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“El Justiciero Cha Cha Cha”: tributo em espanhol celebra Os Mutantes

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“El Justiciero Cha Cha Cha”: tributo em espanhol celebra Os Mutantes Capa: Arnaldo Baptista

Uma homenagem à banda Os Mutantes lançada em 2011 pode finalmente ser escutada pelos fãs brasileiros via plataformas de streaming. Com 18 faixas, o álbum El Justiciero Cha Cha Cha: Un Tributo a Os Mutantes reúne artistas de Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, México e Uruguai para interpretar, em espanhol, clássicos como Desculpe Baby, Dois Mil e Um, Qualquer Bobagem, Não Vá Se Perder por Aí e A Minha Menina.

Participam do álbum, entre outros nomes, o argentino Fito Páez, os mexicanos do Café Tacvba e os colombianos do Aterciopelados. O mutante Sérgio Dias colabora na faixa Vida de Cachorro, enquanto Arnaldo Baptista assina a capa da coletânea.

O compositor Arthur de Faria assina a produção do álbum com o jornalista argentino Humphrey Inzillo e seu compatriota músico Manuel Onís – leia a entrevista com o trio a seguir.

Como surgiu a ideia do tributo em espanhol?

Arthur de Faria: Quando eu participei do Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, tributo ao Odair José, propus ao Sandro Bello, dono do selo Allegro, de Goiânia, essa ideia de um disco feito só com bandas hispanohablantes fazendo versões d’Os Mutantes. Sabia que tinha muita gente na Argentina e no Uruguai que gostava da banda, e como sou megalomaníaco por natureza, já chutei logo América Latina. Comecei o trabalho de convidar gente, sempre com a mesma pergunta: tu conhece Os Mutantes? Gosta? Se a pessoa respondesse não, eu nem seguia. Consegui muita gente assim, e chamei o meu velho amigo Humphrey, jornalista, para escrever os textos do encarte, apresentando os Mutantes e cada banda.

No meio do caminho, me dei conta de que eu só conhecia a cena uruguaia e argentina, e que o Humphrey, nesse momento, estava editando a revista Rolling Stone Argentina e colaborando para um monte de Rollings da América Latina. Era o cara perfeito para me ajudar. Ele não só topou imediatamente, como trouxe junto o Manuel Onís, que ele tinha acabado de conhecer e se encantando, justamente pela influência que o Onís tinha de, inclusive, Os Mutantes. Daí fomos seguindo.

O Sandro nos deu 11 mil dólares (que na época não eram grande coisa) e total liberdade. Fomos contatando os artistas, oferecendo música e, conforme o caso, dando palpites. Os que, mesmo com a gente dizendo que a ideia era recriar, fizeram versões muito próximas do original, não entraram na seleção final. Ninguém ganhou nada e todos amaram participar.

No meio do processo me encantei com dois jovens artistas da Catalunha, o Raül Refree e a Silvia Pérez, e os convidei. Sérgio Dias quis participar, botamos ele com os Aterciopelados, a maior banda da Colômbia. Arnaldo Baptista deu um quadro para a gente fazer a capa com ele. E assim fomos indo.

Humphrey Inzillo: O processo foi artesanal, feito sem pressa devido a nossas múltiplas ocupações, mas com a convicção de que seria histórico. Tentamos que fosse um disco eclético, no sentido de que há muitos artistas do mainstream, consagrados em nível continental, e emergentes, dos quais gostávamos muito e que sentíamos que representavam, cada um a seu modo, algo do espírito d’Os Mutantes. Tínhamos um orçamento restrito para tamanho trabalho, que aplicamos somente nas sessões de gravações e em outras questões, como a ilustração da capa. Nenhum de nós, os três produtores, fomos remunerados, tampouco os artistas. Creio que isso explica parte do legado d’Os Mutantes: o entusiasmo de tantos músicos tão diferentes e talentosos que decidiram se somar ao projeto somente por conta da admiração que tinham pelo grupo.

Capa: Arnaldo Baptista

Nos contem um pouco sobre os artistas que participam do álbum e a relação deles com Os Mutantes.

Arthur de Faria: Todos amam a banda. E tem desde artistas então muito populares como Fito Paez, Aterciopelados e Café Tacvba (que nem são muito conhecidos no Brasil, mas são gigantes na América Latina) até bandas do cenário underground do free jazz colombiano – o Asdrúbal – ou da psicodelia portenha – La Manzana Cromática Protoplasmática. Na época, o Fernando Cabrera só era conhecido no Uruguai, hoje é um nome importante também na Argentina e no Chile. O Raül Fernandez – Refree – virou um big produtor da Espanha e tem um duo com o Lee Ranaldo, do Sonic Youth –, a Sílvia Pérez lota teatros por onde quer que passe em países de língua hispânica. E por aí vamos.

Manuel Onís: Diria que Os Mutantes são um grupo de culto muito valorizado por músicos e jornalistas, mas lamentavelmente não muito conhecido pelo grande público. Quero destacar o interesse imediato que o convite para participar do tributo despertou entre os artistas. Café Tacvba, Fito Páez e Arnaldo Antunes, por exemplo, são grandes admiradores da obra d’Os Mutantes e participaram exclusivamente pela vontade de interpretar o repertório de Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias. Arnaldo Antunes viajou 24 horas até Buenos Aires para gravar com Liliana Herrero a versão de Beija-me, Amor. Fito escreveu um texto falando sobre El Justiciero Cha Cha Cha e a influência do grupo paulista nas novas gerações. O Café Tacvba respondeu à convocatória para participar do disco através do MySpace. Andrea Echeverri (Aterciopelados) gravou, com uma gravidez avançada, em cima dos áudios de guitarra que Sérgio Dias enviou dos EUA. Foi emocionante ver a generosidade e a entrega tanto de artistas consagrados como emergentes.

Por que levou tanto tempo para ser lançado no Brasil?

Arthur de Faria: Porque o excesso de exigências burocráticas derrubou a possibilidade. Era muita gente para autorizar muita coisa, em cartório, mandando por correio, de um trabalho feito de graça, há anos, e que já tinha saído em vários países. Daí o Sandro ficou constrangido de seguir pedindo coisas para as pessoas. Só está saindo agora no Brasil porque está saindo no mundo por um selo argentino, direto nas plataformas digitais.

Como se dá a recepção d’Os Mutantes na América Latina? Vem dos anos 1960 ou acompanha os elogios de artistas de língua inglesa à banda nos anos 1990?

Humphrey Inzillo: Definitivamente é muito mais recente. Na Argentina e em muitos países da América Latina, Os Mutantes nunca foram um grupo popular. Os fãs da banda são iniciados, seja por Beck, David Byrne, Kurt Cobain, Thom Yorke, Devendra Banhart e inclusive David Bowie, que demonstrou interesse pela banda.

Por fim, no contexto brasileiro, o que Os Mutantes representam?

Arthur de Faria: Para mim são, de longe, a melhor coisa que pode ser chamada de rock jamais feita no país. Com uma larga distância do segundo lugar. Os Mutantes são uma das melhores bandas do mundo, em qualquer época. E justamente porque conseguiram deglutir a informação BeatlesSantanaHendrix etc. com tudo que explodia no Brasil naquele momento – e a Rita ainda tinha a bagagem extra de conhecer a tradição da música brasileira. 

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