e professor de literatura Pedro Gonzaga, que auxiliou no processo de seleção dos textos criados pela autora gaúcha.

Claudia Schroeder lança livro “As Partes Nuas” em live do Instituto Ling

Publicitária premiada que atua há 28 anos no mercado como redatora, gerente e diretora de criação em agências de propaganda, design e promoção, Claudia Schroeder vem se dedicando nos últimos anos à escrita literária, especialmente poesia. Publicado pela editora Francisco Alves, As Partes Nuas é o segundo livro de poemas da autora gaúcha.

Na apresentação, o poeta português José Luís Peixoto define a obra como um “livro-corpo”. O volume tem design de Rico Lins e estampa na capa o trabalho Nuvem para Meia Altura, do artista visual José Bechara – fragmentos dessa pintura pontuam também as aberturas dos sete capítulos da publicação. E cada divisão é aberta com versos de poemas que não entraram, amarrando o projeto como um todo.

Capa do livro. Foto: Reprodução

As Partes Nuas surgiu de uma seleção de textos junto ao poeta, tradutor e estudioso de literatura Pedro Gonzaga. “Claudia Schroeder alcança neste novo livro uma voz lírica a ser louvada: íntima e social, terna e irônica, memorialística e sensual. No conjunto os poemas nos trazem uma experiência física, sensorial, capaz de revelar as agruras e as delícias do que é ser uma criatura humana no mundo, agora, enquanto o tempo parece prestes a consumir todas as coisas. Um livro urgente, variegado pelos tantos matizes que a melhor lírica pode oferecer”, elogia Gonzaga.

“Quando ainda criança, tive um bloqueio em uma oficina de desenho, me afastando da prática por um tempo. Por conta disso, tinha medo de me aprofundar na escrita e sofrer um novo bloqueio, mas Pedro me ajudou a olhar para minhas criações e o que aconteceu com a poesia foi o oposto do desenho”, explica a autora.

Em 2010, Claudia Schroeder foi classificada no Prêmio Off Flip de Literatura com Casamento e no 9º Concurso Literário Guemanisse de contos e poesias com os poemas Na Boca e Pálpebras. No mesmo ano, foi lançado Leia-me Toda, livro de poemas com capa em braile publicado pela editora Dublinense e agraciado com o terceiro lugar no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional.

A escritora também foi premiada com o segundo lugar no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody com o poema Jantar, que acabou sendo publicado na coletânea portuguesa A Poesia É para Comer (editora Babel), ao lado de nomes como Hilda Hilst e Chico Buarque de Holanda. “Eu não tinha ideia. Só quando tive acesso ao material, vi que o livro era lindo, enorme e com nomes importantes. O meu estava ali, junto a Chico e Hilda e obras de Portinari. Foi incrível!”, comemora Claudia.

Em 2018, a autora abordou o universo infantil com o livro A Menina que Descobriu o Sol, lançado pelo selo Kazoca. Claudia convidou personalidades culturais para registrarem em vídeo leituras de seus poemas. As participações estão no canal do YouTube de Claudia, na voz de artistas como Lilia Cabral, Lázaro Ramos e Ana Beatriz Nogueira, do fotógrafo Raul Krebs e dos jornalistas Pedro Bial e Juarez Fonseca.

Veja o ator Lázaro Ramos dizendo um poema de Claudia Schroeder:

Na entrevista a seguir, Claudia Schroeder comenta sobre As Partes Nuas, seu processo criativo e influências literárias, além de avaliar o efeito de escutar outras pessoas lendo seus poemas em voz alta: “Ouvir na voz dos outros é de grande valia: sentimos de fato cada verso, ele chega com o sentimento de quem está lendo e conseguimos ver quais deles são capazes de, realmente, tocar”.

Foto: Marcelo Nunes/Divulgação

Os poemas de As Partes Nuas foram concebidos e escritos em que período de tempo? Eles surgiram já com a intenção de estarem juntos em um livro?

Ah, foi um compilado dos últimos quatro anos. Um ou outro pode ter sido escrito antes desse período. E não, eles não surgiram com a intenção de estarem juntos em um livro, foram nascendo aos poucos, porque eu estou sempre escrevendo e guardando para que descansem, para que eu olhe para eles de novo e edite algum verso, elimine alguma palavra sobrando. Aí selecionei um bom número de poemas desses últimos tempos e fomos (eu e Pedro Gonzaga) decidindo o que entrava e o que poderia ficar para algum(s) outro(s) livro(s), quem sabe.

Há uma urgência em seus poemas, que expressam uma “experiência física, sensorial”, nas palavras do poeta Pedro Gonzaga. Comente a respeito dessas características de sua obra, por favor.

Sim, eu escrevo bastante através das observações das sensações. A presença física do corpo, do toque do corpo está em vários poemas, como aqui neste trecho de um: tanto corpo entrando no meu/ cheiros insuportáveis/ gostos que não me agradavam/ atitudes esquivas / ou famintas demais. E essas sensações podem estar em outro corpo, não o meu e nem do mesmo gênero que eu. Acho que foi por isso que o Pedro apontou essas características.

Essa fisicalidade poética ganha uma vertente sensual notável em sua obra. Qual é a importância da abordagem do erotismo feminino no seu trabalho?

Penso que o feminino é tão bonito, sabe? E ele pode e deve ser explorado. Nesse livro existe o desnudar desse erotismo com todas as suas facetas – ser mãe, ser mulher feliz ou infeliz, a cega de amor ou a que sabe não ser a única, a que teve o corpo abusado ou aquela que sabe abusar deliciosamente do corpo alheio. O fato é que é bom ser mulher, mas também é muito difícil num mundo de tantas repressões. E tudo isso está nos poemas, de uma forma livre, sem pudores, digamos assim, como nesta estrofe aqui: as lingeries faturadas/ nunca me chegaram/ sigo nua sem rendas/ faço de morta/ enquanto você mantém/ uma outra/ bem viva. Ou nesse poema da página 112:

à medida que minha mão te avança

encontra reentrâncias básicas
não há uma espinha
uma verruga que atravanque

a viagem fluida de minha palma

escorrego-a
mas escorrego-a suave em veludo

não despenco como em um toboágua

volto aos sentidos
ao chegar na nuca de cabelos ralos

que me recuperam a memória
de quando a morte não venceu

tua quimioterapia

junto os dedos com os restos

entrelaçados pelos meios
puxo a cabeça para fazer-te acordar

e saber:
estás em gozo
e viva.

Foto: Raul Kebs/Divulgação

Como surgiu a ideia de pedir para artistas e personalidades culturais registrarem em vídeo leituras de poemas seus? O que isso acrescentou aos textos, na sua opinião?

Eu já havia tido essa ideia num projeto anterior à pandemia, chamado Voz na Boca (ele está no Instagram @claudiaschroeder.poesia e no YouTube). O que eu queria era ouvir a minha voz poética na voz de diversas pessoas. Foram artistas convidados, mas também outros como uma intérprete de Libras que fez seu vídeo usando a linguagem de sinais e uma sexóloga. E eu achei tão maravilhoso me ouvir em outras vozes que decidi fazer alguns convites para esse livro. E ouvir na voz dos outros é de grande valia: sentimos de fato cada verso, ele chega com o sentimento de quem está lendo e conseguimos ver quais deles são capazes de, realmente, tocar.

Como o distanciamento social e o isolamento provocados pela pandemia têm afetado seu trabalho?

Não tem como não ser afetado pelo que estamos passando. Eu digo: quem está dizendo que está totalmente bem, está mentindo ou é maluco. No início, meus poemas mudaram, eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser nessa guerra invisível e assombrosa. Eu estava presa nesta realidade ruim. Mas voltei a mim e consegui resgatar minha essência. Acho que comecei a produzir mais, mas não foquei no assunto do isolamento, embora tenha alguns poucos poemas no livro que abordam o que estamos passando, mas de forma sutil. O poema da página 16 do livro é um deles:

meu filho
tem um monstro do outro lado
da porta da sala
ele nunca esteve dentro
do teu armário


meu filho, ele é muitos
estão no corrimão da escada
na maçaneta da rua
no botão do nosso andar
nas mãos queridas dos que sempre
fizeram carinho em teu rosto

meu filho
tem um monstro
ele é forte
ainda não sabemos como fazê-lo
morrer

mas filho
descobri que ficando no meu abraço
aqui dentro da nossa casa
ele não nos vê

Quais são suas influências na poesia em particular e na literatura em geral?

Eu fiquei muito impactada com a poesia da poeta polonesa Wislawa Szymborska, que grande poeta, que mulher! Fiquei paralisada diante do primeiro livro dela que li. Acho que a maneira que ela desnuda as coisas do mundo me influenciou, além de uma ironia que também está na Adília Lopes. E claro, Drummond, Bandeira e Mario Quintana – este que me apresentou a poesia na infância. Fora da poesia, é fato que a Fernanda Young também me influenciou com a sua forma corajosa de falar do mundo feminino e todas as suas questões. Mas não sei se é uma influência, acho eu, é mais semelhança – me encontrei um pouco na sua irreverência e coragem. Eu queria ter essa coragem, e acho que agora tive. E é muito triste lançar esse livro e saber que ela nunca o lerá.

Que autoras e autores da atualidade têm chamado a sua atenção?

Da atualidade cito três mulheres: Ana Martins Marques, Marília Garcia e a paraibana Marília Valengo, que lançou faz pouco o seu primeiro livro. E não posso deixar de citar o meu mestre e amigo Pedro Gonzaga, um poeta incrível que não pode deixar de ser lido. Além, é claro, de José Luís Peixoto, que gentilmente escreveu a apresentação do livro. Todos estes são poetas e pessoas admiráveis.

Veja a atriz Lilia Cabral dizendo um poema de Claudia Schroeder:

Veja a atriz Ana Beatriz Nogueira dizendo um poema de Claudia Schroeder:

Veja o artista visual José Bechara dizendo um poema de Claudia Schroeder:

Quer saber tudo sobre cultura e eventos em Porto Alegre e no RS? Então assine a newsletter do Roger Lerina e receba as dicas no seu e-mail!

Receba de segunda a sexta a Matinal News, a newsletter que traz as principais notícias e eventos de Porto Alegre e do RS.