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Amaro Freitas voa para o futuro mirando o passado

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Amaro Freitas voa para o futuro mirando o passado Foto: Jão Vicente/Divulgação

Da periferia do Recife à promessa de ícone internacional do jazz, o pianista Amaro Freitas é um desses singulares casos de aclamação da crítica desde seu álbum de estreia. O jovem músico ganhou projeção ao colocar o jazz para dançar com o frevo, o baião, o maracatu e outras riquezas dos ritmos nordestinos. 

O posto de revelação do jazz internacional por “uma abordagem do teclado tão única que é surpreendente” – segundo a conceituada revista especializada norte-americana Downbeat – com os primeiros e ótimos álbuns Sangue Negro (2016) e Rasif (2018), inaugurou a parceria com a gravadora inglesa FarOut. Nos últimos anos, Amaro circulou por turnês no Brasil e no exterior, em festivais como a edição nacional do Montreux Jazz Festival,  além de participar de parcerias com Lenine (no projeto Em Trânsito) e Milton Nascimento e Criolo – é do virtuoso instrumentista o piano em duas faixas do EP Existe Amor: Cais e Não Existe Amor em SP.  

Nesta sexta-feira (25/6), Amaro lança seu novo disco: Sankofa, que tem patrocínio da Natura Musical e realização da 78 Rotações Produções, é resultado de uma busca espiritual por histórias esquecidas, filosofias antigas e figuras inspiradoras do Brasil negro. 

“Trabalhei para tentar entender meus ancestrais, meu lugar, minha história como homem negro. A história dos povos originários, das diversas etnias que ocuparam este território, de como somos plurais. O Brasil não nos disse a verdade sobre o Brasil. A história dos negros antes da escravidão é rica em filosofias antigas. Ao compreender a história e a força de nosso povo, pode-se começar a entender de onde vêm nossos desejos, sonhos e vontades”, justifica o artista pernambucano.

Sankofa é um símbolo Adinkra – conjunto de símbolos ideográficos dos povos acã, da África Ocidental –, que representa um pássaro com a cabeça voltada para trás. Quando deparou com essa imagem estampada em uma bata à venda em uma feira africana no Harlem, em Nova York – bairro que historicamente foi palco de grandes pianistas do jazz como Thelonious Monk e Art Tatum –, o brasileiro compreendeu a importância do seu significado e fez dele o conceito fundamental para o seu novo álbum.

“O símbolo do pássaro místico, que voa de cabeça para trás, nos ensina a possibilidade de voltar às raízes para realizar nosso potencial de avançar. Com esse álbum quero trazer a memória de quem somos e homenagear bairros, nomes, personagens, lugares, palavras e símbolos que vêm de nossos antepassados. Eu quero comemorar de onde viemos”, resume Amaro. 

Com a colaboração de Jean Elton (baixo) e Hugo Medeiros (bateria), que formam o Amaro Freitas Trio desde seu início, o pianista emprega intrincados padrões rítmicos e variações de compasso. Cada faixa é imbuída de uma mensagem ou uma história que o solista quer contar.

Baquaqua, por exemplo, destaca a história raramente contada do africano Mahommah Gardo Baquaqua, originário do atual Benim, que foi trazido para o Brasil como escravo, mas fugiu para Nova York em 1847, onde aprendeu a ler e escrever. Sua autobiografia foi publicada pelo abolicionista norte-americano Samuel Moore e hoje é o único documento conhecido sobre o comércio de cativos escrito por um ex-escravizado do Brasil.

Já a delicada Vila Bela leva o nome de uma área próxima à fronteira com a Bolívia, na região de Mato Grosso, onde Tereza de Benguela, rainha quilombola do século 18, liderou a comunidade negra e indígena na resistência à escravidão por duas décadas. Nascimento é uma homenagem calorosa a Milton, que Amaro vê como um talismã da cultura negra brasileira contemporânea – e lembra de seu encontro com o cantor e compositor e Criolo: “Foi uma experiência inesquecível. Milton é amor, leveza, arte e memória”.

Ayeye, o momento mais alegre de Sankofa, significa celebração em iorubá e apresenta um piano vibrante em uma batida de baixo repleta de groove. Batizado em homenagem ao boi mítico da região tropical do Maranhão, Cazumbá expressa a conexão Norte e Nordeste de um Brasil negro, indígena e caboclo, engatando em seguida um groove jazz rock.

“Eu começo com teorias e ideias, mas então a emoção se derrama nas notas e se transforma em música”, explica Amaro. Entre suas influências estão os cantos da igreja evangélica que escutava na infância, o jazz e os ritmos da tradição nordestina.

Como todos os álbuns de Amaro, Sankofa levou cerca de três anos para ser feito, com o trio passando oito horas por dia durante quatro dias por semana no estúdio. “Valorizamos o processo criativo. Sabemos que leva tempo para chegar a um lugar diferente, para entendê-lo e traduzi-lo. É dedicação, disciplina e sabedoria. Meses se passam e as ideias começam a se encaixar. O tempo é o mais importante. Não podemos chegar onde queremos sem ele. Tenho o desejo de dizer às gerações futuras: vamos desacelerar, vamos nos dar mais tempo, vamos fazer coisas mais profundas. Vamos parar de nadar na superfície, vamos mergulhar”, convida o jazzista.

Na entrevista exclusiva a seguir, Amaro Freitas comenta mais sobre a concepção e a importância do disco Sankofa, discorre sobre suas influências, revela seus novos projetos e parcerias e reflete sobre o fato de ter sido um garoto negro da periferia que ganhou o mundo: “Eu fico pensando quantos Amaros poderiam chegar aonde estou chegando se o nosso país fosse mais comprometido com o seu povo. (…) Eu não queria ser uma exceção, porque enquanto admirarmos a exceção e acreditarmos na meritocracia estaremos perdidos, sendo hipocritamente incoerentes com a ideia de que esse é um país para todos e que só é ir à luta que você consegue.”

Escute o disco Sankofa aqui.

Amaro Freitas Trio. Foto: Jão Vicente/Divulgação

Seus discos sempre passam por um longo período de gestação e ensaios antes de serem registrados. Como foi o processo de concepção e gravação de Sankofa?

Eu considero que esse terceiro disco traz um aprofundamento ainda maior para a unidade do meu trio. Hugo Medeiros (bateria e percussão) e Jean Elton (contrabaixo) tocam comigo desde meu álbum de estreia. Nossas vivências e experiências nos últimos anos nos proporcionaram sermos ainda mais íntimos e chegar a lugares mais complexos e difíceis. Temos um maior entendimento de como nossos sons combinam um com o outro, e isso vai tanto da escolha do microfone que captou o som e inúmeros dias de estudo e testes, muitos testes pra chegar no que se deseja, por isso a necessidade de longo prazo. O disco também traz uma libertação quando penso em possibilidades. Temos baladas, músicas mais pop, temos um lugar de complexibilidade rítmica ainda mais profundo e ainda free jazz e músicas “não rotuláveis”. Acho que de uma certa forma o que eu estou querendo dizer é que somos muitas possibilidades, e quando conseguimos entender isso o trabalho pode ser mais completo, mais pleno, sem barreiras. Ainda vale a pena afirmar que o fato de termos rodado boa parte do mundo juntos nos deu uma outra visão, uma visão mais universal sobre a música, coisa que só vivendo é possível adquirir. Isso deixou o nosso trabalho com uma cara mais universal também, tem muita coisa sobre o Brasil ali, mas também tem um pedaço de cada lugar que passamos.

As sonoridades de raiz negra sempre estiveram presentes em seu trabalho. Nesse novo álbum, a matriz africana assume uma proeminência evidenciada também nos títulos das faixas. Como essas referências afrodiaspóricas ecoam em sua música?

No meu trabalho sempre ficou muito evidente as referências afro-brasileiras, e em Sankofa eu quero ir além: homenagear a nossa ancestralidade. Sempre gostei de contar histórias com a minha música, de imaginar uma narrativa com as combinações dos sons. Sankofa celebra a ancestralidade a partir de três pilares: quando penso em pessoas que vieram antes de mim, e eu só estou aqui por conta delas; quando penso na mãe natureza e no fato de que cada vez mais vivemos uma sociedade distante dessa conexão com as nossas florestas, montanhas, rios, animais, ou a beleza de um fim de tarde que o céu nos proporciona; e quando penso no poder ancestral do som. O som é o pai de toda criação. Antes de qualquer construção ou existência primeiro ecoou o trovão no vácuo, e assim nasceram todas as coisas. Quero ecoar essa ancestralidade no meu trabalho.

Ainda a respeito de influências, você pesquisou sonoridades, expressões culturais ou artistas especificamente para a criação de Sankofa?

Eu li muito sobre cada história do disco, mas escolhi o caminho que veio de dentro, então em meu processo as músicas foram nascendo enquanto eu pensava nas histórias e relacionava isso a um tipo de estudo que eu estava fazendo. Um exemplo claro disso é Vila Bela, nessa música eu gostaria de abraçar Tereza de Benguela, a escrava que virou rainha e liderou um quilombo de negros e índios, e agradecer  por tudo que ela fez. Então fechei meus olhos e comecei a criar uma melodia com notas longas e pianíssimos. Tecnicamente falando, essa música não tem uma dificuldade rítmica, mas uma dificuldade sonora que exige muita concentração e equilíbrio para não perder a elegância do toque e nem do abraço. Em Baquaqua, dedicada ele, Baquaqua, africano sequestrado que virou escravo no Brasil, conseguiu fugir para os EUA e ser o primeiro ex-escravo a ter sua história contada em livro, tento trazer uma jornada que passa por vários lugares com vários contrapontos e vários deslocamentos, mas sem perder a pulsação da música, pois Baquaqua conseguiu viver, apesar de toda a árdua jornada. Ele é um poderoso ancestral que nos traz o relato de sua vida. Sua autobiografia é muito importante para o povo preto brasileiro, e no final eu mudo o roteiro da música para sons que me trazem esperança e também o lema que não podemos parar de lutar por um mundo melhor.

Para além de uma homenagem, o tema Nascimento também evoca sua participação em duas faixas do projeto Existe Amor. O que significou para você dividir aquele trabalho com Milton Nascimento e Criolo, dois grandes artistas negros da música popular brasileira de diferentes gerações?

Para mim foi um presente, uma dádiva da vida poder conhecer e tocar com o Milton Nascimento, e também ter a oportunidade de ganhar um irmão como o Criolo. Acho que esse encontro celebra o poder da arte de unir pessoas de lugares tão distintos com vivências e histórias tão únicas para celebrar o Brasil que, além de todas as pancadas, consegue sobreviver, e além de sobreviver é capaz de trazer um pouco de leveza para seu povo com a beleza da criação dos sons que têm capacidade de suspender a vida por alguns instantes, nos fazendo respirar um pouco. A música brasileira é preta, e esse encontro se torna potente nesse lugar também, pois estamos falando de três gerações, de três potências cujo resultado do encontro trouxe ao mundo a pureza das nossas almas. Como disse Baquaqua, somos seres que temos alma, história e muita sabedoria. Acho que esse encontro transborda beleza.

Do início na periferia de Recife até chegar à consagração internacional, sua carreira artística é notável e excepcional. Como você avalia sua trajetória até agora?

Acredito que minha trajetória prova pra mim que é possível chegar aonde quisermos. Eu dei muito duro, mas também dei muita sorte em minha caminhada até aqui, de encontrar pessoas muito sérias e muito inteligentes. Tantos meus parceiros de música como meu empresário e todos os colaboradores que estão comigo. Estamos muito alinhados nas ideias e isso faz com que o projeto cresça de forma saudável. Eu fico pensando quantos Amaros poderiam chegar aonde estou chegando se o nosso país fosse mais comprometido com o seu povo. Se tivéssemos mais condições, uma boa educação, um projeto sustentável e que desse oportunidades de crescimento. Sonho com essa realidade, eu sei o quanto dei sorte em ter um pai que tocava os instrumentos e ter um lugar pra poder desenvolver a música. Mas tudo poderia ser diferente, é só olhar as estatísticas da periferia. Eu não queria ser uma exceção, porque enquanto admirarmos a exceção e acreditarmos na meritocracia estaremos perdidos, sendo hipocritamente incoerentes com a ideia de que esse é um país para todos e que só é ir à luta que você consegue. Precisamos de um projeto urgente que desmoralize toda uma construção doentia que vai querer dizer onde é o lugar de cada um, e que faz muitos de nós acreditar e aceitar esse lugar, sem ter autoestima para perceber ou acreditar que em algum lugar existe uma potência dentro de nós, e que todos nós temos algo incrível para trazer nesse mundo.

Por falar em repercussão no exterior, você também tem projetos com músicos estrangeiros?

Se não fosse a pandemia estaríamos desenvolvendo alguns projetos no exterior. Tivemos que adiar algumas coisas. Mas isso é uma história que estamos construindo, ainda não temos um prazo exato de quando iniciaremos os projetos internacionais, ainda estamos voltando deste momento tão delicado. Mas acredito que logo, logo traremos novidades.

O que você está escutando atualmente?

Eu tenho escutado muita coisa, tanto toda essa nova cena de jazz de Londres, como Nubya Garcia e Shabaka Hutchings, por exemplo, como Vijay Iyer, Robert Glasper, Moacir Santos, Thelonious Monk, Christian Scott, The Bad Plus, as bandas de cultura popular do meu Nordeste, Naná Vasconcelos, Milton Nascimento, Dom Salvador, os hinos da igreja e muitas outras coisas.

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