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Thiago Souza de Souza narra papel da imaginação e da escrita em processo de luto

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Thiago Souza de Souza narra papel da imaginação e da escrita em processo de luto Thiago Souza de Souza. Foto: Arquivo pessoal

Romance de estreia de Thiago Souza de Souza, Jamais Serei Seu Filho e Você Sempre Será Meu Pai convida o leitor a acompanhar um processo de luto que encontra na imaginação e na escrita uma forma de elaborar dores e inquietações. Lançado em 2021 pela Editora Taverna, o livro combina distintos tempos e vozes numa narrativa envolvente em torno da morte do pai do protagonista.

“Pai era algo que existia no mundo, existia para os outros, sempre havia existido e haveria de existir, mas algo que jamais poderia ser meu”, reflete o personagem principal, sem nome, que perdeu o pai aos três anos de idade. Aos poucos, ficamos sabendo que o óbito se deu por uma reação alérgica à dipirona durante uma internação hospitalar em fevereiro de 1993.

“Com distanciamento – foi assim que ele foi obrigado a viver a morte do pai. Não o distanciamento com que ele faz questão de ver as coisas hoje, que supostamente é bom e vem depois da palavra devido. Não, aquele distanciamento lhe foi imposto à força”, segue a narrativa. A partir daí, Souza costura com habilidade capítulos curtos que apresentam memórias de infância do protagonista – como o Dia dos Pais na escola, já lidando com a ausência paterna –, sessões de terapia e uma troca de cartas do filho com o pai morto.

Em uma das correspondências, o filho reflete: “Eu posso inventar uma história para você. Uma história em que você não é o vilão, que pelo menos mostre algumas qualidades suas. Não é possível que você tenha sido mau o tempo todo. Algo de bom você devia ter. Se não tinha, tudo bem, eu posso inventar, apesar de sentir raiva de você. (…) Era uma vez um homem, nem bom, nem mau – é assim que vou começar a escrever um novo pai para mim. Esse, sim, chamarei de pai”.

Na entrevista a seguir, Souza comenta o processo de escrita do livro, suas inspirações e elementos da narrativa como o encadeamento dos capítulos e as conversas do protagonista com o terapeuta. Porto-alegrense nascido em 1989, Thiago Souza de Souza é formado em Jornalismo pela PUCRS e, em 2013, participou da oficina de criação de literária coordenada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.

Thiago, nos conta um pouco sobre a concepção do livro.

Comecei a escrever Jamais Serei Seu Filho e Você Sempre Será Meu Pai em março de 2014, depois de ter participado do curso de criação literária do Assis Brasil na PUCRS ao longo de 2013. Ele pediu que trabalhássemos com um mesmo personagem – o nosso protagonista – durante todo o ano. Então escrevíamos contos de acordo com o que os exercícios pediam. Quando o curso terminou, eu tinha criado esse hábito de pensar num protagonista de forma mais ampla, digamos, imaginando não só o que eu escrevia nos contos, mas um arco narrativo que desse conta da vida dele “antes” e “depois” daquilo que aparecia nos exercícios. Acho que foi essa experiência que me estimulou a escrever um romance, e não contos, como acaba acontecendo com a maioria dos autores estreantes.

A história do livro se desdobrou a partir de uma imagem – um pouco lembrança, um pouco imaginação – que eu tinha da infância: eu na porta de casa, meu pai chegando, gesso até a metade da canela, uma sacola de plástico presa nesse pé engessado. Escrevi essa cena. Testei vários narradores e vários pontos de vista com essa cena – tudo veio dela –, o que mais tarde me ajudou a descobrir a estrutura do romance. Embora não seja um livro longo, demorei quase cinco anos para terminá-lo: a primeira versão é de janeiro de 2019. Passei a maior parte desse tempo meio paralisado. Como comecei a escrevê-lo com 24 anos, estava bastante inseguro – sobre o texto, o projeto e minha capacidade de conclui-lo.

Dois eventos me ajudaram a sentar a bunda na cadeira e ver o que acontecia, abafando minhas autocríticas por um tempo: uma oficina de escrita de romance que fiz com o Daniel Galera em 2017 e um término de relacionamento em 2018. O primeiro me deu segurança a respeito das minhas escolhas e me proporcionou um olhar mais límpido para o que eu estava escrevendo, o segundo me ofereceu uma sensação de solidão que foi – e hoje sei que é – fundamental para o que eu escrevo.

Em uma nota do livro, você faz menção a uma frase de Jonathan Safran Foer que inspirou o título da obra. Quais leituras acompanharam você durante a escrita de Jamais Serei Seu Filho…?

Em primeiro lugar, A morte do pai, do escritor norueguês Karl Ove Knausgård. Meu livro é mais parecido com o do Safran Foer [Extremamente Alto & Incrivelmente Perto], porque também trata da perda do pai pelo olhar de uma criança que amadurece, sobretudo por meio dessa experiência de morte e de luto. Mas o Knausgård me pegou muito pela honestidade com que elabora questões complexas sem jamais reduzi-las. Pelo contrário, ele complica aquilo que já é complicado – um adulto cavoucando a memória para lembrar de um pai que sempre o assustou, uma presença tão forte na vida dele que parece permear tudo. Há ainda os temas do alcoolismo, o distanciamento da mãe, a relação ambivalente com o irmão, coisas que também aparecem no meu livro e que eu ficava empolgado ao ler no estilo tão detalhista e sóbrio do Knausgård. Acabei lendo todos os volumes da série Minha Luta, e esse primeiro livro, toda a brutalidade dessa relação do autor com o pai e que perpassa todas as demais relações desse filho, foi o que mais me impactou.

Outra leitura importante foi Lincoln no Limbo, do George Saunders, por ter narradores tão inusitados quanto cativantes: os fantasmas no limbo, o caleidoscópio de vozes ingênuas e tristes daquelas pessoas que estavam mortas sem ter consciência disso. Esse livro me ajudou a pensar no pai respondendo as cartas do filho no meu romance, essa voz do além. Enclausurado, do Ian McEwan, li pelo narrador-feto e achei divertido. Tipos de Perturbação, da Lydia Davis, achei incrível por mostrar que a literatura pode ser qualquer coisa – um estranhamento que alargou minha compreensão da ficção, como o romance do Saunders.

Um livro que me impactou muito e que me influenciou – por ter um narrador em segunda pessoa que passava uma sensação de proximidade e intimidade –, foi Noite Dentro da Noite, do Joca Reiners Terron. Aquele “você”, o narrador que conta para o protagonista sua própria história, me encantou, e foi dali que tirei a dipirona como narradora.

Há ainda todos os livros do Alejandro Zambra, autor incontornável para mim, pelo menos até aqui, por ter um estilo tão melancólico e gracioso e brincar com a ideia de um texto literário que comenta a si mesmo e não se importa em se mostrar como artifício, quase como brincadeira, quase como se confessasse: “olha, o que vocês estão lendo é só literatura”. Foi o que quis fazer com a dipirona: criar um narrador que fosse, ele mesmo, um artifício para abordar a escrita. A dipirona é a “forma”, no sentido mais amplo possível, do protagonista pensar sobre as narrativas – a que ele elaborava para o pai, a que ele elaborava para ele mesmo, como um discurso interno. Por isso ela faz referências a mecanismos internos do texto.

Na orelha da publicação, a escritora Luisa Geisler destaca a “eterna promessa de começo” da narrativa, e na página 87, lemos que a história está sendo contada “aos pulos”. Como você pensou o encadeamento de capítulos?

Acho que o livro tenta tornar nebulosa a fronteira a partir da qual uma história começa. O protagonista tinha três anos quando o pai morreu, então para ele é difícil precisar quando a narrativa da morte do pai, que se confunde com a narrativa da sua própria vida, tem início. O fato de ele não ter com quem conversar sobre isso não ajuda, e aí há todo esse esforço de tentar reconstruir os eventos de origem daquele trauma. O “aos pulos” era para marcar essa não linearidade, marca dessa reconstrução cheia de vazios, de espaços em brancos, como o narrador chama. No fim, ele aprende a “gostar” desses espaços em branco porque, por meio deles, a vida com o pai pode ser inventada. Quando percebi que o protagonista não poderia narrar toda a história é que comecei a testar os outros narradores. Minha ideia era apontar a impossibilidade de uma história ser só UMA história – elas são várias ao mesmo tempo, depende de quem conta e da nossa disposição em ir encaixando as peças.

As sessões de terapia e a elaboração do luto por meio da escrita têm um papel central ao longo da narrativa. Poderia nos falar um pouco sobre esses dois elementos?

Eu comecei a fazer terapia no início da vida adulta, depois de crises de ansiedade que evoluíram para crises de pânico. Também tive um luto complicado mais ou menos na mesma época. Foi então que passei a me interessar por psicanálise. Embora meu processo terapêutico não guarde nenhuma semelhança com o do protagonista do livro, eu também questionava o tratamento pela Terapia Cognitiva Comportamental, mesmo que a linha tenha funcionado muito bem comigo para tratar o pânico. Lembro de ler em algum lugar uma entrevista (acho que foi uma entrevista) com o escritor norte-americano David Foster Wallace em que ele contava que tinha muitos livros de autoajuda em casa e que costumava lê-los, porque não entendia como esse esforço de pensamento tão fundamental – o de conhecermos a nós mesmos e sermos honestos a respeito de nós mesmos para tentar viver uma vida menos ansiosa – fosse objeto de interesse apenas desse discurso que, na maioria das vezes, é preguiçoso. Na minha cabeça leiga, uma luzinha piscou e eu relacionei o discurso da TCC com o da autoajuda.

Se eu não fosse tão novo naquela época, teria feito uma pesquisa mais séria para escrever os trechos a respeito da psicoterapia e das abordagens do personagem terapeuta, mas para dizer a verdade eu não fiz isso. Inventei ali o que achava que um psiquiatra-terapeuta faria, talvez justamente porque queria descobrir, por meio da escrita, como o protagonista, como um tratamento mais próximo da análise lidaria com aquele caso. Mas claro que não inventei a partir do nada. Li Luto e Melancolia e partes de Inibição, Sintoma e Angústia, do Freud; Além da Depressão, de Darian Leader; O Demônio do Meio-dia e Um Crime da Solidão, do Andrew Solomon; Meus Tempos de Ansiedade, de Scott Stossel; e Livre de Ansiedade, de Robert L. Leahy. Também li alguns textos sobre criação literária a partir do luto.

Todas essas leituras me serviram e me ofereceram ideias que estavam na minha cabeça enquanto escrevia e que, de uma forma ou outra, talvez até meio inconsciente, eu levei para o meu livro. Psicanálise e literatura são campos que se aproximam em muitos aspectos. O protagonista do livro precisava se tornar “autor” da própria narrativa, elaborar sua história e a história do seu luto, e principalmente entender. Como leitor, acho que todo livro bom tenta entender, mesmo reconhecendo que essa tentativa vai sempre resultar em fracasso. O bonito desse tentar é nunca conseguir. Uma frase do Freud que anotei durante a escrita seria uma boa epígrafe se não fosse tão autoexplicativa: “A falta da pessoa amada (ansiada) é o caminho para o entendimento da angústia”.

[Continua...]

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