Entrevista, Literatura, Reportagens

“Risque Esta Palavra”: Ana Martins Marques espia a morte vivendo

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“Risque Esta Palavra”: Ana Martins Marques espia a morte vivendo Foto: Rodrigo Valente

Uma das vozes de maior destaque da poesia brasileira contemporânea, a mineira Ana Martins Marques lançou em junho Risque Esta Palavra (Companhia das Letras). Dividido em quatro partes – “A Porta de Saída”, “Postais de Parte Alguma”, “Noções de Linguística” e “Parar de Fumar” –, o livro é o sétimo da poeta, vencedora dos prêmios Biblioteca Nacional de Literatura, com Da Arte das Armadilhas (2012), e Oceanos, com O Livro das Semelhanças (2016).

Capa de “Risque Esta Palavra”

Meu amigo,
quase já não escrevo
passo o dia sentada em algum lugar
olhando florescer qualquer coisa que esteja
posta diante dos olhos
com isso já vi morrer uma pedra
e um cachorro enforcar-se
numa nesga de sol
[…]

A interlocução e o luto presentes na abertura do livro adquirem outras formas logo a seguir. Versos em torno da invenção de uma religião vislumbram um Natal que só celebra o que nasce/ do sexo/ para morrer/ de fato, enquanto o poema seguinte pontua: restará a cinza dos seus caprichos/ as coisas tolas sobre você/ de que se lembrarão seus conhecidos mais novos.

Na sequência, em Finados, deparamos com uma espécie de resposta da vida aumentando-nos a fome/ a vontade de cerveja/ e condimentos/ o desejo de gastar o dia ao sol. O poema ainda provoca o leitor ao perguntar: Quem sabe tudo o que morreu com quem morreu?, Quem sabe o que essa morte trouxe à vida? As questões dialogam com a epígrafe do poema, na qual o escritor italiano Giuseppe Ungaretti (1988-1970) afirma, em tradução ao português, que A morte se expia vivendo – verso adaptado para o título deste texto.

Reflexões sobre o potencial inventivo das traduções e da linguagem, a propósito, fazem parte de Risque Esta Palavra:

Somos como duas línguas estrangeiras
em contato
influenciando uma à outra
fazendo empréstimos e trocas há tanto tempo
que nem sempre se sabe quem tomou emprestado
de quem
como é comum entre amantes
que compartilham uma biblioteca
duas línguas cheias de palavras
que se escrevem de forma idêntica
e se pronunciam de forma ligeiramente diferente
[…]

As cartografias poéticas de Ana Martins Marques, presentes em livros anteriores da autora, fundam seu espaço na seção “Postais de Parte Alguma”:

Fazer as malas é tarefa impossível:
aquele que ainda não partiu
tem que colocar na mala
aquilo de que precisará
aquele que vai chegar
a terra prometida a um
será no entanto entregue
a outro

As camisas que não cabem
empilhadas sobre a cama
servem perfeitamente
naquele que vai partir
mas deverão vestir
aquele que vai chegar

A passagem comprada por um
será usada por outro
e de seu próprio álbum de família
olharão para ele
parentes de outra pessoa

Quem está de partida
arruma a mala
de um desconhecido

Na seção final, intitulada “Parar de Fumar”, a poeta relembra fotos da polonesa Wisława Szymborska (1923-1912) e narra instantes em torno da imagem do cigarro: deixo agora o cigarro/ como um Ícaro/ que aposentasse as próprias asas/ como se com isso me pusesse/ fora do círculo da queda.

A publicação de Risque Esta Palavra é acompanhada pelo relançamento pela Companhia das Letras de A Vida Submarina, primeiro livro de Ana Martins Marques, publicado originalmente em 2009 pela Scriptum. Nascida em Belo Horizonte, em 1977, a escritora é doutora em literatura comparada pela UFMG. Em 2020, teve poemas adaptados para música e vídeo em Ensaios de Morar, iniciativa desenvolvida pelo Projeto Concha e pelo Instituto de Cultura da PUCRS.

Leia a entrevista com Ana Martins Marques.

Ana, quando os poemas de Risques Esta Palavra foram escritos e como você chegou à seleção que compõe o livro?

Risque Esta Palavra está sendo lançado seis anos após a publicação d’O Livro das Semelhanças. Entre os dois, houve três outras publicações: Duas Janelas, escrito em dupla com o poeta Marcos Siscar e publicado pela Luna Parque, Como se Fosse a Casa, escrito em parceria com o poeta Eduardo Jorge e lançado pela Relicário Edições, e O Livro dos Jardins, publicado pela editora Quelônio. Essas publicações tinham um caráter um pouco singular, já que nasceram de um projeto ou de um convite. Risque Esta Palavra reúne poemas que eu vim escrevendo ao longo de vários anos e, nesse aspecto, está mais próximo de uma coletânea de poemas. No momento de organizar o livro, porém, houve todo um processo de seleção, composição e montagem, praticamente um novo processo de escrita. As partes em que o livro se divide, com exceção da última, que é mais propriamente temática, foram surgindo da convivência e do diálogo entre os textos.

O livro está dividido em quatro partes: a primeira, intitulada “A Porta de Saída”, é mais aberta, e tem desde poemas de amor até poemas atravessados pela questão do luto e da perda. A segunda, “Postais de Parte Alguma”, reúne poemas que giram em torno do tema dos lugares e das viagens. A terceira, “Noções de Linguística”, abrange textos relacionados com a questão da língua, da linguagem, da tradução. A última, “Parar de Fumar”, como o nome indica, toma como mote a imagem do cigarro e o hábito de fumar (e de parar de fumar).

Na primeira parte, a passagem do tempo e a morte ganham evidência. Ao mesmo tempo, versos dão conta da vida armando sua vingança – para citar um verso de Finados. Poderia nos falar um pouco sobre essa seção?

Não tinha planejado escrever um livro tão marcado pela questão da morte e do luto. Fui me dando conta dessa dimensão aos poucos, à medida que organizava os poemas no livro. Por um lado, conforme envelhecemos, naturalmente vamos nos dando conta de forma mais acentuada das perdas e da passagem do tempo, que parece passar cada vez mais rápido. Por outro, sem dúvida essa percepção tem também relação com as muitas perdas coletivas por que estamos passando, com o momento de luto social que estamos vivendo. Mas acho que o livro traz também uma dimensão afirmativa da vida, que pode ser sintetizada nos versos incríveis do Ungaretti que eu usei como epígrafe de um dos poemas: a morte/ se expia/ vivendo.

No blog da Companhia das Letras, ao comentar Risque Esta Palavra, a poeta Marília Garcia chamou atenção para endereçamentos, como o vocativo “Meu amigo”, no poema de abertura. Nessa direção, incluiria os diálogos que você estabelece com outros autores. Como você enxerga esse aspecto das interlocuções presentes no livro?

Em todos os meus livros há poemas que dialogam de algum modo com outros textos e autores. Acho que a literatura é mesmo essa espécie de “conversação infinita”, em que os textos se retomam, dialogam, estabelecem entre si as mais diferentes relações, se contrapõem, tomam coisas de empréstimo uns dos outros, ou mesmo roubam uns dos outros descaradamente. Em Risque Esta Palavra, as referências aparecem expressas em algumas epígrafes (de Philip Larkin, Ungaretti, Edna St. Vincent Millay, Roberto Bolaño…), mas também na retomada de alguns poemas de que eu gosto muito, como Consoada, do Manuel Bandeira; Em Creta, com o Minotauro, do Jorge de Sena; e Boêmia à Beira-mar, da Ingeborg Bachmann

A seção “Postais de Parte Alguma” remete a outros poemas seus que mencionam viagens e espaços geográficos, como nas cartografias de O Livro das Semelhanças. Poderia comentar o seu interesse por essas ambientações?

A série “Cartografias”, que está n’O livro das Semelhanças, traz poemas que giram em torno de mapas e lugares e que exploram o modo como os afetos, as memórias, os desejos formam e deformam nossa relação com os lugares. Vários desses poemas brincam com uma espécie de dupla dimensão dos mapas, que surgem ao mesmo tempo como representação do mundo e objeto que está no mundo, que pode ser dobrado, amassado, rasgado, aberto ao sol, esquecido na chuva. A seção “Postais de Parte Alguma”, de Risque Esta Palavra, traz desde poemas que se relacionam com lugares reais (Praia das Maçãs, Alter do Chão) até poemas que tratam, de forma mais geral, da ideia de viagem como dispositivo que nos afasta e aproxima dos outros e de nós mesmos.

 Os deslocamentos de “Postais…” parecem adquirir a forma do tradutor e do estrangeiro na terceira parte do livro, “Noções de Linguística”. Como você enxerga a relação dessas figuras com o fazer poético?

Interessante essa relação que você estabelece entre a questão da viagem e dos deslocamentos, que aparece na seção “Postais…”, e a questão da tradução, que é bastante presente na seção seguinte, “Noções de Linguística”. Não tinha me dado conta disso, mas, de fato, acho que os temas se conectam: na tradução está em jogo uma espécie de travessia entre línguas, que é também um jeito de “atravessar” até o outro.

Por fim, em “Parar de Fumar”, a partir de observações cotidianas em torno do cigarro – lembrei de acendo um poema em outro poema/ como quem acende um cigarro no outro, ao final de O Livro das Semelhanças –, a luz e o fogo emergem como elementos marcantes. Poderia nos falar um pouco sobre as reflexões dessa última seção?

“Parar de Fumar” é, como disse Richard Klein a respeito de seu livro Cigarros São Sublimes, “ao mesmo tempo uma ode e uma elegia ao cigarro”. Essa série começou a ser escrita, de fato, quando parei de fumar, há uns três anos, mas a partir daí ela foi se desdobrando, incorporando referências, citações, imagens. O cigarro, entre outras coisas, é um objeto literário (além de cinematográfico), entre outras coisas, talvez, porque nos coloca em contato com o fogo, mas também, provavelmente, por sua relação com a morte.

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