Música, Reportagens

Lo-fi, gatorras e beatcoins

Change Size Text
Lo-fi, gatorras e beatcoins Cena do clipe de “Beatcoins”. Reprodução: Divulgação Lezma Records

A banda porto-alegrense Gentrificators lançou em julho seu terceiro álbum, o EP Beatcoins, pela Lezma Records. Formado por André Araujo (baixo e voz), Demétrio Pereira (guitarra e voz), Guilherme Maschke (guitarra), Marcelo B. Conter (voz e guitarra) e Paulo H. Lange (bateria e percussão), o grupo apresenta uma sonoridade lo-fi, com letras em inglês, em que vocais e instrumentos se fundem a ruídos, samplers, sons de vídeos do YouTube e às notas de uma gatorra – invento do lendário Tony da Gatorra.

O lo-fi não é um gênero musical, está mais para técnica – utilização de equipamentos precários e baratos para produzir música –, estética – mixagem para ‘sujar’ o som de propósito – e até mesmo política – porque em geral quem produz música lo-fi está se opondo às normas do mainstream”, explica Conter, que fundou a Gentrificators em 2015, inicialmente como projeto solo.

Conversamos com Conter sobre a origem do nome da banda, o interesse pelo lo-fi e sobre o álbum Beatcoins. Clique no vídeo para escutar e confira a entrevista.

Como surgiu a Gentrificators e qual foi o papel da tua passagem pelos Estados Unidos, que incluiu um primeiro encontro com o músico Lee Ranaldo?

Em 2014 eu fui para Nova York fazer parte do meu doutorado. Perdi a Copa do Mundo aqui no Brasil, mas acompanhei as discussões. Em Porto Alegre, estava rolando um debate sobre especulação imobiliária (Arena do Grêmio no Quarto Distrito e planos para o Cais do Porto e para acabar com a boemia da Cidade Baixa). Nos Estados Unidos, tinha um termo já bem popularizado para falar sobre esta prática: gentrificação. Discutia-se muito a tomada de bairros tradicionalmente negros por jovens brancos, como é o caso de Williamsburg (Nova York). Quando voltei ao Rio Grande do Sul, me deu vontade de fazer um disco falando sobre essas coisas, sobre a Cidade Baixa ter uma espécie de toque de recolher no início da madrugada, sobre certo comentarista propor transformar o Mercado Público em um estacionamento… Então coloquei como nome do projeto “Gentrificators”, uma coisa meio inglês “tabajara” para ridicularizar essa onda antiboemia e anticultura alternativa que assola Porto Alegre há anos.

Quanto ao Lee Ranaldo [ex-integrante da banda Sonic Youth], é curioso. Eu fui ver um show dele no Brooklyn, e ele é super acessível. No fim do show ele abriu uma banquinha para vender discos e camisetas de seu projeto solo. Aproveitei e o entrevistei para a minha pesquisa de doutorado. Acabou que nos encontramos outras vezes, não só em Nova York, mas em São Paulo e aqui em Porto Alegre. Eu sempre fui fã de Sonic Youth, e no ano que estive em Nova York comprei uma Fender Jazzmaster, que era um sonho, e que é a guitarra preferida do Lee e do Thurston Moore [também ex-Sonic Youth]. Dá para criar ruídos bem loucos com ela, e isso aparece ao longo de toda a obra da Gentrificators. Os equipamentos que um músico escolhe para produzir sua obra são fundamentais para determinar a timbragem.

Nos conta um pouco mais sobre a tua pesquisa em torno do lo-fi, que resultou inclusive no livro LO-FI: Música Pop em Baixa Definição. Como você se aproximou desse tema? E em linhas gerais, o que é o lo-fi?

Desde meus primeiros projetos musicais sempre me interessei mais por tentar gravar em casa, por conta própria, do que ir a um estúdio. Queria ter controle da mixagem, poder editar as coisas com calma. Tanto os trabalhos da Gentrificators quanto da Musical Amizade – projeto que eu tive entre 2006 e 2010 – foram 100% gravados e editadas em casa. Então sempre me interessei em produção amadora. O lo-fi não é um gênero musical, está mais para técnica – utilização de equipamentos precários e baratos para produzir música –, estética – mixagem para “sujar” o som de propósito – e até mesmo política – porque em geral quem produz música lo-fi está se opondo às normas do mainstream.

Eu vejo como uma máquina de guerra que desestabiliza as regularidades da indústria musical. E geralmente é de políticas sonoras como esta que se criam coisas novas. O Velvet Underground, quando gravou o primeiro disco com a Nico, tinha uma textura sonora lo-fi: mixagem distorcida, suja… Mas depois isso vai ser incorporado pela indústria. É só ouvir White Stripes, que se esforçava nos anos 2000 para soar como se fosse gravações dos anos 1970. Acho que isso acontece com o Oasis também, o disco What’s the Story: Morning Glory! tem esse clima meio sujão, distorcido demais, quase não se entende o que o Liam Gallagher canta!

A Gentrificators mais tarde se tornou uma banda. Como foi esse processo e como ele se refletiu na sonoridade do álbum?

Comecei sozinho porque eu tinha muitos rascunhos e uma pira de fazer algo sozinho do começo ao fim. Mas aconteceu que amigos próximos queriam ver isso ao vivo e alguns foram se convidando para tocar as faixas. Primeiro foi o André Araujo, depois o Demétrio Pereira, que eram meus colegas de pesquisa na UFRGS; daí veio o Guilherme Maschke, que mora perto da minha casa e também fazia mestrado, mas na Unisinos; e por fim o Paulo H. Lange, que tocava bateria na Chimi Churris, uma das bandas da Lezma Records

Penso que enriqueceu muito. O começo foi bem difícil, porque são três guitarristas e todos fazem base e solo – levou um tempo para harmonizar. No fim, o Guilherme timbrou a guitarra bem grave pra fazer par com o baixo do André, enquanto eu e o Demétrio deixamos as nossas mais agudas. As canções do segundo disco, Apt. Kids, são bem mais pop do que as do primeiro [State: Province], e muito mais pra cima, eu acho. Deu muito trabalho, foram meses de pequenas sessões na minha casa enquanto todos nós estávamos estudando.

E agora vocês lançam Beatcoins, em meio à pandemia. Como esse momento influenciou a concepção do disco?

Na sonoridade influenciou pouco, porque as músicas vinham sendo trabalhadas por nós desde 2018. O que “ajudou” foi mais tempo em casa para sentar na frente do computador e terminar de mixar. Só Krakatoa 2020, que parte de um riff de música homônima da Musical Amizade, foi criada quase toda durante a pandemia. O Paulo gravou as vozes dele por áudio do celular e me mandou pelo WhatsApp.

Gatorra, monotron, vídeos do Youtube… Nos conta sobre essas inserções que fazem parte do EP.

Em 2015 eu comprei uma gatorra do Tony [da Gatorra], que era outro projeto de vida meu. Poucos sabem que, além de um instrumento de percussão, dá para fazer uns ruídos muito interessantes, principalmente se você liga a gatorra em pedais de guitarra. Tem um “solo” de gatorra no final de Facebook Memories. O monotron é um aparelho do tamanho de um celular, que gera ruídos, e foi executado por Eric Pedott. Tem uns trechos de vídeos do YouTube que quase não dá para reconhecer rolando no meio do solo de monotron em Krakatoa 2020, executados pela Juliana Kolmar. Sampleamos uma risada dela também, que ficou meio musical. Eric e Juliana são meus alunos no Instituto Federal do Rio Grande do Sul.

O clipe da faixa-título traz um olhar para o período de isolamento. Como foi a gravação desse vídeo?

A gente imaginava há muito tempo, desde antes da pandemia, um clipe só com o Paulo dançando sozinho, porque a gente acha que ele tem um carisma único. Como estava sozinho no apartamento/ateliê dele (Paulo é artista plástico de mão cheia), aproveitou o momento e junto da Letícia Lopes fizeram essas imagens. A gente tentou fugir, na medida do possível, de algumas coisas que já estão clichês na pandemia, como fazer um vídeo com várias telas em que cada membro da banda aparece tocando um instrumento ou qualquer coisa do tipo.


O novo EP da Gentrificators está disponível no Spotify, no YouTube e no SoundCloud. Confira o clipe da faixa Beatcoins:

RELACIONADAS

Quer saber tudo sobre cultura e eventos em Porto Alegre e no RS? Então assine a newsletter do Roger Lerina e receba as dicas no seu e-mail!

Receba de segunda a sexta a Matinal News, a newsletter que traz as principais notícias e eventos de Porto Alegre e do RS.