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Morte Sul Peste Oeste

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Morte Sul Peste Oeste André Timm. Foto: Felipe Ballin

Com a vida devastada pelo terremoto que colocou o Haiti abaixo em janeiro de 2010, Dominique atravessa o continente até desembarcar em Chapecó, Santa Catarina, com uma promessa de emprego na linha de corte de um frigorífico. Na mesma cidade, Brigite, uma menina transexual de 13 anos, enfrenta a crueldade de seu cotidiano familiar e o preconceito dos colegas de escola.

Sobreviventes de suas circunstâncias, Brigite e Dominique são os protagonistas do livro Morte Sul Peste Oeste, do escritor André Timm, lançado neste ano pela Editora Taverna – leia um trecho da obra ao final da entrevista com o autor.

Capa de “Morte Sul Peste Oeste”. Foto: Editora Taverna

“É preciso um esforço diligente da parte de todos para que o nosso quadro de autores (e de personagens) se torne cada vez mais diverso. Quantos personagens haitianos temos no mosaico de publicações no Brasil? Quantos autores haitianos? Quantos personagens e autores trans?”, questiona Timm, que em 2017 publicou seu primeiro romance, Modos Inacabados de Morrer (Editora Oito e Meio), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura do mesmo ano e traduzido para o italiano. Natural de Porto Alegre e radicado em Chapecó desde 2004, o escritor venceu o prêmio Off Flip da Festa Literária Internacional de Paraty em 2018. 

Em que pese a aspereza do dia a dia dos protagonistas de Morte Sul Peste Oeste – e a proximidade com a qual Timm os acompanha e apresenta –, a narrativa flui com leveza. Ao longo de 192 páginas, com uma construção cuidadosa e nada condescendente dos personagens, o autor apresenta as táticas que Dominque e Brigite desenvolvem para seguirem vivos em um contexto trans e xenofóbico.

O escritor baiano Itamar Vieira Junior aponta: “Com rara habilidade, Timm traz para o centro da literatura brasileira contemporânea os que vivem à margem da nossa própria literatura. Ele, através de sua escrita precisa e elegante, dá voz a personagens que possivelmente encontramos em nossas cidades, mesmo que muitos finjam não ver, ou que ao serem vistos tenham a si destinados os piores preconceitos”.

“André Timm concebe dois protagonistas pelos quais é difícil não se apaixonar. Aqui, contendo passagens de grande sensibilidade, um romance que entrelaça buscas e riscos, que explicita dores permanentes a que muitos são condenados, mas também dois fluxos narrativos singulares, duas jornadas dignas de atenção, dois polos-siameses de uma mesma redenção”, analisa o escritor Paulo Scott.

Leia a entrevista com André Timm:

Nos conta um pouco sobre o processo de criação de Morte Sul Peste Oeste. Quando você escreveu o livro, como você chegou à trama e como foi o contato com a Editora Taverna?

Morte Sul Peste Oeste é um romance sobre as diferentes fronteiras, reais ou metafóricas, que alguns de nós precisam cruzar ao longo da vida. A questão dos imigrantes está intimamente relacionada a isso, algo que ganhou contornos ainda mais dramáticos nos últimos tempos. O ponto de partida para a trama do romance vem da experiência de viver em uma cidade que é o destino de inúmeros haitianos que miram o Oeste Catarinense em busca de trabalho nas linhas de cortes dos grandes frigoríficos da região. O livro foi escrito ao longo dos anos de 2018 e 2019 e, embora eu já conhecesse a Taverna e seus editores [André Günther e Ederson Lopes], o processo de aproximação se deu, em grande parte, graças a um amigo em comum, e também autor da casa, Rodrigo Tavares, que conhecia a história e acreditava que ela guardava relação com a proposta editorial da Taverna. 

Você apresenta a história trágica de Dominique no terremoto devastador que atingiu o Haiti em 2010 e sua jornada de sobrevivência rumo ao sul do Brasil. Como foi a pesquisa para a construção desse personagem?

Foram inúmeras instâncias e modalidades de pesquisa. Primeiro, um aprofundamento sobre o trágico terremoto que acometeu o Haiti em 2010, e que é o próprio ato que desencadeia o processo de migração em massa no país. Também, o mergulho no universo dos frigoríficos, das linhas de corte, através de artigos e documentários que abordam o tema. E ainda as entrevistas. Tive a oportunidade de entrevistar um haitiano cuja trajetória é muito semelhante a de Dominique. São fragmentos que vêm de diferentes lugares e que vamos amalgamando na esperança de construir personagens verossímeis e uma história crível. 

Algumas das passagens mais marcantes do livro dizem respeito às condições de trabalho desumanas no frigorífico onde Dominique é explorado. Você detalha aspectos de extrema crueldade presentes na rotina desse tipo de espaço – do temor do “vareio”, quando o ritmo da esteira vence o dos empregados, à deterioração dos corpos dos funcionários. Gostaria que você comentasse como abordou essas questões.

Uma enorme parte do que narro em relação ao trabalho nos frigoríficos se baseia em fatos reais. É claro que, por se tratar de uma história de ficção, há trechos em que exagero nas tintas para fins dramáticos, mas de fato é um trabalho com consequências severas para quem se dedica a ele por muito tempo nas linhas de corte. Recomendo o documentário Carne e Osso [de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, 2011], disponível gratuitamente no YouTube. Nele, é possível, por exemplo, ver os próprios funcionários falando sobre o “vareio” e sobre as doenças decorrentes desse tipo de trabalho.  

Grande parte do livro se passa na cidade de Chapecó (SC), onde você vive atualmente. Nos conta um pouco sobre essa ambientação e a relação discriminatória e persecutória dos habitantes da cidade com os imigrantes.

Nós vivemos tempos estranhos em que muitas pessoas não se constrangem mais em exteriorizar opiniões de cunho racista ou xenofóbico. Isso reflete muito da postura que uma parcela considerável da população tem em relação aos imigrantes. Durante a escrita do romance, fui salvando alguns comentários feitos acerca de imigrantes por moradores de Chapecó. Creio que o conteúdo fala por si [veja a seguir]. E para além disso, convém lembrar que Bolsonaro foi o mais votado em 266 das 295 cidades de Santa Catarina. Em Chapecó, ele obteve quase 65% dos votos. Embora eu não queira afirmar que todo eleitor de Bolsonaro seja xenófobo, é fato que muitos de seus seguidores endossam posicionamentos como esse e inclusive o admiram por isso.

Outro eixo da narrativa apresenta Brigite, uma menina transexual de 13 anos. Como foi a construção dessa personagem, que traz toda a complexidade das questões de gênero na adolescência?

A construção de Brigite foi igualmente pautada em muita pesquisa sobre a transexualidade. O embrião da personagem vem de um conto escrito em 2015. Ao pensar no romance, e na condição de Dominique como imigrante, percebi que Brigite poderia ser a protagonista perfeita para a história que corre paralela a de Dominique. São, afinal, dois imigrantes, em uma terra estranha e em um corpo estranho. Foi uma pesquisa a que me dediquei com muito senso de responsabilidade. Embora eu não concorde que deva haver, na ficção, questionamentos sobre lugar de fala, sei que nunca vou entender o que é a transexualidade com a mesma propriedade de quem é, de fato, transexual. Portanto, sabia que precisava me valer de todas os meios possíveis para tentar construir uma personagem o mais próxima possível da realidade. O romance passou, por exemplo, pela leitura sensível de uma mulher transexual, o que ajudou a ajustar pontos que pediam atenção. 

Em Brigite, chamam a atenção suas táticas de sobrevivência, que incluem o uso das redes sociais para se proteger e se afirmar em contextos violentos. Gostaria que você comentasse esse aspecto da personagem.

Brigite é uma menina de treze anos em uma narrativa situada no tempo presente. Creio que seria esperado, e portanto verossímil, pensar que uma menina dessa idade usaria as redes sociais para se afirmar. Há que se considerar a personalidade combativa da personagem também. Brigite é aguerrida, não baixa a cabeça, não se deixa intimidar. Tudo isso vai endossando esse modo de ser e essas táticas das quais Brigite vai se valendo para transpor as inúmeras dificuldades e violências as quais é submetida.   

Por fim, na orelha do livro, o escritor Itamar Vieira Junior aponta que você “traz para o centro da literatura brasileira contemporânea os que vivem à margem da nossa própria literatura”. Como você enxerga essa leitura?

Creio que se pensarmos em proporção, o apontamento de Itamar se prova. É preciso um esforço diligente da parte de todos para que o nosso quadro de autores (e de personagens) se torne cada vez mais diverso. Quantos personagens haitianos temos no mosaico de publicações no Brasil? Quantos autores haitianos? Quantos personagens e autores trans? No montante, certamente, poucos.  

Leia um fragmento de Morte Sul Peste Oeste:

O relógio marca meio-dia e quarenta e cinco e Dominique e os demais são, oficialmente, os mais novos contratados do frigorífico, todos prestes a estrear no turno da tarde. Com duas horas de treinamento, eles estão quase aptos a realizar uma série de tarefas que, de tão repetidas, mesmo que daqui a algumas semanas eles saiam e jamais voltem a uma linha de corte em toda sua vida, ainda assim, jamais esquecerão os movimentos que farão a partir de agora. Quase aptos, porque, nos primeiros dias, revezarão com funcionários mais experientes. De dez em dez minutos, assumem a posição. Se desempenharem bem, logo são realocados em um posto só deles. Se forem mal, o mais experiente rapidamente reassume o posto a ponto de não deixar que o trabalho acumule. Em quinze segundos, são executados dezoito movimentos diferentes. Até cento e vinte movimentos por minuto. E mesmo a essa velocidade, os cortes devem ser precisos, sem rasgar a pele da ave. A esteira não para e não diminui a velocidade, exceto em ocasiões em que haja a visita de compradores e, especialmente, de fiscais. Se por um lado, a esteira raramente diminui, em momento de alcance de metas ela costuma aumentar a velocidade. Tendinites. Hérnia de disco. Cotovelos. Pescoço. Ombros. Plexo nervoso. Lesões de punho. Cedo ou tarde, a esteira vence, é só questão de tempo. Sendo assim, a rotatividade de funcionários também é altíssima. A história natural da doença faz com que a medicina do trabalho use essa distância entre o início do emprego e o início da doença como tempo de troca de pessoal. [Morte Sul Peste Oeste, de André Timm, páginas 52-53]

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