Música, Reportagens

A “Solitude” de João Maldonado

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A “Solitude” de João Maldonado Foto: Nabor Goulart

Ao longo de uma vida dedicada ao piano, João Maldonado experimentou as mais variadas formações de grupos instrumentais, integrou a banda TNT e gravou três discos com o músico Solon Fishbone – para citar apenas alguns momentos de sua carreira de quase quatro décadas. Depois de Beauty (2019), seu primeiro álbum, em formato quinteto, Maldonado lança Solitude nesta sexta-feira (3/9) como pianista solo.

“É um disco que reflete o que estamos vivendo nos últimos dois anos. A arte e a cultura jamais vão te deixar solitário, no sentido de estar mal. A solitude permite enxergar tudo isso de forma diferente”, conta o músico. Ao explorar a solitude da pandemia, Maldonado resgatou uma partitura de 1987: a peça Hsu – A Espera, com título inspirado em um dos hexagramas do I Ching. A sonoridade minimalista da faixa – que caracteriza a maior parte do álbum, lançado pela Loop Discos, com engenharia de som de Luciano Albo e Bibiana Petek – é fruto de uma imersão do pianista nas obras de compositores como o alemão Anton Webern, o austríaco Arnold Schönberg e os americanos John Cage e Philip Glass.

Partitura de “Hsu – A Espera”. Foto: João Maldonado

Ao explorar seus arquivos durante a pandemia, Maldonado também encontrou anotações do começo dos anos 1980, escritas logo após concluir o ensino médio, em que registrava uma rotina rígida de estudos de piano – disciplina que ele retomou em 2020, ensaiando seis horas diárias de segunda a segunda. “A pandemia me levou para dentro de mim. Não tinha outra alternativa: ou era engolido pelo medo do coronavírus ou mergulhava na criação”, conta o músico. As investigações sonoras foram ampliadas a partir de agosto de 2020 em grupos de estudos de harmonia e improvisação orientados pelo pianista Fabio Torres.

Capa de “Solitude”. Foto: Julio Appel

A segunda faixa de Solitude, intitulada Lago Cinza, evoca a paisagem retratada por Julio Appel na capa do álbum e foi composta a partir de apresentações de Maldonado à beira do Guaíba. Em Minimal, a inspiração na sonoridade de Philip Glass ganha espaço, seguida de Papiro e Lyle, dedicadas respectivamente aos pianistas norte-americanos Lyle Mays e Chick Corea, ídolos de Maldonado que morreram de câncer nos últimos meses – Mays em 2020, Corea em 2021. Ao recordar as perdas, Maldonado cita também a aposentadoria forçada do pianista norte-americano Keith Jarrett, que se retirou dos palcos após sofrer dois AVCs.

Solitude chega ao fim com as faixas Resiliência – que por pouco não foi o título do álbum –, Sisters – evocando outras duas referências de Maldonado, o compositor norte-americano George Winston e o francês Erik Satie – e Variação 1 em G Maior, peça barroca composta a partir da obra de Bach

Embora o resgate de rotinas, composições e referências em um contexto de isolamento social sejam aspectos centrais do álbum, há um elemento coletivo associado ao trabalho: as composições de Solitude integram o documentário do projeto de dança Levanta, Sacode a Poeira, Dá a Volta por Cima, da coreógrafa Eva Schul – as faixas Resiliência e Variação 1 em G Maior foram compostas em 2021, ao longo do processo de concepção do espetáculo.

Durante oito semanas, Maldonado acompanhou o desenvolvimento da proposta, na qual Schul enviava semanalmente uma frase a mais de 20 bailarinos, que por sua vez criavam movimentos individuais e em grupo inspirados nas provocações textuais da coreógrafa. A partir de trocas com os bailarinos e da escuta dos comentários de Schul, o pianista compôs 48 trilhas pensadas para o espetáculo e o documentário do projeto.

Hoje com 56 anos, Maldonado vive intensamente a música desde muito cedo. Aos 7 anos, junto às duas irmãs, começou a tocar piano, presente de sua avó. A mãe de Maldonado tocava piano, e o pai, além de fã de Tom Jobim e Glenn Miller, era trompetista do colégio IPA, em Porto Alegre. No ambiente musical da infância, costumava assistir aos pais dançando em festas familiares ao som de Frank Sinatra e de muito jazz.

[Continua...]

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