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Catálogo online reúne legado de Radamés Gnattali

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Catálogo online reúne legado de Radamés Gnattali Radamés Gnattali. Foto: Wilton Montenegro/Catálogo Radamés Gnattali

O legado de um dos maiores nomes da música brasileira no século 20 pode ser consultado desde segunda-feira (30/11) em um novo site. Produzido com um orçamento de R$ 178 mil obtidos no edital Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e realizado em parceria com o Instituto Casa do Choro, do Rio de Janeiro, o Catálogo Radamés Gnattali de Música Popular reúne registros da trajetória do porto-alegrense Radamés Gnattali (1906-1988).

A página que entrou no ar nesta semana é a atualização de um CD-ROM lançado em 2005, com patrocínio da Petrobras, e de um site que funcionou de 2006 a 2017. Algumas funcionalidades da nova versão, como a consulta a partituras, ainda não foram concluídas devido à pandemia de coronavírus, que paralisou parte das atividades de instituições e empresas parceiras do projeto.

Ainda assim, por meio de uma série de registros já catalogados e apresentados no site, é possível mergulhar na vasta atuação de Radamés como pianista, compositor, arranjador, maestro da Rádio Nacional ao longo de décadas e parceiro de gigantes com Pixinguinha e Tom Jobim.

Radamés e Tom gravam juntos, a dois pianos, o choro “Meu Amigo Radamés”, de Tom Jobim, em 1985. Foto: Toca Seabra/Catálogo Radamés Gnattali

“É uma obra infinita, não sei como ele conseguiu escrever tanta música. Uma enorme quantidade de trabalho ao mesmo tempo: filmes, músicas para peças de teatro, arranjos da Rádio Nacional e muitas gravações de discos”, conta o compositor e instrumentista Roberto Gnattali, sobrinho do maestro, que há cerca de 20 anos cataloga, ao lado da pesquisadora e também instrumentista Adriana Ballesté, a produção artística de Radamés e seu percurso entre a música de concerto e popular.

“Popular é quando dá pra tocar na roda de samba ou de choro; quando não dá, é música de concerto”, sintetiza Roberto, bem-humorado, ao abordar os desafios de classificar e catalogar as composições e arranjos do tio – especialmente no que diz respeito ao repertório popular, ao qual Radamés não dedicava o mesmo rigor adotado nas partituras para concerto.

As músicas foram inventariadas a partir da consulta ao arquivo pessoal de Radamés – mantido pela viúva do compositor, Nelly Gnattali –, e outras fontes, sendo posteriormente digitalizadas e catalogadas. Ao todo, entre composições e arranjos para piano solo, duos instrumentais e conjuntos de câmara criados por Radamés, mais de 300 obras já foram catalogadas por Roberto e Adriana. Parte desse material ainda está sendo organizado para publicação no site.

Outro eixo importante da pesquisa foi conduzido na hemeroteca da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde Roberto e a equipe do projeto pesquisaram registros da atuação de Radamés publicados na imprensa desde 1924.

Exame (RS), 1924. Reprodução: Catálogo Radamés Gnattali

Vamos Ler (RJ), 1940. Reprodução: Catálogo Radamés Gnattali

De prodígio do Bom Fim a maestro da Rádio Nacional

Nascido em casa, na rua Fernandes Vieira, em 27 de janeiro de 1906, Radamés era filho de Adélia Fossati, dona de casa e pianista, e do italiano Alessandro Gnattali – marceneiro que chegara ao Brasil em 1896 e se tornaria músico e um dos fundadores da Sociedade Musical Porto-Alegrense. Orientado pela mãe, aos três anos Radamés já tocava piano. Aos nove, recebeu uma medalha do cônsul da Itália por reger uma pequena orquestra de seis crianças que interpretou arranjos escritos por ele.

Aos 9 anos, Radamés Gnattali posa com a medalha recebida do cônsul da Itália. Foto: Catálogo Radamés Gnattali

Aos 14 anos, os pais de Radamés lhe ofereceram a possibilidade de abandonar os estudos no Ginásio Anchieta para se dedicar totalmente à formação musical em um conservatório. Quem conta em detalhes essa história é o jornalista, músico e compositor Arthur de Faria, na série Porto Alegre: Uma Biografia Musical, publicada pela revista Parêntese.

“O Conservatório de Música de Porto Alegre (futura Escola de Belas Artes, hoje Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) era, desde então, uma sólida instituição de ensino de música. Graças à excelente formação musical caseira, no exame de admissão o pequeno [Radamés] já pulou direto para o quinto ano de piano. Tinha 14 e logo seria o aluno preferido do renomado pianista e professor mineiro Guilherme Fontainha, a grande estrela da casa”, conta Arthur no primeiro texto sobre Radamés Gnattali que integra a série.

Com passagens por Paris e Berlim, Fontainha se encantou pelo talento de Radamés e seria o responsável por levá-lo ao Rio de Janeiro para se apresentar na Escola Nacional de Música – dirigida por Fontainha –, em 1924, logo após Radamés se formar como pianista e primeiro aluno do conservatório a receber a Medalha Araújo Vianna.

Radamés Gnattali em 1924. Foto: Catálogo Radamés Gnattali

O convite do professor foi o começo de uma longa trajetória na capital fluminense. Mais tarde, em 1929, entre idas e vindas a Porto Alegre, Gnattali faria sua primeira apresentação com orquestra sinfônica, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Já na década de 1930, viria a ser o pianista de três orquestras da gravadora RCA Victor comandadas por Pixinguinha, e em 1936, assumiria o posto de maestro da Rádio Nacional, posição que ocupou até 1969.

Tudo isso é só um fragmento da história que volta a ter seus registros disponíveis no ambiente digital e narrada por Arthur de Faria à Parêntese – entre outros causos, vale a leitura sobre  a criação do icônico e revolucionário arranjo de Aquarela do Brasil.

“[Radamés] foi brilhante não só como arranjador – ainda que os tenha escrito para, creia, mais de 10 mil músicas, tão diferentes quanto Pirata da Perna de Pau (com Nuno Roland), Asa Branca (Luiz Gonzaga), General da Banda (Blecaute), Vida de Bailarina (Ângela Maria), Tema dos Deuses (Milton Nascimento) e Autonomia (Cartola). Esse mesmo sujeito foi brilhante em todas as outras áreas em que atuou. E foram muitas: pianista, maestro, band leader, compositor erudito e popular. Não por acaso, ganhou no final da longa vida o apelido de Radar. Era mesmo um radar. Um radar que apontou, captou e sinalizou o que de melhor se fez em música brasileira ao longo de mais de 60 anos”, conta Arthur.

O maestro Radamés Gnattali em 1983. Foto: Arquivo Radamés Gnattali

No último texto da série, o jornalista observa: “Dentro dessa obra imensa, o que gera mais interesse hoje é justamente o que está na fronteira entre o erudito e o popular. Fronteira que pouquíssimos compositores trilham com naturalidade e maestria. É o universo de Astor Piazzolla na Argentina, Frank Zappa ou George Gershwin nos Estados Unidos, Kurt Weill na Alemanha. Compositores que escreveram uma música que tem o rigor erudito, mas usa ritmos, melodias e/ou o suingue populares. Uma música que só poderia ser feita por quem, como Piazzolla, Zappa, Radamés ou Weill, em algum momento da vida tocou para as pessoas dançarem”.

“Retrato de Radamés Gnattali”, pintura de 1946 do artista tcheco Jan Zach.

Acesse o Catálogo Radamés Gnattali de Música Popular.

Leia a série Porto Alegre: Uma Biografia Musical, de Arthur de Faria, que contempla a trajetória de Radamés Gnattali contemplada nas partes 1, 2, 3, 4, 5 e 6.

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