Entrevista, Literatura, Reportagens

Paulo Scott volta a reger sua orquestra literária

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Paulo Scott volta a reger sua orquestra literária Foto: Renato Parada/Divulgação

Idealizado em 2008 pelo escritor Paulo Scott quando estava radicado no Rio de Janeiro, o projeto O.LIT. Orquestra Literária, concretizado em parceria com o músico Flávio Flu Santos, combinava literatura – trechos de prosas e poesias, sobretudo poesia – com bases rítmicas, melódicas, ruídos, resultando em uma performance de palco em que se alternam leitura, canto, música, audiovisual produzido e editado especialmente para o projeto.

O projeto, conduzido por Scott e Flu, teve sua estreia em 2009, em dois dias de apresentação realizadas na cobertura do Sesc Avenida Paulista. Participaram da performance a atriz Fernanda D’Umbra, os escritores João Gilberto Noll e Michel Laub, o ator Rodrigo Penna, a cantora Simone da Costa Carvalho e a escritora Veronica Stigger. Composto por 16 peças em torno de dois minutos cada uma, misturaram-se à escrita de Paulo Scott versos e trechos de prosa de poetas e prosadores brasileiros contemporâneos.

Retomado no início de 2019 – e sem abandonar a pesquisa e as combinações de trechos de obras autores nacionais da atualidade –, o O.LIT. Orquestra Literária combinou poemas de Paulo Scott com a música de Flávio Flu Santos e Marcelo Fornazier, resultando em cinco peças. São cinco músicas – Personagens de Morgana, Labirinto Gamboa, Marlon Brando, Festa e Exu Mário Quintana –, que a partir deste sábado (26/6) serão disponibilizadas em todas as plataformas de streaming de áudio. A ideia do trio é, assim que a pandemia passar, apresentar esse repertório ao vivo, com a presença de convidadas e convidados, junto de algumas das 16 peças do início do projeto, em performances de palco e de rua. 

Reprodução

Porto-alegrense radicado em São Paulo, Paulo Scott é uma das mais instigantes vozes da literatura brasileira contemporânea. É autor de sete livros de poemas e seis de prosa. Seus trabalhos já foram publicados em Portugal, Inglaterra, China, Estados Unidos, Alemanha, Croácia, México, França e Argentina.

Em 2007, os contos de Ainda Orangotangos foram adaptados pelo diretor Gustavo Spolidoro, que encadeou as histórias em um longa-metragem feito de um único longo plano-sequência. O romance Habitante Irreal, publicado em 2011, ganhou o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, enquanto o aclamado Marrom e Amarelo, de 2019, levou o Prêmio Açorianos de Literatura do ano passado. Em parceria com o desenhista Rafael Sica, lançou neste ano pela Companhia das Letras a graphic novel Meu Mundo Versus Marta.

Na entrevista a seguir, Paulo Scott comenta sobre o O.LIT. Orquestra Literária e seus parceiros de projeto, destaca a qualidade e pluralidade da nova literatura brasileira e analisa o racismo estrutural do país, tema central em Marrom e Amarelo: “O racismo brasileiro vai se manter forte, quase absoluto, desumanamente agressivo por décadas, para a maioria da população é quase eterno, e, infelizmente, ainda servirá de trágico cenário para muitas narrativas e por muito tempo no futuro”.

Como é essa nova versão do projeto O.LIT. Orquestra Literária?

Retomamos, eu e o Flávio Flu Santos – desta vez com o gênio Marcelo Fornazier – a proposta de combinação de fragmentos de poesias com música e imagens. No O.LIT. Orquestra Literária sempre esteve a mistura de poesia, eventualmente prosa, de várias autoras e autores brasileiros contemporâneos, como, por exemplo, Angélica Freitas, Antonio Cicero, Bruna Beber, Diego Grando, com textos meus e costuras minhas com bases musicais produzidas pelo Flu e vídeos meus. Nessa retomada, não abandonamos a mixagem, mas decidimos recomeçar por fragmentos de poesias minhas.

Como funciona sua colaboração criativa com os músicos?

Apresento os textos, explico o que está proposto e subvertido em cada um deles, e escolhemos juntos. Na música, eu interfiro muito pouco – fico limitado a dizer se acho que está funcionando ou não o que eles propõem. Há uma sinergia de anos entre nós três, Fornazier já participou de apresentações da Timidez do Monstro, que é uma banda meio mutante que, sempre com a participação fundamental do Flu (sem ele nada acontece), vem me acompanhando há anos.

Flávio Flu Santos e Paulo Scott. Foto: Cristine Rochol/Divulgação

Vocês pretendem retomar o projeto ao vivo? Como seria?

Sim, já temos inclusive shows agendados para o final do ano aqui em São Paulo, caso, é claro, haja condições sanitárias para que aconteça. A ideia é retomar a ideia de combinação de linguagens: leitura, canto (com cantoras e cantores convidados), música (cordas, bases eletrônicas, ruídos), audiovisual produzido e editado por mim especialmente para o projeto.

Como você avalia a boa recepção da crítica e dos leitores que sua obra vem recebendo, especialmente o romance Marrom e Amarelo?

Escritores não têm controle sobre os desdobramentos de seus trabalhos. Escolhi um caminho que começou pela inesperada boa repercussão do Ainda Orangotangos, no Sul e no resto do país, e segui em frente tentando não fazer concessões – é sempre um processo de risco e, nesse sentido, é sempre teimosia. São, em último plano, as leitoras e leitores que decidem se o que foi produzido deverá ecoar ou não. Meu livro mais analisado, traduzido, premiado ainda é o Habitante Irreal, que foi considerado, à época de seu lançamento, por João Gilberto Noll e Cristóvão Tezza, um marco na produção literária brasileira do século 21. Penso que ali, naquele momento, consolidei uma voz pública, uma singularidade, uma estranheza narrativa, que se mantém até hoje, muito mais pelos incômodos que provoca (e antecipa) do que pelas adesões afetivas e agraciamentos. Marrom e Amarelo – livro que contratei com a editora lá em 2012, a propósito – é só mais um momento na caminhada que neste ano completa 20 anos.

Por falar nesse livro, Marrom e Amarelo é mais um título a abordar o racismo estrutural no Brasil, tema cada vez mais presente na literatura produzida no país. Como você analisa o atual interesse por essa temática na ficção e na poesia?

Como cheguei a dizer a meus editores – quando me perguntaram, acho que lá em 2014, sobre o tempo que eu ainda imaginava levar na escrita do livro –, o racismo brasileiro vai se manter forte, quase absoluto, desumanamente agressivo por décadas, para a maioria da população é quase eterno, e, infelizmente, ainda servirá de trágico cenário para muitas narrativas e por muito tempo no futuro. Penso que isso tudo acontecendo de cinco anos para cá se deve ao esgotar de uma negligência do olhar, do não querer olhar e não querer enxergar, que é só uma das partes dessa máquina perversa, dessa tecnologia tão bem desenvolvida, dessa doença coletiva que chamamos de racismo estrutural brasileiro. Não penso muito no que se coloca sob evidência ou não, conto o que acho que devo contar – minhas personagens sempre foram geradas sob essa perspectiva –, não tento pensar demais a respeito sobre o que funciona e quando funciona, minha preocupação primeira é narrar boas histórias.

A literatura brasileira vem se renovando nos últimos anos com o surgimento de novos nomes, tanto na prosa quanto na poesia. Quais são os autores e autoras jovens que têm lhe chamado a atenção?

Essa é a graça do processo: o novo sempre vem, abala e reestabelece em novo rumo os entendimentos, os parâmetros, rechaça as cegueiras. Como me esforço para acompanhar com atenção a novíssima produção literária brasileira, não arriscaria listar nomes, eleger, são muitas autorias promissoras, muitas lentes inesperadas, muita coisa boa. Os nomes se renovaram aí no Rio Grande do Sul, confirmando a força de nossa produção literária, já reconhecida e celebrada nacionalmente, o que é bom, é ótimo, e se renovam também no resto do país, sobretudo em espaços que não tinham uma quantidade notável, escrutável, de autoras e autores, como está acontecendo agora nas regiões Norte e Centro-Oeste. É um quadro instigante.

Você lançou recentemente uma graphic novel com o quadrinista Rafael Sica e seu livro de contos Ainda Orangotangos virou filme há alguns anos. Como é a sua relação com outras linguagens narrativas? Há alguma iniciativa de adaptação de seu trabalho em andamento atualmente?

Rafael Sica é um gênio escrevi a história para ele, e ele contou, desenhou a história que quis contar. Estou bastante feliz com a concretização desse trabalho. A adaptação dos contos do Ainda Orangotangos foi uma sorte porque ele é um cineasta sério e talentoso: o filme permanece no imaginário das pessoas, o que é muito bom. Penso que sou um cara das combinações, o Paulo Scott poeta e prosador, o romancista, é só um pedaço da equação, do caos geral. Sou um músico frustrado, um desenhista frustrado, um cineasta frustrado, minha literatura é uma forma de lidar e me comunicar com as versões de Paulo Scott que não consegui ser. No momento estou focado em concretizar a graphic que fiz com o Eduardo Medeiros, a Não me Mande Flores. Vamos ver o que acontecerá.

Quais são seus próximos projetos?

O romance Rondonópolis, pela Alfaguara, e o Direito Antifascismo Brasileiro, pela Companhia das Letras. 

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