Fotografia, Reportagens

A fotografia reflete sobre a pandemia

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A fotografia reflete sobre a pandemia

As inquietações provocadas pelo coronavírus e pelas medidas de isolamento social têm mobilizado fotógrafos do mundo inteiro a desenvolver projetos artísticos. Reunimos aqui algumas das iniciativas que estão sendo realizadas no Rio Grande do Sul e no Brasil, que vão desde a imersão nos fundamentos da captação de imagens, passando por uma galeria virtual que oferece assistência a comunidades vulneráveis, até propostas que buscam narrar o dia a dia do “novo normal”. Em comum, o desejo de promover diálogos, olhares e reflexões sobre a pandemia.

Um mundo de cabeça para baixo

Porto-alegrense radicado no Rio de Janeiro, o fotógrafo Bruno Alencastro aproveitou seu interesse por história da arte e pelas tecnologias de produção de imagens para criar o projeto obs-cu-ra. Influenciado por uma série do fotógrafo cubano Abelardo Morell, Alencastro utilizou a estrutura física de seu apartamento na capital fluminense para criar uma câmera escura em latim, camera obscura.

O procedimento consiste em criar um espaço sem iluminação interior uma caixa, por exemplo, ou mesmo uma sala e fazer um pequeno furo em uma das superfícies laterais. A luz do exterior entra pelo orifício e projeta uma imagem invertida no lado oposto. O processo, descrito desde a Antiguidade e experimentado ao longo de séculos por inúmeros artistas, incluindo Leonardo da Vinci, deu origem no século 19 às primeiras câmeras fotográficas.

“Nunca tinha feito qualquer experimento nesse sentido, apenas teorizado sobre o assunto na graduação e no mestrado. Nesse período de pausa, tive o estalo do princípio da camera obscura e resolvi me aventurar”, conta Alencastro. “Quando consegui produzir essa projeção de um mundo de cabeça para baixo nas paredes da minha casa, me dei conta da força e do simbolismo desse trabalho, ressignificado no contexto atual”, explica.

Alencastro passou então a convidar outros fotógrafos para o projeto. “Procurei pessoas que pudessem narrar os mais variados aspectos decorrentes desse isolamento social: o aniversário solitário, a família, a liberdade de morar no interior, o casamento adiado, os hobbies como subterfúgios para a mente, a espiritualidade etc.”, recorda.

Além de despertar o interesse de dezenas de fotógrafos, a série repercutiu em periódicos de países como Grécia, Holanda, Polônia e Reino Unido incluindo uma matéria no jornal The Independent. Com tamanha adesão, Alencastro abriu uma convocatória para receber fotos de qualquer pessoa interessada em colaborar. Também criou um passo a passo explicando os detalhes técnicos de como transformar um ambiente doméstico numa câmera escura. As imagens criadas pelos participantes do projeto são indexadas pela hashtag #obs_cu_ra e podem ser vistas no perfil do Instagram e no site do fotógrafo.

“Tenho recebido retorno de todas essas pessoas, e a leitura que cada um tem feito reforça a relevância e profundidade do ensaio. Da reflexão mais direta e clara um mundo de cabeça para baixo até questões mais filosóficas envolvendo a fronteira e o abismo representados por essa moldura que nos resta do mundo”, conta.

“Quando essa projeção invade a casa e imprime nas paredes e na nossa pele o que o campo de visão permite enxergar, problematizamos as escolhas que fizemos e que nos trouxeram até esse lugar, isolados e confinados, reclusos dentro de uma caixa, onde o que nos sobra é um horizonte que pode ser panorâmico, arborizado e arejado, mas também escuro, invasivo e sufocante”, completa Alencastro.

Foco na vulnerabilidade social

Inspirados em propostas como o projeto 150 Fotos para São Paulo, um grupo de fotógrafos de Porto Alegre concebeu o POA150FOTOS, que consiste em uma galeria virtual com obras à venda, cuja receita será destinada a projetos sociais.

“As notícias sobre o agravamento da situação de pobreza e vulnerabilidade me fizeram pensar que toda atividade nesse momento precisa estar voltada a ajudar pessoas que vivem em situações mais precárias”, explica Pedro Braga, um dos idealizadores. O time inicial, formado por Braga e pelos fotógrafos Lucie Alessi, Tiago Coelho, Rochele Zandavalli e Leonardo Savaris, aos poucos ganhou novos integrantes e parceiros institucionais.

A meta inicial de 150 nomes foi superada e atualmente a plataforma conta com 164 participantes. Braga conta que a equipe tem se dedicado a elaborar estratégias de venda e formas de aproximar os envolvidos com as comunidades que serão beneficiadas. O valor arrecadado será direcionado a duas entidades de assistência social: o coletivo docente Solicon UFRGS (Solidariedade Pandemia UFRGS), que atende dez comunidades de Porto Alegre, e o Nós por Nós Solidariedade, que apoia os moradores do bairro Cohab.

“É incrível ver essa energia se materializando em um projeto. O sentimento que nos move é que juntos somos mais fortes”, conta Braga. A mobilização em torno da iniciativa rendeu um convite para uma live do Festival de Fotografia de Tiradentes, que vem realizando atividades online enquanto aguarda nova data.

Diário visual da pandemia

O projeto colaborativo O Nosso Olhar – Diário de uma Pandemia, capitaneado pelo fotógrafo e artista visual Leandro Selister, nasceu durante as primeiras semanas de isolamento social. No dia 31 de março, Selister criou um grupo no Facebook e convidou amigos a participarem com imagens obtidas desde suas janelas. “A receptividade foi enorme. As pessoas aceitaram imediatamente o convite e começaram a postar. Em menos de sete dias, já éramos mais de duas mil pessoas reunidas virtualmente e compartilhando imagens”, conta.

Atualmente os mais de 2.700 membros do grupo fotografam o cotidiano da pandemia tendo como inspiração as palavras-chaves definidas a cada semana, que dão norte à produção das imagens publicadas no grupo de Facebook e no perfil de Instagram do projeto. Selister planeja ir além dessas duas plataformas: a iniciativa concorre a um edital de financiamento para viabilizar a publicação das imagens no ambiente digital e em livro.

Selister destaca a intensidade das trocas com os participantes da iniciativa: “Recebo mensagens sobre o projeto e a importância de fazer parte dele, dúvidas sobre como postar, depoimentos sensíveis e agradecimentos pela companhia. Isso é o que me move: o afeto que existe. Estamos sim juntos, mesmo que distantes”.

Enquanto estamos em casa e olhando ao redor

A necessidade de registar um momento tão peculiar da história fez com que o coletivo e espaço cultural Planta Baja desenvolvesse duas iniciativas durante a pandemia. A primeira delas, Paisagem da Espera, foi idealizada pelo coletivo e abraçada pelo Grupo Matinal Jornalismo. Voltada a todos os interessados em participar, a proposta visa “construir uma reflexão coletiva em imagens a partir do que as pessoas estão vendo nas suas casas e em suas saídas eventuais”, explica Cristiano Sant’Anna, um dos fundadores do coletivo, que conta também com os fotógrafos Giordano Toldo, José Calimero, Leo Caobelli e Vicente Carcuchinski.

Por meio do seu perfil no Instagram, o grupo de fotógrafos divulga o tema da semana. As imagens que podem ser fotografias ou vídeos são recebidas pela equipe do Planta Baja através do e-mail [email protected] e selecionadas para integrar a revista digital Parêntese, enviada aos assinantes premium do Grupo Matinal. Todos, globalmente, estamos vivendo a mesma situação. Isso nos dá um senso de comunidade que faz, por exemplo, uma fotógrafa na Grécia se sentir tocada e motivada a mandar suas imagens pra gente”, conta Sant’Anna.

A segunda iniciativa do Planta Baja é a série de conversas online Enquanto Estamos em Casa, realizada todas as quartas, às 19h, e transmitida pelos canais do grupo. Em vez de recorrer às lives, cuja interação é limitada às caixas de comentários, o coletivo optou por salas virtuais de conferência, onde o público pode conversar diretamente com os fotógrafos convidados.

“Isso é extremamente importante, porque possibilita manter o formato de conversa que sempre foi a característica dos encontros na casa”, explica Sant’Anna. O Enquanto Estamos em Casa já recebeu os fotógrafos Federico Estol, Letícia Lampert e Alexandre Sequeira. Para as próximas semanas, estão confirmadas as participações de Camila Domingues e Maurício Pokemon.

Os integrantes do Planta Baja também aproveitam os meses de distanciamento social para desenvolver dois projetos contemplados pelo Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Estado da Cultura do RS: um curta metragem sobre os 200 anos da passagem do botânico e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire pelo Rio Grande do Sul e o projeto 8 Desertos de Erros, que deriva da pesquisa de mestrado de Leo Caobelli e explora arquivos fotográficos descartados como lixo eletrônico. Além dessas iniciativas, o coletivo busca maneiras de realizar, no ambiente digital, atividades que antes da pandemia aconteciam no pátio, nos ateliês e nas salas de estudos do Planta Baja.

“Temos pensado muito em como o isolamento redefinirá nossa forma de interagir, produzir e fazer circular nossa produção e nossos questionamentos. Se em 2013 pensávamos sobre a importância de sair da frente da tela e ganhar as ruas, hoje percebemos como o ficar diante da tela veio para permanecer por um tempo indeterminado”, conta Sant’Anna, que recentemente foi contemplado pelo edital Arte como Respiro, do Itaú Cultural, com uma série de fotografias abordando o desconforto e a necessidade de adaptação provocados pela pandemia. “Esse fator nos faz refletir sobre como manteremos nossa saúde física e mental, mantendo laços afetivos à distância e proporcionando momentos de proximidade virtual para que estejamos – de alguma forma – juntos”, completa.

Confira também:

Covid Photo Brazil
O perfil de Instagram editado por Danilo Verpa reúne imagens de fotógrafos brasileiros que abordam o momento atual.

Olhares sobre a Covid-19
A série do Itaú Cultural traz relatos em texto e imagens sobre a pandemia.

#IMSquarentena
A iniciativa do Instituto Moreira Salles (IMS) apresenta produções fotográficas e outras linguagens relacionadas ao período de distanciamento.

Novidade Fotóptica
O IMS liberou acesso às 136 edições da revista Novidades Fotóptica, que circulou no Brasil entre as décadas de 1950 e 1980.

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