Literatura, Reportagens

Entrevista: Luís Augusto Fischer lança “Duas Formações, Uma História”

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Entrevista: Luís Augusto Fischer lança “Duas Formações, Uma História” Foto: Tom Silveira

Lançamento da Arquipélago Editoral, Duas Formações, Uma História é o novo livro do professor Luís Augusto Fischer. Com o subtítulo Das Ideias Fora do Lugar ao Perspectivismo Ameríndio, a obra investiga a historiografia da literatura brasileira, propondo um modelo de compreensão abrangente que dialoga com a história social do país. Hoje (2/9), às 19h, uma live reúne Fischer e os professores Guto Leite (UFRGS), Thiago Nicodemo (Unicamp) e Alfredo Cesar Melo (Unicamp) para debater a publicação.

Capa de “Duas Formações, Uma História”

O livro é fruto da tese de pós-doutorado de Fischer na Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3, realizado entre 2014 e 2015. Embora seja uma obra de fôlego, Duas Formações… oferece uma leitura acessível de suas 400 páginas, para além dos leitores especializados. Na primeira parte do livro, ao elencar os diferentes debates em torno da viabilidade e do sentido de se escrever sobre uma história da literatura, Fischer observa que “problemas não faltam” e propõe:

“O ensaio vai tratar de enunciar um modelo de descrição historiográfica para a literatura produzida no Brasil, em particular para o romance e outras formas de narrativa, sem porém descartar totalmente os demais gêneros literários e os gêneros discursivos em geral, numa visada que pretende ter validade para o largo período histórico que vem desde os começos da colonização até uma geração atrás, no final do século 20”, escreve Fischer que é professor de Literatura Brasileira na UFRGS, editor da revista Parêntese e cofundador do Grupo Matinal Jornalismoleia a entrevista a seguir.

“Por pretensioso que pareça (e seja), o estudo considera ser possível estabelecer linhas dominantes para tal processo, expressas num gradiente cujos polos estéticos, ou cujas máximas realizações, são Machado de Assis e Guimarães Rosa: Machado, fina flor do espaço histórico da plantation, e Guimarães Rosa, suprassumo do mundo do sertão”, completa o autor na página 23 da obra.

Na segunda parte de Duas Formações…, Fischer comenta modelos de história da literatura brasileira consagrados, com destaque para sua visão das virtudes e limitações das obras de Antonio Candido e Roberto Schwartz – o último, autor da expressão “ideias fora do lugar” abordada por Fischer desde o subtítulo do livro.

Intitulada “Abertura do horizonte historiográgico”, a terceira parte da tese propõe outras maneiras de pensar a história da literatura, a partir de autores como Franco Moretti, Ángel Rama, José Hildebrando Dacanal, Mikhail Bakhtin e Stephen Jay Gould. Também explora entendimentos sobre o país, refletindo sobre as contribuições do conceito de perspectivismo ameríndio e de outras questões elaboradas pelos antropólogos Aparecida Vilaça, Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze de Lima.

Na quarta e última parte, Fischer delineia os contornos que situam a produção literária brasileira de diferentes épocas nos contextos do sertão e da plantation, bem como as trocas e choques entre essas paisagens sociais, econômicas e literárias.

“No livro eu tento mostrar que essas duas formações históricas não são estanques, elas têm vasos comunicantes, e do encontro entre elas – às vezes fluente e orgânico, às vezes atritado e mesmo explosivo – saem coisas sensacionais e díspares, por exemplo o Modernismo de Mário de Andrade, a obra da Carolina Maria de Jesus, a Tropicália. É uma ideia de abrir a lente da história da literatura para todas essas realidades que literariamente estão já dadas, mas que não se explicam pelos conceitos europeus aqui aclimatados”, comenta o professor Fischer na entrevista a seguir.

Fischer, antes de percorrermos as quatro partes que estruturam o livro, gostaria que você comentasse as motivações para a elaboração da tese. 

Eu cursei Letras e História (sem conseguir me formar nesta, porque já dava aulas e o tempo era curto), de forma que desde a juventude eu mantenho uma espécie de atenção dupla para o meu objeto, que é a literatura. Eu leio, dou aulas, faço resenhas e comentários, sempre sobre a literatura (basicamente a brasileira), e ao mesmo tempo a considero como parte do processo histórico. Também desde sempre tento me manter acompanhando de perto o debate historiográfico, ao lado do literário. Então posso dizer que desde sempre eu estou pensando no material que resultou nesse livro agora. Tive há poucos anos a grande sorte de poder passar um ano inteiro no exterior, estudando, depois de maduro, e então me ocorreu claramente a ideia de formular minhas ideias numa tese, que apresentei para a promoção à condição de professor titular. Quer dizer: vontade, experiência e boas condições objetivas. Espero não ter desperdiçado tudo isso.

A primeira parte do livro apresenta alguns dos muitos problemas enfrentados por quem se propõe a refletir, de modo mais conjunto e abrangente, sobre a história da literatura de um país. A começar pelas questões em torno do que se entende por “literatura” e, no nosso caso, “brasileira”. Por que essas duas palavras – e as duas juntas – são tão problemáticas?

Por muito tempo e a rigor até hoje é comum pensarmos, aqui no Brasil, que literatura brasileira é um horizonte suficiente, uma espécie de âmbito total, quando a gente sabe que a brasileira é uma gota no oceano da literatura como um todo. Os programas de ensino escolar no Brasil são quase cem por cento estruturados com literatura brasileira, e isso é herança tanto do Romantismo, que consolidou a ligação entre cultura e identidade nacional, quanto do Modernismo de Mário de Andrade, igualmente empenhado nessa visão de construir o país ao fazer literatura. A perspectiva do Mário é a visão dominante sobre o que seja modernismo e por isso suas ideias precisam ser arguidas. (A palavra “modernismo” tem muitos significados, mas no Brasil ela parece ser apenas a designação daquilo que São Paulo apresentou ao mundo na Semana de Arte Moderna de 1922.) Esse modernismo de Mário, também ele nacionalista, comanda os programas de ensino. Acaba que, entre nós, quando se pensa “literatura” se costuma pensar “literatura brasileira”, quer dizer, feita no Brasil e por brasileiros. Essa espécie de isolacionismo é naturalizada, contra as evidências de que, por exemplo, a produção literária no Brasil desde sempre contou com muita literatura traduzida de outras línguas, coisa que só agora começa a aparecer no horizonte da escola brasileira. Então tem essa discussão, que procuro fazer no livro: a palavra literatura deveria nos abrir a percepção para muito além das fronteiras nacionais, oferecer Shakespeare e Cervantes e Kafka na escola, por exemplo. (Estou empenhado já há alguns anos na coordenação de uma história da literatura no Rio Grande do Sul, e na escolha dessa preposição “em”, e não “de”, vai toda essa percepção, que quer desnaturalizar, desessencializar a relação entre a produção literária e a construção da identidade.)

Na parte 2, os trabalhos de Antonio Candido e Roberto Schwarz ganham destaque. De que forma esses autores contribuem para as reflexões do livro?

Eles são os pensadores de literatura mais importantes na minha formação, entre os brasileiros, ao lado de alguns poucos outros (como um professor meu, daqui da UFRGS, José Hildebrando Dacanal, cujas ideias eu também estudo no livro). Isso me levou, ao longo dos anos, a estudá-los em detalhe, a confrontá-los com problemas novos, alguns dos quais eles nem conheceram, porque, como todo mundo, eles responderam a problemas de seus tempos históricos. Neste livro eu por assim dizer meço a obra e as ideias deles pelo debate historiográfico mais recente, e portanto eu submeto os fundamentos de seu pensamento a uma nova leitura do Brasil. O resultado é que, reconhecendo minha dívida para com eles, eu procuro encontrar os limites de sua percepção, para avançar. Particularmente eu discuto com muito detalhe a consagrada tese das “ideias fora do lugar”, do Schwarz, que, vista de agora, me parece falha em alguns traços essenciais – gasto umas 7 páginas nesse tema. 

[Continua...]

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