Literatura, Notas

Primeiro livro de Rafael Gonzaga usa como tema a arte iorubá para falar de amizade

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Primeiro livro de Rafael Gonzaga usa como tema a arte iorubá para falar de amizade Foto: Bruna Monique/Divulgação

Num mundo paralelo, a única entidade possível de vagar entre Orún e Ayé é Exu. Mas ele precisa de ajuda para libertar o axé dos orixás que não conseguem se lembrar de sua força. Para isso, recorre ao menino de 12 anos, Pablo, que utiliza sua curiosidade e seu Orí para encontrar o Opon Ifá e ajudar Exu nesta jornada. A dupla irá enfrentar grandes desafios na terra dominada pelo francês e ex-soldado Senhor Picot e suas Maximes.

Não entendeu nada? É por que você ainda não leu o livro A Jornada de Pablo, do escritor Rafael Gonzaga, publicado pela editora Lyra das Artes. O livro tem 128 páginas, está em pré-venda e sai por R$ 39,90.

Na obra dedicada ao público infantojuvenil, o escritor apresenta o curioso Pablo, inspirado no famoso pintor espanhol Pablo Picasso, que também teve uma jornada transformadora, quando visitou uma exposição de Arte Africana no Museu do Homem em Paris (França), em 1905 e que lhe inspirou a criar um novo movimento na arte, o Cubismo.

O mesmo acontece na história com o menino Pablo. A aventura começa quando ao visitar o museu criado pelo Sr. Picot com o seu tio-avô, Pablo descobre uma misteriosa fenda, que o leva para as profundezas dos rolos fotográficos do velho francês, Sr. Picot. Ele é guiado por Exu, aqui representado por um menino travesso e muito esperto, que explica a Pablo todas as diferenças e curiosidades da cosmogonia iorubá, que são novidades para Pablo.

A opção de representar Exu criança, – orixá da comunicação e da linguagem, que atua como um mensageiro entre os mundos dos humanos (Orún) e das divindades (Ayé) -, foi para a aproximar os leitores dessa entidade que é tão mal vista aqui no Brasil por ter sua imagem associada ao demônio ou “coisa ruim”.

— Historicamente falando, quando missionários ingleses ingressaram em África, na região hoje conhecida como Nigéria, ao notarem as características brincalhona e pregadora de peças de Exu, eles rapidamente a associaram ao diabo. Esse não é um processo exclusivo da África. A presença religiosa no Brasil desde a época em que o país era uma colônia de Portugal também pode explicar essa má compreensão de Exu que perdura até hoje — conta Rafael.

Outra personagem que também é inspirado no mundo real, é o Sr. Picot. O velho soldado francês lutou em guerras e foi um dos exploradores do continente africano. Na trama, Sr. Picot tem duas armas, uma máquina fotográfica e um robô, a Maxime, inspirada nas metralhadoras MAXIM, usada em muitos países da África e que representam a colonização europeia no continente. Foi daí, que veio a inspiração para o soldado aposentado, que é uma representação da mentalidade do colonizador ocidental, que mede o mundo a partir de sua própria régua e padrões, mesmo trato que se dá para as obras de artes que encontra em suas explorações.

Para ilustrar o livro, Rafael Gonzaga convidou a ilustradora e designer Poliana Fernandes. Feitas em aquarela e depois digitalizadas, as cenas que a ilustradora apresenta trazem uma nova dimensão à história. Durante o processo, Poliana mergulhou no trabalho do pintor argentino naturalizado brasileiro, Hector Julio Páride Bernabó, conhecido como Carybé e famoso por suas imagens da Bahia e nas estátuas Ibeji.

Ibeji são esculturas que replicam a imagem de irmãos gêmeos, pois os iorubas acreditam que os gêmeos compartilham a mesma alma, assim, quando nasce filhos gêmeos, é necessário encomendar um par de figuras Ibejis e caso um dos filhos morra, a figura da criança falecida é substituída pela escultura, que é ritualmente alimentada ao mesmo tempo que a criança sobrevivente.

Rafael Gonzaga, 35 anos, escritor e historiador com mestrado e doutorado sobre as cosmogonias e arte africanas e a concepção de África imaginada pelas vanguardas europeias. Professor do ensino básico, encontrou uma interlocução muito sensível com crianças e adolescentes, apostando nesses jovens leitores a construção de novos conhecimentos sobre as áfricas.

Além disso, fez parte do Coletivo Afreaka, que tem um importante papel de divulgação da cultura africana. Atualmente trabalha com curadoria e produções audiovisuais.

Capa. Foto: Divulgação
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