Literatura, Reportagens

“Uma Tristeza Infinita”: Antônio Xerxenesky narra traumas e busca de cura no pós-guerra

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“Uma Tristeza Infinita”: Antônio Xerxenesky narra traumas e busca de cura no pós-guerra Antônio Xerxenesky. Foto: Renato Parada

O escritor Antônio Xerxenesky lança nesta quinta-feira (9/9), às 19h, em live da Companhia das Letras com o escritor Bernardo Carvalho, o livro Uma Tristeza Infinita. A narrativa se passa no começo dos anos 1950, em um vilarejo suíço para onde Nicolas, um jovem psiquiatra francês, foi viver com sua esposa, Anna. A mudança para as montanhas é motivada por uma oportunidade de trabalho em uma clínica psiquiátrica que acolhe pacientes traumatizados pela Segunda Guerra Mundial.

“Sou há muito tempo um nerd da Segunda (e Primeira) Guerra Mundial, sempre lendo livros que detalham minúcias do conflito, mas nos últimos anos passei a me interessar mais por questões civis. Fiquei fascinado pelo livro A Ordem do Dia, de Éric Vuillard, que narra como os principais empresários da Alemanha decidiram ‘fechar’ com Hitler, achando que ele seria ideal para a economia. Foram donos de empresas que seguem ativas, inclusive no Brasil, como Allianz, Bayer…”, conta o escritor.

Capa de “Uma Tristeza Infinita”

Porto-alegrense radicado em São Paulo, Xerxenesky também refletiu sobre as consequências da adesão ao autoritarismo nazifascista no pós-guerra: “O que fazer depois do colapso do fascismo? Pensei nos arrependidos, nos envergonhados, nos que continuavam secretamente apoiando as ideias nazistas, e, é claro, os que não apoiaram, mas conviviam com ex-apoiadores”.

Nascido em 1984, Xerxenesky já teve obras traduzidas para diversos idiomas (árabe, espanhol, italiano e francês), além de ele próprio atuar como tradutor. Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Em 2017, participou de uma residência artística da Fondation Jan Michalski, em Montricher, no cantão de Vaud, na Suíça, onde começou o projeto do livro, cuja proposta inicial envolvia vampiros imortais vivendo no Brasil.

“Fiquei tão hipnotizado pelo local onde estava – um vilarejo minúsculo ao lado de uma floresta enigmática que se cobria por nuvens – que acabei abandonando o projeto de situar a trama no Brasil. Pouco a pouco, também notei que não tinha motivos para escrever uma história fantástica, parecia teimosia minha querer continuar publicando romances que subvertiam gêneros populares. Meus interesses tinham mudado”, explica o autor, que também escreveu o romance policial F(2014) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, lançado originalmente pela Rocco e agora no catálogo da Companhia das Letras – e As Perguntas (Companhia das Letras, 2017), abordando os universos da cultura pop e do ocultismo.

Os desenvolvimentos da psiquiatria e da psicanálise na década de 1950 ocupam um espaço de destaque em Uma Tristeza Infinita. O protagonista, Nicolas, e a clínica onde ele trabalha exploram tanto a psicoterapia como o uso de medicamentos como alternativas a tratamentos como o eletrochoque. “Poderia listar os inúmeros livros que li para compor as cenas, mas minha maior referência foi ter deitado no divã por, sei lá, 15 anos da minha vida”, conta Xerxenesky, destacando o interesse pelos limites muitas vezes difusos da saúde mental – dos desequilíbrios químicos aos efeitos de traumas coletivos.

Os debates científicos do período pós-guerra atravessam a narrativa não só nos termos de funcionamento do cérebro e da psique. Temáticas vinculadas ao campo da física também estão presentes no livro, compondo o momento histórico marcado por reflexões sobre o uso de armas nucleares.

“Sou um ex-aluno de Física – cursei dois anos na UFRGS e até trabalhei como estagiário no Laboratório de Magnetismo. Sempre fui fascinado pelo assunto, ao mesmo tempo em que reconheço o perigo de desenvolver uma visão ‘puramente’ científico-materialista do universo, que tem suas limitações e não nos ajuda em muitos dos momentos que somos confrontados com medos irracionais”, afirma Xerxenesky.

As inquietações em torno dos benefícios e das consequências catastróficas do desenvolvimento da ciência perpassam os diálogos do personagem Nicolas com seus colegas e pacientes e com sua esposa – logo no começo da história, Anna consegue um emprego na renomada Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, conhecida pela sigla CERN. 

“Nicolas e Anna são resquícios do meu projeto original – uma cientista e outro ‘de humanas’ que tentavam dar conta de explicar sua imortalidade. O verdadeiro trabalho da construção dos personagens foi o de torná-los complexos: não queria que Anna fosse mera porta-voz das ciências duras e Nicolas o seu oposto”, conta o autor de Uma Tristeza Infinita.

Nas trocas entre os personagens, a espiritualidade, a potência da palavra e o papel transformador dos afetos emergem como caminhos possíveis diante das incertezas, como observa a escritora Noemi Jaffe na orelha da publicação: “Quando a razão científica não consegue aplacar as dúvidas, o que resta a um psiquiatra cético e sensível, tratando pacientes logo após a Segunda Guerra Mundial?”. Segundo a autora, “a melancolia deste livro atinge também o leitor que, tantos anos e tanta farmacologia depois, ainda não tem as respostas. Um romance que nos coloca em estado de iminência: da fé, do amor e do autoconhecimento”.

[Continua...]

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